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O futuro que mora no passado

A sociedade moderna corre atrás de progresso, mas esquece a simplicidade, a alegria e a verdade da infância

O futuro que mora no passado

Por Luiz Fernando Schettino 

Dias de angústia, quem não os tem? Vivemos em uma era de avanços extraordinários — a ciência nos revela os mistérios do universo, a tecnologia nos conecta em segundos, e a inteligência artificial já conversa como gente. Mas, paradoxalmente, nunca estivemos tão desconectados de nós mesmos.

A ansiedade virou epidemia silenciosa. A empatia, espécie em extinção. A polarização política transformou o diálogo em duelo, e o respeito em trincheira. Há uma guerra invisível sendo travada todos os dias: pela sobrevivência, pela dignidade, pela paz de espírito. E nesse campo minado, muitos caminham sem saber se chegarão ao fim do dia com a alma inteira. O planeta também grita. O aquecimento global não é mais previsão — é realidade. As estações perderam o compasso, os rios secam, as florestas ardem, e o ar que respiramos já não é o mesmo.

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O progresso que deveria nos salvar parece, às vezes, nos consumir. E em meio a tudo isso, bate uma saudade. Saudade dos tempos de criança. Havia menos conforto, menos tecnologia, menos velocidade — mas havia mais verdade. As amizades eram feitas com olhar, os contratos selados com um aperto de mão. O silêncio da noite era respeitado, os pássaros cantavam sem competir com notificações. Os rios tinham cor de rio. E o ar, esse sim, era puro como a inocência que nos habitava.

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Hoje, a mentira ganhou nome pomposo: fake news. O charlatanismo se disfarça de fé. A política virou espetáculo, e o respeito, uma moeda cada vez mais desvalorizada. O que diria Baruch Espinoza diante de tanta dissonância entre razão e emoção? E Jesus Cristo, que pregava o amor ao próximo, o que pensaria ao ver o próximo transformado em ameaça?

Mas há esperança. Sempre há. Talvez o caminho seja longo, mas ele existe — e curiosamente, aponta para trás. Para reencontrar no futuro aquilo que deixamos no passado: a essência humana, a paz sem filtros, a alegria sem curtidas, a simplicidade que não precisa de manual, o gesto fraterno que não exige legenda.

Porque o passado não era perfeito, mas era inteiro. Era feito de tardes na calçada, de cheiro de café coado, de brincadeiras que não precisavam de bateria. De vizinhos que sabiam o nome uns dos outros. De promessas que não precisavam de assinatura digital. De fé que não se media em seguidores. De humanidade que não se perdia em algoritmos.

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Que Deus ilumine o ser humano. Que nos lembremos que o progresso verdadeiro não se mede em gigabytes, mas em gestos de gentileza. Que o futuro que vale a pena seja aquele que carrega o perfume da infância — onde tudo era menos, mas tudo era mais.

Luiz Fernando Schettino é engenheiro florestal, mestre e doutor em Ciência Florestal, advogado, escritor, professor titular de Ecologia e Recursos Naturais da Ufes -1992 a 2021.

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