Se moveram com urgência para “limpar” as ruas, por que não se movem com igual velocidade para construir bibliotecas e formar professores?

Por André Gomyde
Em Niterói, a prefeitura decidiu que era hora de “limpar” as ruas daqueles que nelas se acomodaram — uma certa faxina social, rápida e eficiente, como quem varre o pó abaixo do tapete. Mas em meio ao balé de caminhões e ordens, surgiu um deles, um morador de rua com a calma de quem lê o mundo como quem lê um livro antigo.
Disseram por aí que ele havia lido 45 livros no último ano e conhecia leis constitucionais como quem conhece as páginas de um amigo fiel. Não era só a leitura que impressionava: era a dignidade que vinha com ela. Deu uma lição de moral, consciência e saber aos agentes encarregados da “limpa”, e se transformou num furacão de silêncio na cabeça deles. Tudo viralizou nas redes, e o sujeito virou símbolo de que a educação salva — mesmo quando o corpo está à margem.
Esse exemplo — infelizmente ainda sem nome ecoado na imprensa — é o alerta de que o aprimoramento e o fortalecimento da educação são o mais poderoso combate contra a invisibilidade. Uma pessoa que teve acesso ao livro, ao direito e à aprendizagem constrói não só sua própria saída da rua, mas ilumina para todos o caminho do respeito.
Mas agora chega a pergunta incômoda: por que a elite política, com seus recursos e influência, insistem em não investir na educação de verdade? É mais fácil cortar fita do que financiar bibliotecas. É mais vistoso prometer programa do que estruturar escola. E por isso, ruas continuam cheias de gente invisível, mesmo nos centros mais iluminados.
É doloroso saber que muitos políticos têm dinheiro, cargo e poder suficientes para fazer a diferença. Mas ficam presos a preconceitos — de classe, de origem, de “quem mereceu” — e ninguém sabe explicar direito por que as coisas não andam. Se moveram com urgência para “limpar” as ruas, por que não se movem com igual velocidade para construir bibliotecas, formar professores e reverter esse desperdício humano?
Educação — verdadeira, profunda, preciosa — é o que nos transforma. Não o líder que varre, mas o líder que planta. E a lição do morador leitor que desatou a “limpa” com palavras e livros tem que servir como espelho: a cidade progride quando aprende a respeitar o outro. E o resto… é só político cortando fita no palco sem público.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

