
O papel do ambiente na violência contra a mulher: Enquanto homens veem caminhos, mulheres continuam mapeando riscos
Por Letícia Deps
Esta semana, mais um feminicídio. Brutal, próximo, impossível de ignorar. E como quase sempre acontece, o debate público rapidamente se organiza em torno do “óbvio”: violência, punição, justiça. Tudo necessário — e ainda assim insuficiente.
Porque antes da violência explícita, existe uma outra camada: a forma como o mundo é percebido.
Um estudo recente de Robert A. Chaney, publicado na revista Violence and Gender (2024), trouxe uma evidência visual inquietante. Ao analisar mapas de calor gerados a partir do olhar de homens e mulheres diante de imagens de trajetos noturnos, os pesquisadores descobriram algo simples — e profundo: homens olham para o caminho; mulheres escaneiam o entorno.
Eles focam no destino. Elas, nos possíveis perigos.
Não se trata de biologia. Trata-se de história incorporada.
O cérebro não é apenas um órgão — é um arquivo. Ele registra padrões, antecipa riscos, aprende com repetição. E o que ele aprendeu, ao longo de séculos, é que o corpo feminino está mais exposto à violência, especialmente em contextos de vulnerabilidade espacial: ruas vazias, caminhos estreitos, zonas de baixa visibilidade.
Por isso, mulheres desenvolvem um estado cognitivo contínuo de vigilância. Um tipo de atenção periférica ampliada, voltada menos para onde se quer ir e mais para o que pode acontecer no caminho. O estudo mostra exatamente isso: à noite e em ambientes com sensação de aprisionamento, elas intensificam ainda mais esse escaneamento do ambiente.
Esse dado não fala apenas sobre percepção. Ele fala sobre adaptação.
Historicamente, o espaço público nunca foi neutro. Cidades foram desenhadas por homens, para homens — considerando fluxos, eficiência, deslocamento. Pouco se considerou o medo como variável de projeto. E o medo, para as mulheres, não é abstração: é experiência transmitida, vivida, reiterada.
O feminicídio não começa no ato final. Ele começa muito antes, na normalização de um mundo onde metade da população aprende, desde cedo, que precisa estar em alerta constante.
Isso muda tudo.
Muda a forma de caminhar. Muda a escolha de trajetos. Muda o horário de sair. Muda a arquitetura da atenção.
E deveria mudar também a arquitetura das cidades.
Iluminação, visibilidade, rotas de fuga, permeabilidade visual, uso ativo dos espaços — tudo isso deixa de ser apenas desenho urbano e passa a ser política de segurança cognitiva.
Talvez a pergunta mais urgente não seja por que ainda acontece. Mas por que ainda projetamos como se não soubéssemos já que todos sabemos?
Os dados mostram. Os corpos confirmam. E, infelizmente, as notícias reiteram.
Enquanto homens veem caminhos, mulheres continuam mapeando riscos.
E isso, por si só, já é uma forma silenciosa de violência.
Fonte: Chaney, R. A.; Baer, A.; Tovar, L. I. (2024). Gender-Based Heat Map Images of Campus Walking Settings: A Reflection of Lived Experience. Violence and Gender, 11(1), 35–42. Licença: Creative Commons CC-BY 4.0
Letícia Deps é Neuroarquiteta – membro da Academia Norte Americana de Neurocîência aplicada a Arquitetura- ANFA nos capítulos San Diego-EUA e Brasil

