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segunda-feira, 10 agosto, 2020

“A velhice é bela” por Mirian Goldenberg

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A Antropóloga Mirian Goldenberg fala como é envelhecer nos dias atuais

Mirian Goldenberg é doutora em Antropologia Social pelo programa de pós-graduação  do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de janeiro (UFRJ). Autora de livros como “A Bela Velhice”, “Coroas”, “Corpo, Envelhecimento e Felicidade”, “Velho é lindo!” e “Os novos Desejos”, entre outros, Miriam também é a palestrante e orienta pesquisas na área de gênero, corpo, moda, consumo, envelhecimento, casamento, infidelidade, sexualidade enovas conjugalidades na cultura brasileira.

Nesta entrevista Miriam aborda o que é importante para o idoso atualmente. Leia!

Qual seria a definição de uma “bela velhice”?

Mirian Goldenberg – Eu mostro no livro “A bela velhice” que existe a possibilidade de se envelhecer com mais liberdade e mais felicidade. Como dizem as minhas pesquisadas de mais de 60 anos, pode-se aproveitar essa fase da vida para ser você mesma, sem medo dos estereótipos, das rotulações e dos preconceitos que cercam o envelhecimento.

A velhice é bela, não quando você tenta congelar o seu corpo e o seu rosto na juventude, mas quando você saboreia esse momento da vida, que, para as minhas pesquisadas, principalmente para as mulheres ( por isso eu falo “pesquisadas”), o melhor momento de toda a vida. É a primeira vez que elas se sentem realmente livres, é o momento em que ela se sentem mais felizes. Então bela velhice é você ter uma saúde boa, ter condição financeiras para bancar os seus desejos e, principalmente, o que meus belos velhos mais valorizam, independência. E também se sentir com apoio e segurança, os meus pesquisados falam que a amizade é fundamental nessa fase da vida. Bela velhice é a possibilidade de viver esse momento da vida, que é cada vez mais longo, de uma forma mais livre e muito mais feliz.

O que mudou ao compararmos o envelhecer nos dias de hoje com o envelhecer na época dos nossos avós, por exemplo?

Mirian Goldenberg – A principal mudança é que quem está com 60, 70, 80 anos hoje, foi parte da mesma geração que fez a revolução comportamental no século passado, nos anos 60. São pessoas que quebraram tabus, quebraram preconceitos relacionados ao corpo, ao sexo, ao casamento, ao amor, ao trabalho. Essa geração (que eu gosto de chamar de “ageless – sem idade”) envelheceu e continua com projetos, continua namorando, dançando, cantando, trabalhando, viajando. É uma geração que não se limita em função de um rótulo, uma etiqueta. Então, a grande diferença é que essa geração está inventando uma nova forma de envelhecer, assim como inventou uma nova forma de ser jovem no século passado.

“Bela velhice é a possibilidade de viver esse momento da vida, que é cada vez mais longo, de uma forma mais livre e muito mais feliz”

Como as mulheres têm encarado o envelhecimento nos dias de hoje? Para elas, há um peso maior do que para os homens?

Mirian Goldenberg – Minhas pesquisas mostram que o corpo no Brasil, principalmente o das mulheres, é considerado como um verdadeiro capital. E não é um corpo qualquer, é o corpo jovem, magro e bonito. Então, em uma cultura que valoriza extremamente o corpo, a juventude e a sensualidade, para as mulheres envelhecer pode ser um momento de perda desse corpo capital.

Por isso, elas sofrem muito em relação às questões da aparência e investem tanto no consumo de produtos para rejuvenescer. As brasileiras são as maiores consumidoras do mundo de cirurgia plástica, Botox, preenchimento, tintura pra cabelo, remédio para emagrecer, moderador de apetite. Já os homens falam mais de medos relacionados à aposentadoria, à impotência e à dependência. Eles têm muito medo de se tornarem dependentes. Por outro lado, apesar das mulheres sofrerem muito com a pressão estética, elas descobrem na velhice um momento de muito mais liberdade, elas ligam, e são elas que dizem, aquele botãozinho do fo**-se e passam a se preocupar menos com as opiniões, os preconceitos e os estigmas relacionamos ao envelhecimento. Então, se é um momento de perda da aparência, é também um momento de uma grande conquista, de liberdade maior para ser você mesma.

Por que elas [mulheres] têm dificuldade de envelhecer com liberdade? Já tivemos avanço desde que você começou a pesquisar o assunto?

Mirian Goldenberg – Quando eu pergunto às mulheres o que elas mais invejam, elas invejam a liberdade masculina. Só com maturidade, só mais velhas, elas conquistam essa liberdade. Então se elas invejam quando são mais jovens, elas deixam de invejar, porque elas conquistam essa liberdade. Inclusive a liberdade de rir e de brincar mais e principalmente de rir delas mesmas e de serem mais leves, livres e felizes.

Pesquisadora Mirian Goldenberg
(Foto – Divulgação)

Qual é a diferença de comportamento das mulheres brasileiras para as de outros países quanto ao envelhecimento?

Mirian Goldenberg – Eu tenho feito muitas pesquisas, já são 30 anos de pesquisas com homens e mulheres e há 15 anos eu me dedico inteiramente a estudar o envelhecimento, sendo que, nos últimos 5 anos, eu tenho me dedicado àqueles que têm mais de 90 anos. Hoje, as pessoas podem envelhecer com mais independência, liberdade e felicidade, isso sem esquecer todas as misérias e todos os problemas que cercam o envelhecimento no Brasil, em termos de saúde, de políticas públicas, de aposentadoria e até de violência contra os idosos, que é gravíssima no Brasil. No entanto, eu preferi focalizar a possibilidade de envelhecer com beleza, independência, saúde e dignidade, todos os meus livros têm tratado desse tema. Então, eu acho que a grande mudança é essa possibilidade de ter uma bela velhice. Agora quer dizer que a situação geral do país melhorou? Não, não melhorou quase nada. São as pessoas que estão envelhecendo que estão cuidando mais de si, recebendo mais apoio dos amigos e familiares e lutando mais para serem independentes, e para terem dinheiro suficiente para cuidarem da própria saúde e enfrentarem essa violência cotidiana. Espero que o meu trabalho contribua um pouco para tudo que ainda precisa ser feito para que as pessoas possam, não só envelhecer, mas viver com mais dignidade, felicidade e liberdade.

*Entrevista originalmente dada para o Jornal Acaps – Edição 015

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