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O dilúvio de dados e a fome de sentido

O dilúvio de dados e a fome de sentido

Estamos afogados em dados, mas sedentos por significado

Por Michel Torres

Vivemos um momento sem precedentes. Nunca foi tão fácil criar, compartilhar ou replicar conteúdo. E, ainda assim, parece nunca ter sido tão difícil encontrar algo que realmente importe.

Antes do ano 2000, toda a informação registrada pela humanidade caberia em algumas dezenas de exabytes (para você ter uma referência do seu cotidiano, um exabyte equivale a um bilhão de gigabytes). Era o tempo em que o conhecimento ainda tinha a ver com esforço, escassez e relevância.

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Hoje, produzimos a mesma quantidade de dados a cada poucas horas. Segundo a IDC, o mundo cria cerca de 181 zettabytes (um ZB = um trilhão de gigabytes) por ano. Um número tão grande que já desafia a imaginação. Mais recentemente, grande parte desse volume passou a ser gerado por inteligências artificiais generativas. E, pela primeira vez na história, as máquinas produzem mais conteúdo do que os humanos.

Mas o que tudo isso realmente significa? Sendo bastante franco e direto: repetição disfarçada de criação.

Em 2022, evento do Google estimou que mais de 60% do conteúdo publicado na web é redundante. Cópias, versões, variações quase idênticas de ideias que já existiam. Em 2024, O relatório Data Never Sleeps mostrou que a cada minuto foram enviados 241 milhões de e-mails, 1,7 milhão de posts no Instagram e 500 mil novos tweets — e a grande maioria nunca foi lida por mais de uma dúzia de pessoas.

A consultoria IDC estima que menos de 10% de todos os dados gerados globalmente são analisados, processados ou reutilizados de alguma forma significativa. O restante é considerado “dark data” (informações armazenadas sem uso)

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Isso se repete nos modelos de IA generativa: treinadas para reconhecer padrões, essas ferramentas produzem novas combinações do já conhecido. O resultado é um oceano de conteúdo que cresce exponencialmente, mas que raramente expande nossa compreensão.

O problema não é a quantidade, mas a qualidade negligenciada.

O filósofo Herbert Simon, ainda nos anos 1970, previu com precisão o nosso dilema:

“A riqueza de informação cria uma pobreza de atenção.”

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Estamos afogados em dados, mas sedentos por significado.

Estamos no limite cognitivo.

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A avalanche de conteúdo não aumenta conhecimento — gera dispersão e exaustão. A mente humana não evoluiu na mesma velocidade da produção informacional; continuamos com cérebros analógicos tentando processar um universo digital infinito.

Enquanto os dados explodem, nossa mente continua a mesma, com as mesmas janelas de foco, os mesmos vieses, a mesma fadiga. O ser humano mantém na memória de trabalho de 3 a 5 elementos relevantes ao mesmo tempo, e o fenômeno da “fadiga de decisão” cresce na esteira da sobrecarga informacional.
Na economia da atenção, a informação tornou-se uma mercadoria. E a atenção, o recurso escasso.

Em outras palavras: produzir, publicar, replicar — tudo isso ficou trivial. Entender, filtrar, aplicar — isso é raro!

O excesso de conteúdo não está nos tornando mais sábios. Está apenas nos deixando mais ansiosos, mais dispersos e menos críticos.

Tenho certeza de que você já notou como a impressão geral é que todos, inclusive nós mesmos, estamos em uma correria frenética. Temos a disposição Zettabytes de dados, mas poucos avanços reais

Nunca publicamos tantas pesquisas científicas, nunca tivemos tantos relatórios, e nunca tivemos tanta tecnologia para resolver problemas complexos. Ainda assim, a fome, as guerras e a desigualdade seguem aí.

A ONU alerta que os indicadores de pobreza global avançam lentamente.

A Nature mostra que menos de 20% dos papers científicos são replicados ou aplicados fora do ambiente acadêmico.

E cerca de 80% da capacidade computacional da IA generativa é usada em marketing e entretenimento, não em ciência ou saúde pública.

Estamos otimizando cliques em vez de resolver causas.

A tecnologia corre, mas a consciência anda (e muitas vezes até parece que anda para trás).

O verdadeiro dilema não é digital, é humano

A inteligência artificial não é o problema. O problema é a ausência de inteligência humana no uso que fazemos dela.

Construímos máquinas capazes de gerar conteúdo em escala ilimitada, mas ainda não aprendemos a gerar significado com o que temos.

Vivemos o auge da expressão e o declínio da escuta.

Transformamos a informação em mercadoria, mas esquecemos de transformá-la em sabedoria.

O futuro não pertence mais a quem produz mais dados, mas sim a quem filtra o irrelevante, investe no essencial e aplica o que gera valor real.

Porque informação é matéria-prima.

Conhecimento é processo.

Sabedoria é escolha.

É hora de parar de contar bits. É hora de começar a gerar sentido.

Michel Torres é diretor da Viabilize, especialista em planejamento, inovação e transformação digital. 

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