
Imaginar um país melhor passa, inevitavelmente, por essa frase. Menos contexto e mais caminho. Menos explicação e mais entrega
Por André Gomyde
Existe uma frase simples que explica quase tudo na vida adulta, inclusive aquelas reuniões que poderiam ser um e-mail: quem quer, cria caminho. Quem não quer, cria contexto. O contexto costuma ser muito bem explicado, cheio de gráficos invisíveis e sempre acompanhado de um “não é bem assim”.
Nos relacionamentos, por exemplo, o caminho é simples: aparece, liga, convida, escuta. O contexto é sofisticado: semana corrida, fase complicada, Mercúrio retrógrado, trauma antigo, signo incompatível e, claro, “vamos deixar fluir”. Fluir, nesse caso, significa ficar parado esperando o outro cansar primeiro.
Nos projetos, a diferença é ainda mais visível. Quem quer, abre um arquivo em branco e começa, mesmo sem saber exatamente como vai terminar. Quem não quer, cria contexto: falta orçamento, falta tempo, falta alinhamento, falta benchmarking internacional e sobra PowerPoint. O projeto morre bonito, bem justificado, sem nunca ter vivido.
No planejamento estratégico pessoal, a frase também funciona como espelho. Quem quer mudar de vida acorda um pouco mais cedo, estuda, erra, tenta de novo. Quem não quer cria um contexto respeitável: agora não dá, ano que vem eu vejo, depois das férias, quando as coisas se ajeitarem. As coisas, curiosamente, nunca se ajeitam sozinhas. Elas são péssimas nisso.
Na saúde, então, o contraste é quase didático. Quem quer, caminha, bebe água, cuida do corpo. Quem não quer cria contexto: genética, falta de tempo, joelho ruim, médico exagerado, dieta que começa segunda. Segunda é um dia muito promissor, sempre disposto a assumir culpas que não são dele.
E aí chegamos à gestão pública, esse grande laboratório nacional de contextos criativos. Quando se quer, faz-se estrada, escola, hospital, política pública que funciona. Quando não se quer, cria-se o contexto perfeito: herança do governo anterior, crise internacional, entraves burocráticos, estudo em andamento, comissão formada. A comissão, claro, vai estudar o contexto.
Imaginar um país melhor passa, inevitavelmente, por essa frase. Menos contexto e mais caminho. Menos explicação e mais entrega. Menos desculpa sofisticada e mais solução simples. A vida, no fundo, não exige genialidade constante. Exige decisão.
Porque caminho dá trabalho, cansa e expõe. Contexto é confortável, elegante e não leva a lugar nenhum. E quase todo mundo sabe disso. Só finge esquecer quando convém.
No fim das contas, a pergunta é simples e incômoda: você anda construindo caminhos ou decorando contextos?
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

