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terça-feira, 2 junho, 2020

O impacto da pandemia nos investimentos financeiros

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A retração do consumo, pressionada pelo aumento do desemprego, começa a se materializar e torna quase inevitável um novo corte de juros mais agressivo

Os impactos da pandemia no Brasil, agravados pela instabilidade política, atingem todos os setores da economia, com reflexos nos investimentos financeiros e no mercado de capitais. O lockdown, somado ao embate entre Executivo e Legislativo, impacta as expectativas macroeconômicas. Apesar de reações pontuais da Bolsa de Valores, os indicadores são preocupantes. O último Boletim Focus sinaliza uma expectativa do Produto interno Bruto (PIB) na ordem de -3,34%. E a projeção do FMI (Fundo Monetário Internacional) é que a economia brasileira tenha retração em torno de 5,3%.

O Ministério da Economia já assume um déficit primário do setor público superior a R$ 600 bilhões este ano, aproximadamente 8,25% do PIB, considerando o último relatório do Banco Central (Bacen). A retração do consumo, pressionada pelo aumento do desemprego, começa a se materializar e torna quase inevitável um novo corte de juros mais agressivo. Assim, o Brasil fica menos atrativo ao investidor estrangeiro, o que, em parte, reduz o ingresso de dólares. E um corte acentuado da Selic pressiona ainda mais o câmbio. A depreciação do real, que deixaria os produtos nacionais mais baratos que os estrangeiros, não impede a retração da indústria brasileira, que tem pouca relevância nas exportações pautadas nas commodities. Mesmo com os sucessivos recordes de valorização do dólar, o saldo da balança comercial no primeiro trimestre foi 32% inferior em relação a igual período de 2019.

Em um cenário de estagnação com depreciação da moeda doméstica, o ganho de competitividade dos exportadores não será efetivado em todo o seu potencial, devido à desaceleração econômica global. Mas o real desvalorizado aumentará os custos de investimentos e insumos aos importadores. E algumas empresas, em decorrência das sucessivas crises, aumentaram sua dívida em dólar e não conseguiram proteger os financiamentos internacionais com operações de hedge cambial.

Os dados do primeiro trimestre deste ano das economias globais começam a retratar o impacto da pandemia nos mercados. A economia dos Estados Unidos encolheu a uma taxa anualizada de 4,8%. Já o PIB da Zona do Euro retraiu-se em 3,8%, com queda gradativa do PMI industrial. Mas as companhias ligadas à tecnologia da informação tendem a apresentar saldos contundentes. O lucro do Facebook foi 102% superior em relação ao primeiro trimestre do ano passado.

Salvo algumas exceções, a expectativa é nada animadora com relação aos resultados das companhias. A petrolífera Royal Dutch Shell amargou queda de 48% no lucro do trimestre e cortou o pagamento de dividendos para preservar a geração de fluxo de caixa e manutenção da liquidez. As empresas exportadoras podem ser beneficiadas com a alta do dólar. É o caso da Vale S/A, que registrou R$ 984 milhões de lucro líquido. No setor financeiro, o lucro do banco Bradesco assinalou declínio de 39,8%, enquanto a Smiles teve queda de 60,3% e a Cielo, de 69,4%, no comparativo a igual período de 2019.

As expectativas econômicas estão comprometidas, e o avanço das reformas administrativa e tributária parece novamente ficar na retórica. A aversão ao risco causado pelo coronavírus, somada ao efeito da redução de juros e ao risco político, é uma combinação perigosa para o futuro do Brasil.

Gustavo Bertotti é mestre em Economia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, professor da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha e head de renda variável da Messem Investimentos

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