A gestão de 2020/2021 foi desafiadora, mas representou uma oportunidade para economistas reafirmarem o valor da economia como instrumento para enfrentar crises

Por Celso Bissoli Sessa
Ocupei a presidência do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES) nos anos de 2020 e 2021, um período marcado por grandes desafios. Iniciamos 2020 com as atenções voltadas para a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 108/2019, que colocava em risco a existência e o funcionamento dos conselhos profissionais do país.
A PEC, na prática, propunha que os conselhos passassem a ter natureza jurídica de direito privado, retirando suas prerrogativas regulatórias e fiscalizatórias, além de extinguir a obrigatoriedade do registro profissional. Esse foi um dos principais temas debatidos na reunião anual com o Conselho Federal de Economia (Cofecon), em Brasília.
Graças à mobilização e à pressão dos diversos conselhos profissionais, a proposta acabou sendo retirada de tramitação. No entanto, nenhum de nós estava preparado para o desafio ainda maior que se aproximava: a pandemia de Covid-19. Uma nova realidade se impôs, marcada por uma crise sanitária de proporções globais, que rapidamente evoluiu para uma profunda crise econômica e social.
O cenário era extremamente grave. Os efeitos da pandemia se somaram a um contexto já deteriorado, com sérios problemas fiscais no governo e uma taxa de desemprego que atingia quase 12 milhões de brasileiros — sem contar os cerca de 40 milhões de trabalhadores na informalidade.
No Espírito Santo, a economia ainda enfrentava dificuldades para se recuperar da crise de 2015 e dos prejuízos causados pelas fortes chuvas que atingiram o estado em janeiro de 2020.
Em meio a uma intensa polarização política e à propagação de falsos dilemas — como a tentativa de opor economia e saúde pública —, assistimos aos impactos de quase um ano de atividades paralisadas ou intermitentes. A preocupação com o aumento da vulnerabilidade da população e o agravamento das tensões sociais era crescente, especialmente porque uma parcela significativa da sociedade é mais exposta aos efeitos do desabastecimento, da alta de preços e da redução na oferta de serviços públicos.
Esse cenário caótico, porém, evidenciou o papel crucial dos conselhos profissionais e dos economistas comprometidos com uma gestão eficiente da crise. Ficou claro que as medidas de sustentação do emprego e da renda deveriam se sobrepor às preocupações fiscais de curto prazo.
No contexto do próprio Conselho, foi necessário adaptar rapidamente formas de trabalho, muitas vezes sem planejamento prévio. Assim como em escolas e empresas, diversas atividades do Corecon-ES foram suspensas ou migraram para o ambiente virtual. Foi o caso do projeto “Corecon nas Escolas” e do VIII Encontro de Economia, cujo tema central foi justamente “Espírito Santo e a Retomada do Desenvolvimento Pós-Pandemia”.
A gestão de 2020/2021 foi, sem dúvida, desafiadora. Mas também representou uma oportunidade para nós, economistas, reafirmarmos o valor da ciência econômica como instrumento fundamental para compreender e enfrentar crises. Um momento para valorizar o papel do economista como agente de transformação social e reforçar a relevância do Conselho não apenas como órgão fiscalizador, mas como uma instituição comprometida com o bem-estar coletivo.
Celso Bissoli Sessa é Doutor em Economia, professor da Ufes e ex-presidente do Corecon-ES

