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Ofensiva contra o ESG e o risco de retrocesso global

Com o fortalecimento do discurso conservador nos EUA, cresce a resistência às pautas de diversidade nas grandes corporações — mas os números mostram que o desmonte pode ser mais político do que prático

Por Simone Azevedo

Um movimento político e corporativo contrário às práticas ESG — sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança — voltou a ganhar fôlego nos Estados Unidos, impulsionado pelo retorno de Donald Trump à Presidência dos EUA. A agenda, que já havia sofrido abalos durante seu primeiro mandato, ameaça agora influenciar o direcionamento estratégico de investimentos e políticas empresariais em escala global. Com a mudança de foco, fundos e investidores podem começar a priorizar aspectos ambientais e de governança em detrimento das metas sociais.

Governadores conservadores têm aprovado leis que proíbem fundos públicos de considerar critérios ESG em suas decisões. Grandes bancos e gestoras, como BlackRock, abandonaram alianças climáticas diante de pressões políticas. No entanto, esse ruído pode estar superdimensionado. “Quando chega a hora de votar nas assembleias, essas pautas anti-ESG recebem, em média, apenas 1,9% dos votos, segundo análise da Harvard Law School.

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Ou seja, muito barulho por quase nada”, afirma Dani Klein, diretora técnica do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB) e líder de curadoria da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil.

Tal como o muro que Trump ergueu na fronteira com o México, um novo muro simbólico parece se levantar — desta vez, contra avanços em diversidade, equidade, inclusão, as chamadas políticas DEI – e condições de trabalho mais justas. Mas o cenário é mais complexo do que aparenta. A resistência aberta às pautas ESG pode acabar esbarrando na realidade econômica e jurídica, com consequências que podem ser negativas para empresas e para a economia global. Algumas empresas culpam “questões orçamentárias”.

Segundo a Bloomberg, multinacional de serviços financeiros e dados, seis em cada 10 “apontam as políticas do presidente Donald Trump em relação ao transgenerismo e diversidade, equidade e inclusão (DEI) como um impulsionador”.

“A responsabilidade social é um selo de segurança, legitimidade e credibilidade para as empresas. Esse desmantelamento das políticas de ESG vai acabar esbarrando na esfera judicial, porque as empresas vão começar a ter dificuldade de se refinanciar.

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Não valorizar os pilares ESG representa um retrocesso, e as empreas que fizerem isso vão ser ultrapassadas pelas concorrentes. E isso poderia gerar uma externalidade negativa na economia mundial e uma possível crise, com desemprego, redução da arrecadação governamental e redução do consumo”, avalia o economista e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Estado (Corecon-ES), Ricardo Paixão.

A ascensão de valores mais conservadores em muitos governos mundo afora, e em particular nos EUA, tem tido repercussão especialmente no campo das políticas ESG voltadas à inclusão de certas minorias, como grupos identitários, raciais e outros, levando a uma redução do investimento nessas áreas, rotuladas como “políticas woke”. O termo tem ganhado conotação pejorativa no mundo corporativo, e grandes empresas americanas como a Amazon.com e a Meta já anunciaram recuo nessas políticas sociais. Em fevereiro deste ano, o Google se juntou a elas e anunciou que não mais estabeleceria metas de contratação para grupos sub-representados. Com isso, a gigante da tecnologia busca se adequar à nova realidade imposta pela gestão republicana.

“É importante diferenciar o movimento anti-woke do movimento anti-ESG. O movimento anti-woke se concentra mais em desconstruir a narrativa ideológica que fornece sustentação para algumas políticas definidas como ESG e DEI. Uma parte do movimento anti-woke apenas defende que os critérios para implementação de políticas ESG sejam estratégicos e técnicos, afastando-se da ideologia. O movimento anti-ESG, por sua vez, diz que as empresas não devem considerar o impacto de suas operações nas esferas ambiental, social e de governança, buscando a minimização dos custos a qualquer preço. Isso parece um contrassenso com as demandas contemporâneas de mercado”, explica Poliano Bastos, professor da Fucape e especialista em ESG e governança.

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De acordo com Bastos, uma estratégia clara adotada pelas empresas para lidar com pressões políticas e judiciais tem sido o rebranding (reformulação da identidade de uma marca) de seus departamentos e programas internos, abandonando termos explicitamente ligados à diversidade. “O recuo global das políticas ‘woke’ também tem impulsionado práticas corporativas mais discretas, caracterizadas pelo chamado “hushing” (silenciamento). Trata-se de uma estratégia pela qual as empresas mantêm iniciativas internas de diversidade e inclusão, porém reduzem a divulgação pública dessas práticas. Com isso, empresas buscam manter a inclusão internamente sem atrair críticas externas de grupos políticos ou consumidores que se opõem a práticas vistas como politicamente carregadas”, destaca o professor.

