
Em guerras no Oriente Médio, o barril não sobe apenas porque há uma redução imediata da oferta física. Ele sobe porque o mercado passa a precificar o risco
Por Ricardo Paixão
Conflitos no Oriente Médio raramente se restringem ao campo militar. Historicamente, cada episódio de tensão na região tende a repercutir em todo o planeta, sobretudo porque ali se concentram algumas das maiores reservas de petróleo do mundo e importantes rotas energéticas globais. O novo confronto envolvendo Estados Unidos e Israel de um lado e o Irã de outro reacende exatamente esse cenário: uma disputa que começa na geopolítica, mas rapidamente se transforma em um problema econômico internacional.
Em um mundo cada vez mais globalizado, crises regionais possuem a capacidade de provocar impactos que se espalham rapidamente pelos mercados financeiros, pelas cadeias produtivas e, consequentemente, pela vida cotidiana das pessoas.
A motivação imediata do conflito tem sido apresentada de diferentes formas pelas partes envolvidas, cada uma destacando razões próprias para justificar suas ações — seja a necessidade de conter capacidades militares do adversário, seja a resposta a ameaças estratégicas percebidas. No entanto, quando se observa o conflito em uma perspectiva mais ampla, percebe-se que ele também expressa uma disputa geopolítica muito mais profunda.
O que está em jogo não é apenas um episódio isolado de confronto, mas a definição da ordem regional no Oriente Médio, o controle de rotas estratégicas de energia e a dimensão dos impactos globais que poderiam surgir caso haja uma ruptura prolongada na estabilidade daquela região.
Nesse contexto, o estreito de Ormuz torna-se um símbolo dessa tensão, pois concentra uma das passagens mais estratégicas do comércio mundial de petróleo, por onde, em condições normais, transita cerca de 20% da oferta global diária. Quando esse fluxo é ameaçado, o conflito deixa de ser apenas regional e passa a produzir efeitos potencialmente planetários.
Por isso, o petróleo ocupa o centro da análise. Em guerras no Oriente Médio, o barril não sobe apenas porque há uma redução imediata da oferta física. Ele sobe, sobretudo, porque o mercado passa a precificar o risco. Trata-se do risco de bloqueios marítimos, de ataques a infraestruturas estratégicas, de interrupções nos embarques, do encarecimento dos seguros de transporte e de rupturas logísticas em uma das regiões mais sensíveis para o abastecimento energético global.
Nesse contexto, a possibilidade de obstrução ou interrupção do fluxo comercial no estreito de Ormuz — por onde transita parcela significativa da oferta mundial de petróleo — poderia produzir consequências potencialmente catastróficas para o mercado global. Não por acaso, em momentos recentes de maior tensão, o petróleo tipo Brent chegou a se aproximar de US$ 120 por barril antes de recuar, ainda sob forte volatilidade.
Em outras palavras, mesmo quando ocorre algum alívio momentâneo nas cotações, a instabilidade permanece incorporada aos preços, refletindo a incerteza geopolítica que continua a pairar sobre o mercado de energia.
Quando o preço do petróleo sobe, os impactos econômicos começam a se espalhar rapidamente por diferentes setores da economia global. O petróleo não é apenas uma fonte de energia para veículos ou indústrias; ele também é matéria-prima fundamental para diversos segmentos produtivos. Assim, aumentos significativos no preço do barril acabam pressionando o custo de combustíveis como gasolina, diesel e querosene de aviação. Esse encarecimento da energia se reflete diretamente nos custos de transporte, na logística de distribuição de mercadorias e nas despesas operacionais de empresas em diferentes setores.
Na sequência, esses custos mais elevados acabam sendo repassados, total ou parcialmente, aos consumidores finais. Alimentos, produtos industrializados, serviços e passagens aéreas passam a incorporar esses novos custos energéticos, ainda que de forma gradual.
Esse processo cria pressões inflacionárias que podem afetar diversas economias simultaneamente. Quando a inflação sobe, bancos centrais tendem a reagir com maior cautela em relação às políticas monetárias, muitas vezes mantendo taxas de juros elevadas por mais tempo. Como consequência, o crédito fica mais caro, o investimento diminui e o ritmo de crescimento econômico tende a desacelerar.
Embora os combates ocorram a milhares de quilômetros de distância, seus efeitos acabam sendo percebidos pela população de maneira bastante concreta. O primeiro impacto aparece no preço dos combustíveis. Mesmo em países que possuem políticas de amortecimento de preços ou empresas estatais atuando no setor energético, as pressões do mercado internacional acabam sendo incorporadas ao longo do tempo.
O segundo impacto aparece no custo de vida. Quando transporte e energia ficam mais caros, diversos produtos e serviços passam a refletir esse aumento de custos. Alimentos, bens industrializados e serviços urbanos acabam sendo afetados, pressionando o orçamento das famílias. Há ainda um terceiro efeito importante: a influência sobre as taxas de juros. Se a inflação se intensifica em razão do aumento dos preços da energia, as autoridades monetárias podem adiar reduções nas taxas de juros ou manter políticas monetárias mais restritivas por mais tempo.
No contexto brasileiro, os desdobramentos desse ambiente internacional são multifacetados e apresentam particularidades próprias. De um lado, o Brasil ocupa posição relevante como produtor de petróleo e pode se beneficiar de cotações internacionais mais elevadas, ampliando receitas de exportação e os ganhos provenientes da cadeia petrolífera.
