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Calor, negação e um céu em chamas

Há quem diga que tudo isso é “exagero ideológico”. Que o calor sempre existiu. Que em 1937 também fez calor, e ninguém ficou falando de responsabilidade coletiva

Por André Gomyde

O calor não é mais uma metáfora de verão. Não é mais aquele “calor humano” das festas de família ou o “calor do momento” que justifica uma decisão impulsiva. O calor agora é real, bruto, assassino — e, segundo a Organização Meteorológica Mundial, silencioso. Como todo vilão que sabe o que faz.

Na França, uma menina de dez anos morreu de insolação. Na Espanha, uma criança de dois foi esquecida dentro do carro — e o carro virou forno. Em Portugal, a cidade de Mora derreteu em 46,6 graus, recorde nacional para junho. A Alemanha liberou alunos da escola porque o termômetro ameaçava ferver os cadernos. Até os alemães, metódicos e resistentes, abriram mão da aula (ação que eles chamam de “hitzefrei”). E não era por greve.

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Enquanto isso, do lado de cá, há quem diga que tudo isso é “exagero ideológico”. Que o calor sempre existiu. Que em 1937 também fez calor, e ninguém ficou falando de carbono, efeito estufa ou responsabilidade coletiva. O problema — e é sempre bom lembrar — é que em 1937 a Terra ainda respirava. Hoje, ela está ofegante.

Temos queimadas na Espanha, incêndios que confinam 14 mil pessoas na Catalunha, insolação em série na França, e o pessoal ainda discutindo se Greta Thunberg é boa atriz. Como se a opinião pessoal pudesse suar menos os europeus ou apagar o fogo no Alentejo.

Negar as mudanças climáticas virou esporte ideológico. E como todo esporte que vicia, afasta do mundo real. O mundo real, aliás, está com 46 graus na sombra e chamando pelos bombeiros. Só que os bombeiros, desta vez, não bastam. Nem as palavras da porta-voz da OMM: “É algo com o qual temos que aprender a conviver.” Convenhamos, Clare — a gente se resigna a uma sogra insistente, não ao colapso climático.

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E pensar que tudo isso é resultado de escolhas humanas. Daquele escapamento que soltou um pouco mais do que devia. Daquela floresta que virou gado. Daquela fábrica que precisava lucrar mais. Do combustível fóssil que ainda parece mais “confiável” que o sol, o vento e a água — essas três senhoras desprezadas como se fossem hippies aposentadas.

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A verdade é que o planeta está falando. Aliás, está gritando, tossindo, suando. E a gente, no ar-condicionado, muda de canal.

Mas é bom lembrar: a natureza não precisa da gente. Somos nós que precisamos dela. E, nesse ritmo, vai chegar o dia em que o clima não vai mais mudar. Vai, simplesmente, sumir. E com ele, nós.

Sem “hitzefrei”. Sem desculpa. Sem planeta B.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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