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A essencialidade da percepção do beneficiário

A essencialidade da percepção do beneficiário

Escutar primeiro, para que a política pública seja qualificada!

Por Daniela Cristina Neves de Oliveira e Thiago de Carvalho Guadalupe

A ação de ouvir o público que será atendido por um programa ou projeto parece  óbvia, mas não é raro encontrá-la em manuais de monitoramento e avaliação de  políticas públicas como uma etapa opcional. Faz-se necessário debater a  relevância da escuta, pois, salvo as exceções de impossibilidade, tratar a  percepção do beneficiário como momento secundário de uma avaliação pode  reforçar um olhar de cima para baixo (top-down), no qual o avaliador tem a  pretensão (perigosa) de exclusivamente saber o que é melhor para o atendido.  

O professor e especialista em avaliação de políticas públicas, Paulo de Martino  Jannuzzi, resume as etapas do ciclo de formulação e avaliação em: 1) etapa de  formação da agenda (diagnóstico); 2) formulação (avaliação de desenho); 3)  implementação (monitoramento e avaliação do processo); e 4) avaliação final  (de resultados e impacto). Sugere-se que, nesses quatro momentos, a coleta da  percepção dos beneficiários pode gerar ganhos fundamentais para a política  pública. Desde a etapa inicial, ao contribuir para o diagnóstico mais preciso do  problema a ser enfrentado, até a formulação do programa, quando o  conhecimento das reais necessidades do público qualifica o desenho da  intervenção. Na fase de implementação, os próprios beneficiários constituem  fonte privilegiada para o aprimoramento dos processos. Por fim, a avaliação de  resultados e impactos deve considerar o nível de satisfação dos beneficiários  como elemento central de análise.  

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Como exemplo desse raciocínio, podemos mencionar a Análise Executiva do  Programa Estadual de Ações Integradas sobre Drogas – Rede Abraço (2024),  realizada no âmbito do Sistema de Monitoramento e Avaliação de Políticas  Públicas do Espírito Santo (SiMAPP). Essa análise se dedicou a avaliar o  desempenho geral da iniciativa e incluiu uma etapa para compreender o nível de  satisfação dos beneficiários com o Programa. A Rede Abraço tem como objetivo  promover o bem-estar de pessoas com problemas decorrentes do uso abusivo  de substâncias psicoativas e, nesse contexto, conhecer a percepção dos indivíduos atendidos foi fundamental para compreender porque, para alguns, era  difícil ou mesmo inviável fazer o acompanhamento no equipamento ofertado pelo  programa, o Centro de Acolhimento e Atenção Integral sobre Drogas (CAAD).  Os achados decorrem de entrevistas semiestruturadas realizadas com  beneficiários do programa, no âmbito da Análise Executiva, permitindo captar  percepções sobre barreiras de acesso e permanência. 

Os relatos indicaram que a necessidade de se ausentar do trabalho para realizar  um tratamento semanal representava um problema, chegando, no limite, a ser  motivo para a perda do emprego. Para alguns beneficiários, revelar, no ambiente  de trabalho, que estava em tratamento para lidar com o uso nocivo de drogas,  por meio da apresentação de um atestado médico, era motivo de  constrangimento devido aos preconceitos e estereótipos negativos enraizados  nesta sociedade, podendo levar até mesmo à desistência do tratamento. A partir  deste achado, a Análise recomendou aos gestores do Programa que o horário  de atendimento do CAAD fosse ampliado, ao mesmo tempo em que foi possível  identificar a necessidade de reforçar as intervenções voltadas à desconstrução  de preconceitos em torno desta temática, que, muitas vezes, afastam as pessoas  da busca por cuidado quando este se faz necessário. 

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A avaliação realizada, entre os anos de 2018 e 2019, sobre as políticas de  enfrentamento à violência contra mulheres no Espírito Santo, também no âmbito  do SiMAPP, exemplifica que mesmo em temáticas complexas a escuta dos  beneficiários pode colaborar muito para uma boa compreensão de programas  sociais. Neste caso, foram ouvidas mulheres vítimas de violência doméstica  (Patrulha Maria da Penha) e, ainda, foram entrevistados homens autores desta  violência participantes de grupos reflexivos (Projeto Homem que é Homem). 

Por fim, entendemos que compreender a percepção dos beneficiários das  políticas é vital no âmbito dos processos de avaliação, dado que essas políticas  são implementadas, justamente, para alterar situações tidas como problemáticas  e indesejáveis para a população, como a fome, a poluição ambiental, a  criminalidade violenta, entre tantas outras. A resistência a não cumprir essa  etapa essencial na avaliação de programas sociais apenas revela uma triste herança autoritária, na qual a participação democrática não é bem-vinda no  ambiente público.  

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Daniela Cristina Neves de Oliveira é Cientista Social, Mestre em Ciências Sociais  e Doutora em Sociologia. Assessora Especial Nível I na Coordenação de  Estudos Sociais do Instituto Jones dos Santos Neves. Atua em pesquisa e  avaliação de políticas públicas, com ênfase em segurança pública e prevenção  à violência, sobretudo por meio de metodologias qualitativas. 

Thiago de Carvalho Guadalupe é Cientista Social, Mestre em Sociologia e Doutor  em Política Social. Servidor público estadual da carreira de EPPGG (Especialista  em Políticas Públicas e Gestão Governamental) e coordena, no Instituto Jones  dos Santos Neves, a Coordenação de Estudos Sociais e o Observatório da  Segurança Cidadã. 

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