Por outro lado, a economia nacional ainda depende da importação de determinados combustíveis e insumos estratégicos, o que faz com que aumentos nos preços externos acabem repercutindo sobre os custos internos. Setores como transporte, indústria e agricultura tendem a sentir esses efeitos de maneira mais direta e intensa.
O agronegócio brasileiro, nesse contexto, revela elevada sensibilidade às oscilações nos preços do diesel e dos fertilizantes. A atividade agrícola depende significativamente de combustíveis para o funcionamento de máquinas, para o transporte de insumos e para o escoamento da produção.
Além disso, parte relevante dos fertilizantes utilizados no país é importada, o que faz com que períodos de instabilidade internacional encareçam esses produtos e elevem os custos de produção no campo. Esse cenário tende a pressionar os preços dos alimentos e reduzir as margens de rentabilidade ao longo de diferentes cadeias produtivas.
Quando se traz essa análise para o Espírito Santo, o quadro fica ainda mais interessante, porque o estado tem uma estrutura econômica bastante conectada ao comércio exterior, à logística portuária, ao agronegócio exportador, às rochas ornamentais e ao petróleo. Dados recentes mostram que o Espírito Santo respondeu por 3,02% das exportações brasileiras em 2025 e 4,93% das importações, o que confirma sua elevada inserção comercial.
Além disso, o agronegócio capixaba representou 30,4% das exportações do estado no terceiro trimestre de 2025. Isso significa que qualquer choque internacional sobre fretes, energia, seguros, demanda externa e custo de insumos atinge o estado com intensidade relevante.
No caso capixaba, os efeitos desse cenário são ambivalentes. De um lado, a valorização do petróleo pode favorecer a arrecadação e os segmentos ligados à produção e à exportação do recurso. Segundo dados do Instituto Jones dos Santos Neves, as exportações de petróleo bruto capixabas alcançaram US$ 971 milhões em 2024, representando um crescimento de 32% em relação a 2023.
Informações sobre o comércio exterior também mostram que, nas vendas do Espírito Santo para os Estados Unidos no quarto trimestre de 2025, os óleos brutos de petróleo responderam por 13,71% da pauta exportadora. Nesse contexto, a elevação do preço do barril tende a gerar um impulso positivo para as receitas externas e para determinados elos dessa cadeia produtiva.
Por outro lado, esse eventual benefício não neutraliza os impactos adversos sobre outros setores relevantes da economia estadual. O Espírito Santo possui forte presença de atividades intensivas em transporte e comércio internacional. O agronegócio capixaba, por exemplo, é impulsionado por produtos como café verde e torrado, celulose e especiarias, todos dependentes de diesel, logística eficiente e competitividade nos mercados externos. Situação semelhante ocorre com a cadeia de rochas ornamentais, altamente sensível aos custos de frete, energia e às oscilações da demanda internacional.
Caso o conflito encareça o transporte, os seguros e os combustíveis, as margens dessas atividades tendem a se reduzir. Além disso, se a guerra provocar desaceleração da economia global, a demanda pelos produtos exportados também pode enfraquecer. Em síntese, o Espírito Santo pode até se beneficiar em um segmento específico, mas enfrentar perdas em diversos outros ao mesmo tempo.
Para a população capixaba, o impacto mais visível tende a aparecer em três frentes. A primeira é o combustível, sobretudo para quem depende do carro, da moto, do frete e do transporte de mercadorias. A segunda é a alimentação, porque a cadeia de alimentos incorpora custos de diesel, fertilizantes, armazenagem e distribuição. A terceira é o custo de vida de forma mais ampla, inclusive com possível reflexo em passagens aéreas, serviços e produtos industrializados. A experiência internacional mais recente já mostra esse repasse: companhias aéreas, por exemplo, começaram a reajustar preços diante da alta abrupta do querosene. Portanto, ainda que o choque não chegue inteiro e de uma vez, ele tende a aparecer, pouco a pouco, no bolso das famílias.
No horizonte mais à frente, o desdobramento econômico desse episódio dependerá, sobretudo, da duração e da intensidade do conflito. Caso haja uma rápida redução das tensões e a normalização das rotas marítimas estratégicas, parte do choque observado nos mercados tende a se dissipar gradualmente, como já sugerem alguns movimentos recentes do petróleo tipo Brent.
Entretanto, se a guerra se prolongar, com ataques recorrentes a infraestruturas energéticas, manutenção de bloqueios logísticos e ampliação do risco geopolítico na região, a tendência mais plausível é a consolidação de um ambiente de energia estruturalmente mais cara.
Nesse cenário, a economia global tende a conviver com inflação mais persistente, juros elevados por um período mais prolongado e um ritmo de crescimento mais moderado. Para economias integradas ao comércio internacional, como Brasil e Espírito Santo, isso significará operar em um contexto de custos mais altos, maior volatilidade nos mercados e menor previsibilidade para decisões de investimento, produção e consumo — fatores que, se mantidos ao longo do tempo, tendem a reconfigurar tanto estratégias empresariais quanto políticas econômicas voltadas à estabilidade e ao crescimento econômico.
Ricardo Paixão é Economista, Mestre em Economia, Doutorando em Educação – UFES e Professor efetivo da Faculdade Municipal de Linhares-ES – FACELI

