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O tiro, o pé e o vizinho atônito

Não se trata mais de direita ou esquerda. Trata-se de Brasil. E isso exige que paremos de chamar o vizinho de “comunista” porque ele recicla o lixo

O tiro, o pé e o vizinho atônito

Por André Gomyde

Donald, o do topete tempestuoso e da diplomacia feita com marretas, resolveu mirar o Brasil. Disse que vai taxar nossos produtos em 50%. Sem cerimônia, sem lógica, sem cafezinho. Como quem resolve fechar a janela porque ouviu o canto de um sabiá. E o pior: há quem aplauda.

Mas a questão aqui não é só comercial. É geoestratégica. É sobre as tais “terras raras” — que de raras têm pouco no subsolo brasileiro, mas valem ouro na superfície das grandes potências. O Brasil é o segundo maior detentor do planeta desses minerais usados em satélites, baterias, chips, mísseis e até no celular onde você talvez esteja lendo este texto. E Trump sabe disso. Ele só não gosta de dizer em voz alta.

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A estratégia é clara: sufoca-se o Brasil primeiro, depois sufoca-se a América Latina, e o quintal está limpo para plantar hegemonia digital, controle de dados e dependência tecnológica. Tudo embrulhado com a fita da “liberdade” e o laço da “segurança nacional” — para eles, claro.

Mas acontece que a economia não gosta de gritos. Ela responde com matemática. E a conta já começou a fechar do jeito errado para o trombeteiro de terno escuro: a inflação sobe nos Estados Unidos, enquanto no Brasil ela recua. O motivo é simples como aula de economia do ensino médio: se eles taxam, os preços sobem lá. E como vendemos menos pra lá, sobra mais aqui — e os preços caem. Lei da Oferta e da Demanda, edição para iniciantes.

O problema é que isso não é só sobre soja, terras raras ou alumínio. É sobre o Brasil entender que não pode mais viver eternamente entre um grito e um meme, entre uma polarização e outra, entre o “nós contra eles”, o “eles contra nós” e o “se não for do meu lado, é traidor.” Isso cansa. Isso divide. E é justamente o que eles querem.

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Enquanto brigamos entre nós, o mundo se move. Quem exporta briga, importa atraso. Não se trata mais de direita ou esquerda. Trata-se de Brasil. De soberania. De futuro. E isso exige diálogo, escuta, maturidade. Exige que paremos de chamar o vizinho de “comunista” porque ele recicla o lixo, ou de “fascista” porque gosta de usar terno.

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A polarização virou produto de exportação. Importamos discursos prontos, raivas enlatadas, identidades moldadas em algoritmos. E esquecemos que o Brasil, esse país de chão fértil e gente teimosa, precisa é de união. Não para concordar sempre, mas para defender o que é nosso.

Porque se ficarmos batendo panela uns contra os outros, quem vai jantar é sempre o estrangeiro. Com nossas terras raras, nossos dados e nossa dignidade no prato.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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