Não precisar dizer o palavrão, mas fazer o leitor senti-lo. Afinal, um pouco dá sabor. Demais, estraga o prato

Por André Gomyde
— Não pode.
— Como assim, não pode?
— Palavrão, não. Aqui é um artigo de respeito.
E assim começou minha manhã: discutindo com o editor sobre o uso de uma palavra que, sinceramente, nem era das mais ofensivas. Uma palavrinha inofensiva, que a gente usa quando tropeça no canto da cama ou quando o café cai na camisa branca. Mas o editor, não. Ele queria pureza. Texto limpinho, cheiro de colônia infantil e aprovação da tia da paróquia.
— Mas o palavrão, veja bem, dá verdade ao texto — argumentei. — O leitor se identifica. Ele pensa: “Olha, esse aí fala como eu!”.
— Pois é — disse o editor. — Justamente por isso não pode.
E aí eu entendi. O problema não era o palavrão em si. Era o fato de o palavrão aproximar demais o articulista do leitor. A linguagem do povo. E o povo, convenhamos, fala o que sente. E quando sente muito, solta uma palavra que não aprendeu na escola, mas que resume o sentimento com precisão cirúrgica.
A língua portuguesa é linda, mas tem seus limites. Não há sinônimo que substitua o desabafo visceral de um bom palavrão. “Droga” não tem o mesmo sabor. “Puxa vida” é como dar um tapa de luva de pelica em quem merecia uma surra de chinelo.
Mas o editor insistia:
— Você é um articulista respeitável. Quer ser lembrado como um cronista que usa palavrão?
— Depende — respondi. — Se for o palavrão certo, no momento certo, talvez eu seja lembrado como um cronista sincero.
Ele suspirou, como quem explica a uma criança que não pode comer bolo antes do jantar:
— A questão é o tom. A palavra errada muda o clima. O leitor pode rir ou pode se ofender.
E ele tem razão. Palavra é química. Um palavrão no meio da frase é como botar pimenta no café: às vezes dá gosto, às vezes queima o paladar.
Então combinamos um meio-termo. Eu não escreveria palavrão, mas poderia insinuar. O leitor que completasse mentalmente. Assim, todos saem satisfeitos: o editor mantém o decoro, e o leitor dá o palavrão por mim. É um pacto civilizado entre o autor, o leitor e a moral pública.
E no fundo, essa é a graça: não precisar dizer o palavrão, mas fazer o leitor senti-lo, como um trovão que se ouve mesmo sem ver o raio.
Afinal, palavrão é como tempero. Um pouco dá sabor. Demais, estraga o prato. E se o prato for público — como um artigo —, melhor servir sem fumaça.
Mas confesso: cada vez que vejo uma manchete absurda, uma injustiça, um político com cara de santo explicando o inexplicável… sinto uma coceira na ponta da língua.
E aí lembro do editor, do pacto, do decoro.
E penso, em silêncio, aquilo mesmo que você acabou de pensar.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos.