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Mapa com o panorama global das políticas ESG em 2025 com dados da Anbima, Harward Law School, IBCG, Blend Edu e Comissão de Valores Mobiliários. Foto: Next Editorial
Mapa com o panorama global das políticas ESG em 2025 com dados da Anbima, Harward Law School, IBCG, Blend Edu e Comissão de Valores Mobiliários. Foto: Next Editorial

Fundos ESG ganham espaço no Brasil

No Brasil, o movimento anti-ESG e as pautas anti-woke não têm ganhado a mesma força. Dados do mercado financeiro compilados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA) e informados pelo Instituto de Seguro de Depósitos (ISB) mostram que fundos rotulados como ESG dobraram em número em 2024, e a captação já passa de R$ 10 bilhões no ano. “As empresas de capital aberto correm para não ficar para trás. Mais de 70% já adotaram políticas ESG, e a previsão é ultrapassar 90% até o final do ano. Ou seja, se há um ‘desmonte’ em curso, ele está bem disfarçado de expansão”, opina Dani Klein.

Na contramão das gigantes americanas, a Vale estabeleceu a meta de dobrar a representatividade de mulheres na força de trabalho global de 13% para 26% até o final de 2025, percentual atingido com um ano de antecedência, no final de 2024.

Hoje são cerca de oito mil mulheres a mais nos quadros da empresa em todo o mundo. Outro compromisso público informado pela companhia é o de alcançar 40% de pessoas negras em posições de liderança até 2026 – atualmente a empresa registra em seus quadros 37% de posições de liderança ocupadas por pessoas autodeclaradas negras. “A companhia acredita que a pluralidade aprimora a capacidade de trazer novas soluções para o negócio, gera mais engajamento e contribui para a inovação, a performance e a eficiência”, informa a Vale por meio de nota.

Já a Samarco, com o Programa Elas na Operação, está oferecendo vagas de desenvolvimento profissional de nível operacional e técnico para mulheres das comunidades vizinhas às suas operações, nas unidades de Germano, em Minas Gerais, e Ubu, no Espírito Santo.

Ofensiva contra o ESG e o risco de retrocesso global
“Quando chega a hora de votar nas assembleias, essas pautas anti-ESG recebem, em média, apenas 1,9% dos votos, segundo análise da Harvard Law School. Ou seja, muito barulho por quase nada”, afirma Dani Klein, diretora técnica do ISB – Foto: Jerry Apolinário/ Next Editorial

Na avaliação de Dani Klein, no Brasil reações semelhantes às dos EUA ainda são pontuais e aparecem mais em redes sociais ou discursos parlamentares. “A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aprovou a Resolução 193, que obriga empresas de capital aberto a divulgar relatórios de sustentabilidade com base nos padrões internacionais (S1 e S2) do IFRS (International Financial Reporting Standards, um conjunto de normas internacionais de contabilidade) a partir de 2026. Isso significa que as práticas ESG não são mais uma escolha estética; são uma exigência regulatória. E o mercado regulado de carbono, que está em estruturação no país, tende a reforçar isso. No campo judicial, ações civis públicas e litígios climáticos começam a avançar, exigindo que empresas assumam responsabilidades socioambientais com base na legislação vigente”, informa a especialista.

 Empresas recuam no apoio ao Mês do Orgulho LGBTQia+ nos EUA

  • Grandes corporações estão reduzindo ou encerrando patrocínios a eventos do Mês do Orgulho LGBTQIA+ (junho), como paradas em São Francisco, Los Angeles, Nova York e Washington, entre outras dezenas de cidades. Motivos incluem pressões políticas, receio de boicotes conservadores e críticas ao ativismo corporativo.
  • Empresas como Ford, Harley-Davidson, John Deere, Toyota, Mastercard, PepsiCo, Nissan, Citibank, PricewaterhouseCoopers, Booz Allen Hamilton, Darcars Automotive Group e várias outras estão encerrando políticas de DEI e apoio a eventos LGBTQIA+.
  • A Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Francisco perdeu cerca de US$ 300 mil em patrocínios; em Nova York, um terço dos patrocinadores corporativos se afastaram. A Human Rights Campaign (HRC) enfrentou cortes de 20% em sua equipe devido à diminuição de apoio corporativo.
  • Pesquisa da Gravity Research indica que 39% dos líderes corporativos planejam reduzir o envolvimento em eventos do Orgulho LGBTQIA+ em 2025. Ações do governo Trump, como o desmonte de políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), influenciam decisões corporativas.
  • Organizadores de eventos do Orgulho LGBTQIA+ relatam dificuldades financeiras e aumento de preocupações com segurança. Apesar dos desafios, alguns eventos continuam com apoio de doações comunitárias e individuais.

*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

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