Você já tinha ouvido falar de autores capixabas? Já os leu? Aliás, quantos autores do ES você já leu?

Por Anaximandro Amorim
Francisco Aurélio Ribeiro, renomado escritor do nosso Estado e presidente de honra da Academia Espírito-santense de Letras, lançou, em 1996, um livro crucial para se entender quem é o dito “autor capixaba” e como se dava, até então, a produção dos autores do ES, até aqueles já longínquos anos 1990. O título: “A literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica”, editado pela Nemar. A questão já começa com um “problema”: quem seria o autor “capixaba”?
Muitos sabem que Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, porém, fez carreira longe do ES. Curiosidade: quando de sua morte, Braga foi anunciado como mineiro. Falando nisso, Adilson Vilaça, nascido em MG, vive no estado desde a infância e escreve praticamente só sobre temas capixabas. E sobre muito da nossa identidade também escreve Elisa Lucinda, alvo, às vezes, de “estranhamento”: “Mas ela não trabalha na Globo?” (Como se isso fosse fazer da autora fluminense, automaticamente). Falando nisso, leitor(a), em tempo: você já tinha ouvido falar nos autores citados neste parágrafo? Já os leu? Aliás, quantos autores do ES você já leu?
A questão é importante, sobretudo em um país que, pela primeira vez, viu o número de não-leitores superar o de leitores, segundo 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro, no ano de 2024. Se está difícil para os autores do mainstream, com toda a distribuição em livrarias e influência midiática, imagina só quem se “aventura” a publicar no nosso rincão? E não só isso: ler um autor capixaba é ainda mais difícil do que saber quem ele é! Seja porque literatura é, segundo o professor Francisco Grijó (aliás, outro autor da terra!), a “prima pobre das artes”: no ranking dos entretenimentos, ela está usualmente na base; seja porque o livro do escritor “local” é mais difícil de chegar às mãos do leitor: das poucas livrarias que ainda restam, você conseguiu reconhecer algum livro de um escritor do nosso estado? E, caso não conheça nenhum, chegou a topar com alguma estante com alguns dos nossos livros?
Otimista inveterado, acho, no entanto, que nossa situação ainda está um pouquinho melhor que em 1996. Se, naquela época, publicar era difícil, hoje, tudo pode ser feito em um clique, com softwares especializados e tiragens menores. O livro se democratizou e novas vozes (mulheres, negros, LGBTs, indígenas) despontam, mesmo que modestamente, num universo ainda bastante masculino, branco, urbano. Mas falta muito, como o aumento de políticas públicas de edição e, principalmente, de distribuição do livro do escritor do estado e da publicização dessas políticas, igualmente.
Não há escritor sem leitor. Se, antes, a nossa marginalidade era periférica, hoje, com a Internet, quebramos fronteiras, mas, ainda não atingimos leitores, os da nossa praça, sobretudo. Nossa marginalidade, portanto, tornou-se editorial, no que incentivos como de circulação de obras também se fazem necessários. Há que se pensar, quem sabe, em uma entidade, para se atingir o público leitor e, com isso, dar-lhe a conhecer este ainda obscuro “escritor capixaba”.
Anaximandro Amorim é escritor e professor. Doutorando em Letras pela Ufes e Membro da Academia Espírito-santense de Letras, dentre outras instituições culturais.

