Novo plano estadual propõe ação regionalizada e uso de dados para fortalecer produção agrícola diante de desafios logísticos, climáticos e geopolíticos
Por Maxieni Muniz
Em um contexto global cada vez mais desafiador, marcado por instabilidade geopolítica, variações climáticas severas e gargalos logísticos, o Espírito Santo aposta no Plano Estadual de Agricultura (Pedeag 4) como bússola para garantir competitividade e sustentabilidade ao setor agropecuário. A proposta é clara: transformar o planejamento em ação prática, regionalizada e integrada, capaz de antecipar riscos e fortalecer a resiliência da produção agrícola.
“Nos últimos vinte anos, o PIB da agropecuária capixaba cresceu mais de 90%, quase o dobro da média nacional. E nada nesse desempenho tão expressivo se deu por acaso. Ao contrário, os resultados colhidos pelo Espírito Santo são fruto de grandes investimentos públicos e privados, da modernização dos sistemas produtivos e de muito trabalho. Mas na base de todo esse esforço está um processo de planejamento, que chega agora à sua quarta etapa”, destacou o governador do estado, Renato Casagrande.
A agricultura capixaba, conhecida pela diversidade e relevância na economia local, enfrenta pressões externas que vão desde o aumento do custo dos fretes internacionais — agravado pelas tensões no Oriente Médio e pela reconfiguração do comércio provocada pela tarifas dos Estados Unidos — até a escassez de insumos e rolagem de cargas, mesmo com reservas confirmadas. Produtos como café, mamão, pimenta-do-reino e celulose, altamente dependentes da exportação, sentem os impactos diretamente.

Para Guilhermo Modenezi Recla, gerente de Planejamento Rural da Secretaria da Agricultura (Seag), o atual momento exige mais do que resposta pontual às crises.
“Planejar agora é agir com base em dados. Não dá para discutir agricultura sem levar em conta logística, clima, estrutura fundiária e acesso a mercados. É nesse ponto que o novo plano estadual se torna estratégico para os próximos anos”, afirma.
Segundo Recla, a resposta está em fortalecer instrumentos técnicos de planejamento, como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), e no uso de sistemas de monitoramento para gestão de recursos hídricos e produtividade. “Estamos priorizando investimentos em reservatórios, adutoras e irrigação eficiente, especialmente nas regiões mais afetadas pela estiagem, como o norte do estado. A leitura territorial desses impactos é o que permite agir com eficácia”, pontua. As mudanças climáticas, aliadas a um mercado internacional cada vez mais volátil, impõem novos padrões de produção e consumo.
Eixos estratégicos
Lançado pela primeira vez em 2000, o Plano Estadual de Desenvolvimento da Agricultura Capixaba (Pedeag) chega à sua quarta edição como principal instrumento de planejamento estratégico do setor agropecuário no Espírito Santo. Ao longo das versões anteriores, o plano consolidou políticas públicas que impulsionaram a produtividade agrícola, promoveram a diversificação das cadeias produtivas e fortaleceram a agricultura familiar. O Pedeag 4 atualiza esse compromisso com uma abordagem regionalizada, integrando inovação, inteligência territorial e sustentabilidade diante dos novos desafios globais.
Em sua versão atual, o plano propõe ampliar o apoio à agricultura de base familiar e fortalecer a diversificação produtiva por região, considerando as especificidades locais e o acesso a tecnologias adaptadas. “Temos realidades completamente distintas entre as regiões sul, norte, serrana e costeira. A política pública tem de dialogar com essa diversidade para funcionar de verdade”, destaca o gerente da Seag.
O Espírito Santo também aposta na integração entre setores produtivos e instituições de pesquisa para desenvolver soluções baseadas em ciência. Modelos preditivos de clima e produtividade, plataformas digitais de acompanhamento de safra e capacitação técnica regionalizada são algumas das ferramentas em expansão. Parcerias com universidades e com o Incaper garantem suporte técnico às ações em campo.
Outro eixo estratégico do plano é a segurança alimentar e o fortalecimento das economias locais. A ampliação de mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), e de feiras regionais fortalece o papel da agricultura familiar e garante renda para pequenos produtores. “Estamos criando uma estrutura que valoriza o produtor, facilita o escoamento e incentiva boas práticas. Isso reduz vulnerabilidades e amplia oportunidades”, explica Recla.
Para o médio e longo prazos, o objetivo da Seag é que o planejamento agrícola se torne um processo contínuo, baseado em governança, inteligência territorial e participação dos atores locais. “Não estamos falando de um documento que fica na gaveta. O Plano Estadual de Agricultura (Pedeag 4) é resultado de construção coletiva, com metas claras, monitoramento constante e foco em uma agricultura sustentável e competitiva”, finaliza Recla.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil nº 228, de agosto de 2025. Leia a edição completa do Agro aqui.

