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quarta-feira, 19 junho, 2024

Literatura capixaba: os potenciais e desafios do setor

Os editores Saulo Ribeiro e Jhon Conceito e o escritor representante da AEL José Roberto Santos Neves compartilham desafios e perspectivas do segmento

Por Mariah Friedrich

O Espírito Santo é lar de diversos autores reconhecidos, Rubem Braga, Carlinhos Oliveira e, atualmente, Bernadete Lira e Reinaldo Santos Neves são alguns dos nomes cujas obras contribuem para a diversidade e qualidade da produção literária local.

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Ainda que enfrente diversos desafios, desde a produção à sua circulação, a literatura produzida no Estado demonstra potencial significativo, com uma variedade de gêneros e temas, incluindo romances, contos, crônicas, poesia, biografias, ensaios e literatura infantojuvenil. 

A reportagem da ES Brasil entrevistou profissionais do mercado literário e escritores para compreender os pontos fortes e obstáculos enfrentados pelos autores e editoras para promover e difundir suas obras.

Vocação para a crônica

Literatura capixaba: os potenciais e desafios do setor
José Roberto Santos Neves, jornalista, escritor e diretor de Comunicação da AEL – Foto: Acervo pessoal

O diretor de Comunicação da Academia Espírito-santense de Letras, José Roberto Santos Neves, e o proprietário da Editora Cousa, Saulo Ribeiro, ressaltaram a forte tradição capixaba na crônica, marcada por grandes cronistas como Rubem Braga e Carlinhos Oliveira, de uma geração que elevou o gênero à categoria de arte, devido a influência cultural que contribuíram para enraizar na cultura literária brasileira.

“É um gênero que se situa no limiar entre a literatura e o jornalismo. Nós temos essa tradição muito forte no estado”, destacou o escritor, jornalista e diretor de Comunicação da Academia Espírito-santense de Letras José Roberto Santos Neves.

Mas nem só de crônica vive a literatura capixaba. Os entrevistados apontam como os autores locais tem explorado uma ampla variedade de assuntos, desde narrativas ficcionais até reflexões sobre a história e cultura local.

“Estamos em um grande momento. São muitos nomes fortes que estão por aí, publicando em boas casas editoriais do ES e de fora. Quando olho a produção a partir do que recebo aqui como editor, vejo uma diversidade muito grande de gêneros e criadores”, ressalta o fundador da editora Cousa Saulo Ribeiro.

Dificuldades enfrentadas no mercado

Apesar da variedade de temas, os autores e editoras ainda encontram muitas dificuldades. As principais são a valorização da cultura e o baixo índice de leitura no país. 

Para Santos Neves, o desafio de valorização da literatura no Espírito Santo reflete o cenário nacional. “A primeira dificuldade é o baixíssimo índice de leitura no Brasil, segundo última pesquisa de retrato da leitura no Brasil, o brasileiro lê em média quatro livros por ano, o que é um índice muito baixo se comparado a outros países da América do Sul, da Europa, dos países desenvolvidos. Então, eu vejo que há uma necessidade urgente de valorização do hábito da leitura no Brasil”, afirma José Roberto.

Tanto José Roberto Santos Neves como Saulo Ribeiro consideram que a falta de uma política estadual efetiva para a formação de leitores e a valorização das publicações capixabas é uma lacuna a ser preenchida por meio da implementação de políticas que promovam a literatura desde a infância e incentivem a presença do livro no cotidiano das pessoas.

Estratégias não convencionais

Sem esperar por ações do poder público, o setor editorial capixaba, composto por aproximadamente uma dezena de empresas de pequeno porte tem feito a sua parte. Editoras como Cousa, Botocudos, Maré e Cândida têm desempenhado um papel fundamental na profissionalização da produção editorial, apoiando novos talentos e contribuindo para a divulgação das obras literárias locais.

Literatura capixaba: os potenciais e desafios do setor
Jhon Conceito, escritor e fundador da editora Botocudos – Foto: Acervo pessoal

Com tiragens menores e uma abordagem mais colaborativa, adotam uma nova abordagem para promover a circulação da literatura, oferecendo suporte a novos talentos e contribuindo para a divulgação das obras. No entanto, a distribuição e a formação de público leitor ainda representam um desafio significativo, como aponta o escritor e fundador da Editora Botocudos, Jhon Conceito.

“A maioria das pessoas aqui do Estado publica livro e guarda, são poucas as que eu vejo vendendo. Lançar um livro ainda é muito utópico, está muito longe ainda da realidade da maioria. Então, é como se fosse um status social”, compreende o escritor, que fundou há três anos a própria editora para lançar sua produção.

Jhon compartilha que a literatura feita por pessoas vindas de territórios de periferia ainda enfrenta dificuldades de reconhecimento, mesmo com o aumento da procura por esse tipo de trabalho.

“É o que a galera está acompanhando mais, as editoras estão interessadas na literatura que vem da periferia. Porém, tudo tem que se moldar, passar por um processo de mercado”, considera o autor. 

Literatura capixaba: os potenciais e desafios do setor
Saulo Ribeiro, fundador da editora Cousa – Foto: Divulgação

Diante das dificuldades de distribuição, Jhon Conceito e Saulo Ribeiro adotam abordagens não convencionais para vender seus livros de forma mais ampla e diversificada, inclusive fora do ambiente tradicional das livrarias.

“Eu vou na contramão e tento furar a bolha. Vender para a escola, na rua, na praia, de mão em mão, levo para outros estados. Foi assim que consegui vender mil exemplares do meu último livro, ‘Poesia dá Cadeia’”, relata Conceito.

A itinerância também é uma estratégia que Saulo Ribeiro escolheu para levar as obras literárias diretamente até os leitores, em diferentes comunidades e locais.

“Na Cousa, a gente tenta chegar perto dos leitores, ajudar a criar público e a manter. Temos ações de itinerância com uma Kombi, a Kombiousa. Viajamos atrás de leitores e chamamos isso de Literaluta”, afirma Saulo.

Em meio a esses desafios e potenciais, a literatura capixaba segue seu curso, buscando encontrar seu espaço e sua voz em um cenário cultural em constante transformação.

“Há quem diga que somos um estado pequeno, mas com grande movimentação da literatura e criadores. Concordo. O ES é bem valente!”, afirma Saulo Ribeiro.

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