A falta de banheiro não é somente uma questão de infraestrutura é um tema diretamente ligado à dignidade humana
Por Robson Melo
Quando o Brasil lutava por sua independência da Coroa Portuguesa, o movimento da Inconfidência Mineira adotou um lema que clamava por liberdade, ainda que tardia: “Libertas quae sera tamen”. Eternizada na bandeira de Minas Gerais, essa frase simboliza a coragem diária dos brasileiros diante de desafios persistentes, alguns especialmente críticos, como o saneamento básico. Esse direito essencial, que não deveria faltar nem tardar, ainda representa uma dura realidade que afeta a população mais vulnerável das periferias e zonas rurais no Brasil.
Os dados do Censo Demográfico de 2022 revelam que 49 milhões de brasileiros ainda vivem sem saneamento básico, o que corresponde a 24,3% da população. Sem esse serviço essencial, uma grande parcela da sociedade fica exposta a doenças como diarreia, hepatite, verminoses, febre tifoide, cólera, leptospirose, amebíase, giardíase, dengue, chikungunya e esquistossomose. Enfermidades totalmente evitáveis, mas que continuam a assombrar aqueles que são obrigados a conviver diariamente com seus próprios dejetos e os de toda a comunidade.
A falta de banheiro não é somente uma questão de infraestrutura — é um tema diretamente ligado à dignidade humana. Embora seja importante enfrentar desafios como a inclusão digital, as mudanças climáticas e a discriminação, é lamentável que o sistema de esgoto nas cidades ainda não receba a atenção proporcional à sua importância.
Mas há algumas luzes no final do túnel. Uma delas é a iniciativa do Instituto Água Viva, ONG capixaba filiada à Fundaes e braço social da empresa FortLev. A organização tem levado não apenas água, mas dignidade a quem mais precisa, por meio de um projeto que leva banheiros secos para o sertão nordestino. No entanto, ainda é preciso que essa iniciativa ganhe escala e alcance os muitos outros “sertões” do Brasil, inclusive nas periferias urbanas.
Conforme explica Carlinston de Lima Pereira, diretor do Instituto Água Viva, o banheiro seco é um sistema descentralizado que não utiliza água, produtos químicos, energia elétrica ou conexão com a rede de esgoto para realizar o tratamento do resíduo. A FortLev é a detentora dessa tecnologia social e responsável pela fabricação desse equipamento.
Essa iniciativa merece nosso reconhecimento e apoio. Meu desejo é que ela sirva de inspiração e mobilize outras empresas capixabas a se engajarem nessa luta e que o saneamento básico esteja entre as prioridades que exigimos de nossos governantes.
Como nos lembra Hannah Arendt: “O respeito à dignidade humana implica o reconhecimento de todos os homens ou de todas as nações como entidades, como construtores de mundos ou coautores de um mundo comum.”
Dignidade ainda que tarde!
Robson Melo é presidente da Federação do Terceiro Setor Capixaba – Fundaes

