As manchetes alertam para fraudes e “metade do dobro”, mas o consumidor, tomado pela ilusão de estar fazendo um bom negócio, ignora os avisos e segue comprando
Por André Gomyde
Todo ano é a mesma coisa. Mal termina o feriado de Finados, começam a pipocar anúncios de um tal evento importado chamado “Black Friday” – que eu pronuncio bléqui frái dêi para manter viva a tradição brasileira de abrasileirar tudo que vem de fora, inclusive palavras que não pediram para ser abrasileiradas.
Sim, já reclamei aqui do Dia das Bruxas, outro aculturamento que pegamos emprestado sem sequer verificar a taxa de juros cultural. Agora é a vez de enfrentar o primo mais barulhento, consumista e irritante: o festival anual de comprar coisas que você não precisa, embalado em luzes piscantes e promessas de “somente hoje”, “imperdível” e “não perca essa oportunidade de se endividar com elegância”.
O fenômeno é curioso. A pessoa acorda numa sexta de novembro e pensa:
— Será que eu tenho alguma coisinha para comprar?
Repare que ela não pensa “preciso de algo”. Não. Ela pensa “alguma coisinha”. A coisinha é indefinida, etérea, uma entidade transcendental que só se materializa quando encontra a etiqueta “50% OFF”. Aí vira necessidade urgente.
E quando a pessoa encontra aquela airfryer que sempre custou R$ 500, mas agora está R$ 499,99 na black friday, ela sente que venceu na vida. E corre para comprar antes que outro consumidor igualmente iludido capture o tesouro.
Enquanto isso, as manchetes aparecem: “Operações apontam fraudes em promoções – a famosa metade do dobro”. Mas não importa. O ser humano, em sua mais pura inocência consumista, prefere acreditar que agora vai. Agora sim está comprando barato. A mente se engana e vai, feliz, arrastando o cartão como quem arrasta uma trouxa de ilusões.
O problema não é comprar. O problema é comprar pelo esporte. Comprar como quem coleciona boletos. Comprar porque “tá barato”, mesmo sem saber exatamente o que é o objeto. Já vi gente comprando um cabo de impressora sem ter impressora, só porque estava “num preço bom”. Isso não é gostar de promoção. É vocação para acumulador.
Mas existe um truque filosófico – simples, elegante e 100% gratuito – capaz de salvar muita gente dessa armadilha anual: fazer a pergunta mágica antes de passar o cartão: Eu preciso ou eu quero?
Se a resposta for “preciso”, compre. Se for “quero”, feche o site, respire fundo e vá beber água. Desejo não precisa ser alimentado. Precisa ser observado, como quem observa um cachorro pedindo comida na porta da cozinha. Ele não está com fome. Ele está testando sua força de vontade.
Então desapegue-se. Solte o desejo. Deixe-o ir, assim como deixamos ir aquele projeto de dieta que começa sempre na segunda-feira.
E lembre-se: promoção boa mesmo é aquela que não diminui o preço das coisas, mas aumenta a nossa lucidez.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde


