O dinheiro é, sim, uma régua, mas não é a única. Medir uma vida inteira pelo caixa é o caminho mais curto para um sucesso que não se sente como tal
Por Valéria Effgen
Sinta essa frase: “Eu sou um sucesso por quanto eu ganho, mas ontem chorei sozinha na garagem, sem entender porquê.” Quem me disse isso foi uma mulher que, por todos os critérios públicos, havia chegado no topo. Tinha faturamento multiplicado por dez em cinco anos, equipe consolidada, reconhecimento de mercado e tudo o mais que havia desejado, na ordem em que havia desejado. Só que, ainda assim, ali estava, em um domingo à noite, sem entender o vazio que estava sentindo.
Vejo essa cena se repetir há tantos anos que já nem me surpreende mais. O que me espanta, sim, é a frequência com que acontece justamente com mulheres que parecem estar “no auge”.
Parece que algo, em algum lugar, ficou para trás. E quase sempre é a mesma coisa: a vida foi medida por uma única régua, e essa régua era estreita demais para o que uma vida realmente significa.
Preciso dizer algo, antes que eu seja mal interpretada: dinheiro importa, e muito. Quem já passou por um mês de caixa apertado, por uma folha atrasada, por uma conta sem saber como pagar, sabe que romantizar a ausência de dinheiro é privilégio de quem nunca lhe faltou. O ponto aqui não é minimizar o financeiro, mas não permitir que ele se torne o único indicador do que chamamos de sucesso.
Para a mulher que empreende, esse risco é particularmente real. Nós fomos historicamente afastadas do dinheiro: não cobrávamos, não controlávamos, não falávamos sobre ele. Quando finalmente acessamos esse território, costumamos “super compensar”, tratando o faturamento como única prova de que “deu certo”.
Esse comportamento é compreensível, mas é uma armadilha, porque um negócio que faz caixa pode, ao mesmo tempo, estar corroendo outras áreas da sua vida, e quando essas áreas pedem a conta, e elas sempre pedem, o número da planilha não consegue pagar.
A proposta que trago aqui, é olhar para o sucesso por quatro eixos, não por um. Um painel pessoal que cada mulher desenha para si:
- O eixo financeiro, que continua importando, mede a saúde do caixa, a previsibilidade de receita, a capacidade do negócio sustentar a vida que você quer levar. Sem ele, os outros quatro viram sonho, mas com ele no controle os demais podem nunca ser considerados com a importância real que eles têm.
- O eixo relacional mede a qualidade dos vínculos que você tem, dentro e fora do negócio. Observar seu casamento, a relação com os filhos, com os amigos próximos… Você está mais nutrida ou mais desidratada depois de tudo o que o negócio te custou? Esse eixo costuma ser o primeiro a sangrar, e o último a ser olhado.
- O eixo de impacto mede o que o seu trabalho deixa no mundo, para além do que entrega a você. Que problema você ajudou a resolver, que dor ajudou a aliviar, que possibilidade você abriu para outras pessoas? Esse eixo é o que dá motivação e longevidade ao sentido.
- O eixo de sentido é o mais íntimo. Mede a sua relação interior com aquilo que faz. Você se reconhece naquilo, ou está vivendo um papel que parou de te servir há tempos, e que acha que não pode soltar? Esse eixo só você pode aferir, e costuma ser o mais negligenciado.
Um negócio saudável, com uma mulher saudável conduzindo esse negócio, pontuam razoavelmente em todos os quatro. Não é preciso nota máxima em cada eixo todo mês, isso seria tentativa de acionar uma balança simétrica que realmente não existe. Porém, o que precisa existir é a consciência de saber em qual eixo você está bem agora, em qual está em dívida, e não permitir que nenhum fique permanentemente zerado em nome de outro que cresce desproporcionalmente.
A mulher do início desta conversa percebeu, depois de se auto-observar, que estava operando há quatro anos com o financeiro em alta e os outros três em queda livre. Não foi necessário derrubar o negócio para reequilibrar. Foi necessário parar de medir o sucesso só por ele, e voltar a tomar decisões considerando os outros três.
Esse é o trabalho que ninguém vai fazer no seu lugar, porque o painel é seu, e só você sabe o peso que cada eixo tem na vida que de fato quer construir para si mesma.
Construa o seu Painel. O sucesso que cabe inteiro numa planilha quase nunca é o sucesso que cabe inteiro numa vida.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

