Brindamos o Dia Nacional do Livro, mas esse instrumento mágico tem uma história apaixonante, que antecede em muito as origens de nossa literatura
Por Jonas Reis
Meu olhar oscila no horizonte, ao capricho ondulante do mar da Bahia. Navegamos de Porto Seguro para Corumbau, em Prado, na Costa do Descobrimento. Ao longe, em terra firme, desponta minúsculo pela distância, o Monte Pascoal. Sinto-me, então, na origem de nossa literatura, pois foi com esta mesma visão que o escrivão-mor da esquadra de Pedro Álvares Cabral produziu no ano de 1500 o primeiro texto escrito no Brasil, a Carta de Pero Vaz de Caminha.
Vem-me esta lembrança, a propósito do Dia Nacional do Livro, comemorado a 29 de outubro. Nesse dia, em 1810, foi fundada a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, quando chegou ao país um grande acervo da Real Biblioteca Portuguesa. A data é lembrada nas escolas, bibliotecas e instituições literárias diversas para reforçar a importância do livro como difusor de conhecimentos, além de proporcionar prazer e provocar reflexão diante do mundo.
Hoje, para se ter uma privilegiada visão de livros publicados no país, a referência mais ampla e mais atual é a História da literatura brasileira – da Carta de Caminha aos contemporâneos (Editora Noeses, de São Paulo, em 4ª edição), do poeta imortal Carlos Nejar, que viveu por vários anos no Espírito Santo. A obra, que decorre de décadas de pesquisa e análise, brinda os leitores com primorosa reflexão sobre a história da literatura brasileira, desde a origem, autores e obras referenciais até a contemporaneidade.
Brindamos então o Dia Nacional do Livro, mas esse instrumento mágico tem uma história apaixonante, que antecede em muito as origens de nossa literatura. No princípio, nos tempos dos babilônios, egípcios, gregos, sumérios e outros, o livro era gravado em placas de argila, cascas de árvore, pedra, madeira, barro e folhas de palmeira. Os papiros surgiram cerca de três mil anos antes de Cristo, no Egito Antigo. Em seguida foi a vez dos pergaminhos, mais resistentes e que proporcionaram melhor acesso aos escritos. Na Idade Média, poucos tinham acesso aos livros e ao conhecimento, bens que eram privilégio dos integrantes da Igreja e dos nobres.
Foi com Johannes Gutenberg (1398-1468) que se popularizou o acesso a esse bem, no século XV, revolucionando a história do livro. Aquele inventor e gráfico alemão introduziu a técnica da prensa móvel descoberta anteriormente na China. Já em nossa era, no século XX, surgiram novos e revolucionários suportes para os livros como os audiolivros, e-books e outros meios.
Homenageando o livro, escrevi certa vez uma história curta em que um rapaz é expulso de sua vila pelo dono do lugar. Para sobreviver, ele recebeu um saco de livros para vender pelo mundo. Como não sabia ler, ao apresentar os títulos que levava ele contava histórias populares que ouvira na infância, como se aquele fosse o conteúdo da obra que oferecia. Leia O mercador de histórias em A volta do santo que ouvia e outros escritos.
Jonas Reis é escritor, membro da Academia Espírito-santense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e autor, entre outras obras, de “Viagem à alma do Brasil”

