
Envelhecer é inevitável, o desafio está em transformar essa realidade em uma trajetória de desenvolvimento sustentável e equitativo para todas as gerações
Por Ricardo Paixão
O envelhecimento da população brasileira é uma realidade demográfica inegável e acelerada, fruto de um declínio contínuo nas taxas de fecundidade e do aumento na longevidade da população. Segundo dados do Censo Demográfico mais recente, a parcela de brasileiros com 65 anos ou mais alcançou cerca de 10,9 % da população total em 2022, um aumento de mais de 57 % em relação a 2010.
Quando se considera a população com 60 anos ou mais, esse contingente ultrapassa 32 milhões de pessoas, equivalendo a aproximadamente 15,6 % da população nacional, quase o dobro do percentual observado há duas décadas. Essa transição demográfica altera profundamente os padrões sociais e econômicos, exigindo respostas articuladas em políticas públicas e estratégias empresariais.
No âmbito da previdência social, o envelhecimento populacional impõe pressão crescente sobre a sustentabilidade do sistema de aposentadorias e pensões. A relação entre a população em idade produtiva e os beneficiários tende a se deteriorar, pois há um maior número de idosos dependentes financeiramente de um número relativamente menor de contribuintes.
Essa dinâmica é refletida na projeção de indicadores como a razão de dependência etária, que mostra um aumento significativo da proporção de idosos em relação à população ativa.
Em um contexto assim, ajustes paramétricos e reformas previdenciárias — como a reforma de 2019, que elevou a idade mínima de aposentadoria para 62 anos para mulheres e 65 para homens — foram implementados para conter pressões fiscais e ampliar a longevidade financeira do sistema. Mesmo com essas alterações, o desafio persiste, pois o aumento dos gastos previdenciários em meio a um crescimento lento da base contributiva pode comprometer o equilíbrio das contas públicas e demandar novas abordagens de financiamento e eficiência na gestão dos benefícios.
No mercado de trabalho, o envelhecimento traz implicações igualmente complexas. A participação de pessoas com 60 anos ou mais no mercado formal e informal tem aumentado de forma expressiva: entre 2012 e 2024, o número de idosos ocupados cresceu cerca de 69 %, chegando a mais de 8,6 milhões de trabalhadores. Essa expansão é um reflexo tanto da necessidade quanto da vontade de muitos em permanecerem ativos economicamente por mais tempo.
No entanto, o perfil dessa participação ainda é caracterizado por uma alta incidência de informalidade e empregos de baixa qualificação, circunstância que aponta para lacunas no reconhecimento das capacidades e potencial de contribuição dos trabalhadores mais velhos. Ao mesmo tempo, a presença ativa de pessoas idosas no mercado de trabalho pode ser vista como uma oportunidade para mitigar os efeitos da diminuição da força de trabalho jovem, impulsionar a produtividade e aproveitar o conhecimento acumulado ao longo dos anos — um ativo intangível valioso que pode fortalecer empresas e setores que valorizam experiência e estabilidade.
Além disso, o envelhecimento da população influencia outros setores cruciais, como o sistema de saúde, que enfrenta crescente demanda por cuidados de longo prazo e serviços especializados. A maior prevalência de condições crônicas e a necessidade de cuidados continuados elevam os custos e exigem adaptações organizacionais, tecnológicas e políticas de promoção da saúde preventiva. Essa pressão sobre o setor de saúde pública e privada é uma das facetas mais visíveis das mudanças demográficas em curso e ressalta a importância de investimentos estruturais para assegurar qualidade de vida à população idosa.
Por outro lado, é fundamental reconhecer que o envelhecimento também traz aspectos positivos. A chamada “geração prateada” representa um segmento populacional com potencial significativo de consumo, inovação e participação ativa na sociedade. A longevidade prolongada pode impulsionar novos mercados voltados a produtos e serviços especializados para esse grupo, dinamizando setores como turismo, educação continuada, tecnologia e bem-estar. Ademais, a transferência de conhecimento entre gerações pode contribuir para a formação de capital humano mais robusto, fortalecendo a economia do conhecimento e estimulando a criatividade organizacional.
Portanto, o envelhecimento da população brasileira representa um desafio multidimensional que demanda respostas integradas e políticas públicas eficazes. Embora imponha pressões sobre a previdência social, o mercado de trabalho e o sistema de saúde, esse fenômeno também oferece oportunidades se abordado de maneira estratégica. A sustentabilidade econômica e social diante dessa nova realidade demográfica depende da capacidade de promover inclusão laboral, aperfeiçoar sistemas de proteção social e valorizar o papel ativo dos idosos na sociedade. Envelhecer é inevitável, o desafio está em transformar essa realidade em uma trajetória de desenvolvimento sustentável e equitativo para todas as gerações.
Ricardo Paixão é economista, presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), mestre em Economia, professor efetivo da Faculdade Municipal de Linhares-ES (FACELI) e doutorando em Educação – UFES – Foto: Divulgação/ Corecon

