No Espírito Santo, a energia elétrica tornou-se mais que apenas um insumo: é um teste de equilíbrio entre altas tarifas, competitividade da economia e a expectativa de um fornecimento mais confiável
Por Maxieni Muniz
A energia elétrica no Espírito Santo entrou em novo ciclo. Com a renovação da concessão da EDP por mais 30 anos, assinada em julho de 2025, e o reajuste autorizado pela Aneel em agosto, os consumidores já sentem no bolso o aumento médio de 15,53%. O impacto é imediato para famílias, comércio e indústria, mas o contrato também estabelece compromissos de melhoria na qualidade do fornecimento e investimentos para modernizar a rede e enfrentar eventos climáticos extremos.
O aumento da tarifa pressiona o orçamento doméstico de uma população já afetada por dívidas e inadimplência e preocupa o setor de comércio e serviços, que enfrenta custos fixos elevados. Para lojistas e prestadores, a conta de luz é um dos principais itens de custo. Estudos do Sebrae indicam que ela pode representar até 20% das despesas operacionais de pequenos negócios, especialmente em segmentos como bares, restaurantes e mercados. Com o reajuste médio aprovado pela Aneel, a tendência é de maior pressão sobre as margens do setor e os preços ao consumidor final.
André Spalenza, coordenador do Observa Connect da Fecomércio-ES, analisa que o recente reajuste tarifário “impacta diretamente o setor de comércio e serviços, que agora enfrenta uma alta média de 14,72% nas tarifas de baixa tensão — faixa predominante entre os estabelecimentos comerciais”. Ele acrescenta: “Na indústria, o cenário é ainda mais desafiador, com reajuste médio de 17,85% para consumidores atendidos em alta tensão”.
Indústria e exportações em alerta
A avaliação de Spalenza é compartilhada por representantes da indústria capixaba. O Centrorochas — entidade representativa do segmento de rochas ornamentais, um dos mais eletrointensivos do estado — já relata um movimento reativo. A entidade informou que diversas empresas de rochas naturais possuem projetos de autogeração de energia solar, e muitas adquirem energia no mercado livre, com geração 100% renovável. Ambas as estratégias funcionam como proteção da competitividade e redução de risco regulatório.
Na indústria, o impacto do reajuste é duplo. De um lado, a energia elétrica pesa no custo de produção, sobretudo em setores eletrointensivos. Para essas empresas, a conta de luz é insumo estratégico: quanto mais cara, menor a margem de lucro e a capacidade de manter alta produtividade. O aumento médio para a indústria capixaba, de 17,85%, pode significar milhões de reais adicionais por mês em custos operacionais, reduzindo competitividade e
disposição para novos investimentos.
De outro lado, há impacto indireto sobre as exportações. Produzindo menos — e competindo com países onde a energia é subsidiada ou mais barata — o Espírito Santo tende a perder espaço no mercado internacional. Produtos como aço e rochas ornamentais, que já enfrentam forte concorrência global, podem se tornar menos atrativos no exterior.
Nesse cenário, a pressão sobre as exportações capixabas não vem apenas da oscilação cambial ou da demanda internacional, mas também do custo da energia elétrica, que se transforma em fator estratégico para a balança comercial do estado.
Qualidade do serviço e metas da concessão

Se por um lado a tarifa sobe, por outro a EDP assume compromissos de melhoria. O novo contrato prevê metas de redução nos indicadores de continuidade: DEC (duração média das interrupções) e FEC (frequência média). Hoje, o Espírito Santo já apresenta desempenho melhor que o limite regulatório, mas ainda distante da expectativa dos consumidores.
“O setor elétrico vem sendo fortemente impactado pelas alterações climáticas e os investimentos nas redes de distribuição de energia são fundamentais para garantir o atendimento da população com qualidade e segurança. A EDP tem executado recordes de aportes fundamentados em planejamento estratégico, tornando suas redes mais robustas, inteligentes e automatizadas, o que contribui para uma gestão operacional mais efetiva, principalmente em situações críticas com grande volume de ocorrências”, explica Dyogenes Rosi, vice-presidente de Distribuição da EDP.
O plano de investimento anunciado pela empresa, da ordem de R$ 5 bilhões até 2030, contempla iniciativas de digitalização, automação e modernização da rede. Entre as medidas previstas estão sistemas de religação automática, medição remota e centros de operação mais sofisticados, capazes de reduzir o tempo de resposta em emergências.
Futuro da rede elétrica capixaba
O novo ciclo também traz desafios ligados à transição energética. Um deles é a rápida expansão da geração distribuída solar, que já coloca o Espírito Santo entre os estados com maior crescimento no setor e exige uma rede preparada para integrar milhares de pequenos produtores. Outro é a mobilidade elétrica, que começa a ganhar espaço com a instalação de infraestrutura de recarga no estado.
De acordo com Dyogenes Rosi, cerca de 70% dos clientes capixabas já contam com sistemas automatizados de religação. A expectativa da empresa é que, combinadas às novas frentes de inovação, essas tecnologias tornem o sistema mais preparado para o futuro.
Mais do que uma renovação contratual, o novo ciclo da EDP no Espírito Santo coloca em jogo a capacidade de equilibrar tarifas mais altas com um fornecimento mais confiável e moderno. Para um estado que depende da energia para sustentar sua indústria, comércio e exportações, a promessa de uma rede mais resiliente será o verdadeiro teste da próxima década.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 229, de novembro de 2025. Leia a edição completa de Energia aqui.

