Só precisa tomar cuidado para não esquecer que o mundo não para para esperar o Carnaval acabar
Por André Gomyde
Terça-Feira de Carnaval! Festa linda, cultural, parte da nossa história. Diversão garantida! O Brasil parado. O mundo andando. E a gente aqui, fantasiado de país produtivo.
Porque sejamos honestos: o ano mesmo só começa na Quarta-feira de Cinzas. E ainda assim, meio capenga, ressacado, sem muita pressa. Há quem diga que até março é período de adaptação. Fevereiro é aquele estágio probatório da motivação. Janeiro? Ah, janeiro foi só um mês experimental.
Enquanto isso, do lado de lá do Equador, o mundo segue sua rotina sem entender o que se passa. Americanos, europeus, asiáticos, todos seguindo o calendário como se cada dia valesse o mesmo. Pobres criaturas. Não sabem o que é viver num país onde o relógio tem samba no pé.
— Mas como assim só depois do Carnaval? — pergunta o investidor estrangeiro, com os olhos arregalados.
— É que aqui a gente respeita os ciclos da natureza. Primeiro o réveillon, depois o recesso, depois o Carnaval. Aí sim, podemos começar a pensar em trabalhar.
Ele sorri amarelo, desconfiado.
Agora, imagine os casais que moram em fusos diferentes. Como explicar para a namorada ucraniana que casamento antes do Carnaval é fora de questão?
— Mas amor, por quê?
— Porque… porque… não dá!
É cultural. Casar em janeiro dá azar, fevereiro não conta, e março ainda estamos pegando no tranco. Tem que esperar o Brasil começar!
A bem da verdade, não somos um país preguiçoso. Somos um país que se organiza de um jeito diferente. Um jeito que desafia a lógica tradicional, mas faz todo o sentido para nós.
Agora, se isso nos impede de ser levados a sério? Bem… talvez. Mas ser sério também cansa. O problema é quando querem fazer negócios e percebem que assinar um contrato aqui exige uma paciência monástica.
— Mandamos o e-mail em dezembro.
— Sim, sim. Mas aí veio o Natal…
— Entendemos. Mas depois?
— Ah, depois teve o Ano Novo, né?
— E então?
— Bom, janeiro foi aquele mês esquisito…
— Mas e fevereiro?
— Fevereiro teve Carnaval.
Silêncio.
E assim seguimos. Três meses depois, quando finalmente acordamos para o ano novo, o mundo já está falando em metas para o segundo trimestre.
Mas também… que graça teria um país onde tudo funciona de imediato? Onde ninguém tira um tempinho para ser feliz antes de ser eficiente?
O Brasil pode não ser um país sério. Mas é um país que sabe aproveitar a vida. Só precisa tomar cuidado para não esquecer que o mundo não para para esperar o Carnaval acabar.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

