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quarta-feira, 29 junho, 2022

Panelas de impressão

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Por Claudia Sabadini

Que a pandemia mudou todos nós, cada um em maior ou menor intensidade, todos sabem. Mas, quando o assunto é comportamento feminino, a conversa vai longe. Basta uma pequena enquete entre as mais chegadas, para perceber o quanto o distanciamento e o isolamento social afetaram e ainda afetam nossas rotinas, sejam elas de donas de casa, mães, filhas, amigas, profissionais, ou, tudo isso e mais um pouco. O trabalho em home-office veio para ficar, dizem os especialistas em diversas áreas, e as mulheres tiveram de se reinventar para se adaptarem a essa nova realidade: administrar o tempo com maestria, entre cadernos dos filhos, panelas na pia, roupas na máquina, bichos de estimação, reuniões on-line e o celular vibrando o tempo todo. Não sei vocês, mas eu não estava preparada.

O medo da contaminação me levou para a cozinha, um lugar do qual sempre mantive distância, mas, atualmente, travo menos confusões, depois de meses de imersão em receitas de internet e tutoriais de amigas pelo Instagram. Cozinhar é terapia, sempre me disseram as mais apaixonadas e vocacionadas para novos sabores, doces e salgados, conhecidos e inventados. Sempre achei perda de tempo fazer algo que posso comprar pronto, muito mais saboroso e menos trabalhoso que se eu fizesse. Mas veio a pandemia e, só então, percebi uma oportunidade de tentar entender onde estava o valor terapêutico desse temido espaço da casa.

Fazer uma pausa durante o dia para cozinhar, o que quer que fosse, me deu uma estranha liberdade: a de poder fazer algo por mim, sem depender de ninguém. Escolher temperos, o ponto certo do sal ou do açúcar, das ervas, das massas. Ampliei o número de panelas e comecei a achar legal ver o alimento acontecendo devagar, num passo a passo menos ansioso que antes, enquanto espero a vacina chegar, na minha minúscula cozinha.

Como escreveu Clarice, não se enganem, simplicidade dá trabalho. A boa convivência comigo mesma e com tudo à volta, por muito tempo até negligenciado, renderam muitas perguntas sem respostas, ao longo de inúmeras mexidas nas panelas fervilhando, em um ano de pandemia. A espera de um prato pronto, o muito ainda por viver, a falta de intimidade com a casa (quem diria), a preocupação com os importantes para mim, as pequenas alegrias das coisas urgentes, enquanto provo a comida, escorro o macarrão, corto a carne e as folhas verdes. Tanto ainda a ser feito… por que só aprendi tudo isso agora? Tento fazer as receitas de minha mãe e de minhas tias. Lembro do prazer delas em cozinhar para a família, do riso de canto de boca, quando alguém elogiava o grande feito. Mulher gosta tanto de elogio, fico a pensar.

Tenho trocado o computador e o celular pelas panelas. A descontinuidade de coisas e pessoas me forçaram a aprender mais de mim, sobre o que, principalmente, não faz mais sentido. Perto de mim, outras tantas já avisaram: deixei a outra no passado. Enquanto uma revolução acontece nos mais diversos mundos, a mulher quer somente uma pausa, um momento para si mesma, para recuperar o equilíbrio e o bom humor, para não enlouquecer.

Claudia Sabadini é Jornalista e escritora

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