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quinta-feira, 18 abril, 2024

Claides Ghisolfi Rasseli: a dona dos biscoitos mais italianos do ES

Descendente de italianos e empreendedora de sucesso, a criadora do biscoito mais famoso do Espírito Santo coloca na receita o amor por suas raízes a tradições

Por Kamila Rangel

Quantas histórias cabem em uma história? Depende, dentre outras coisas, do ponto a partir do qual começamos a contar. Milhares de pessoas conhecem a Claid’s Biscoitos, referência na cidade de Santa Teresa, mas nem todas conhecem a verdadeira lição de superação e empreendedorismo que há por trás desse negócio de sucesso.

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Para narrar a história de Claide Ghisolfi Rasseli (58), a dona da Claid’s Biscoitos, é importante voltar a 1924, quando o avô dela, o italiano João Merotto, chegou em um navio ao porto de Vitória, com 17 anos de idade, para tentar a vida no Espírito Santo, onde se estabeleceu em Santa Teresa. Quatro anos depois, ele se casou com a também imigrante italiana Guilhermina Zufelatto, com quem teve sete filhos, entre os quais a mãe de Claide, dona Anna Merotto Ghisolfi, hoje com 86 anos de idade.

Aos 20 anos, dona Anna se casou com o atual marido, Jairo Jorge Ghisolfi (87), por quem foi pedida em casamento – e aceitou – aos quatro anos de idade. Sim! O amor de criança venceu o tempo e, já crescidos, decidiram cumprir aquela promessa feita um ao outro anos antes. Juntos, tiveram oito filhos.

Claide foi a quarta a nascer. Cresceu na região de Tabocas, brincando sob as parreiras e vendo os pais sustentarem a família com o que produziam. A comida era feita com o que era colhido e criado no sítio em que viviam. Desde pequena ela aprendeu a fazer muito com pouco. Estudou até a quarta série do ensino fundamental, o que era acessível naquela época, e depois foi ajudar os pais na roça. Casou-se aos 17 anos com José Cláudio Rasseli (69), com quem teve três filhos: Joici, Ricardo e Rodrigo.

E é nesse ponto dessas histórias que se entrelaçam que começa a trajetória da Claid’s Biscoitos, em 1990. Com os três filhos para criar, Claide se viu diante da necessidade de fazer algo para complementar os ganhos do marido, que eram provenientes da colheita de café. Foi aí que ela decidiu usar as receitas da mãe, dona Anna, e fazer biscoitos para vender. Com ingredientes que tinha em casa e com utensílios emprestados de uma vizinha, deu início ao negócio que hoje é referência em Santa Teresa.

Naquele tempo, não era como hoje em dia, que posta nas redes sociais e vende. Era ligando para os conhecidos pelo telefone fixo, dizendo que eu estava fazendo biscoitos para vender e, a partir daí, a propaganda boca a boca”
Naquele tempo, não era como hoje em dia, que posta nas redes sociais e vende. Era ligando para os conhecidos pelo telefone fixo, dizendo que eu estava fazendo biscoitos para vender e, a partir daí, a propaganda boca a boca”

A primeira fornada, feita em abril de 1990, em um fogão de quatro bocas, rendeu três quilos de biscoitos dos tipos casadinho e champanhe, vendidos no melhor estilo boca a boca.

Hoje, quase 34 anos depois, são 500 quilos de biscoitos produzidos por dia, de 90 tipos diferentes, em uma fábrica com quatro fornos.

As vendas são feitas em duas lojas físicas e em cerca de 50 pontos espalhados pelo Estado.

Apesar desse crescimento, algumas coisas não mudaram, como Claide faz questão de destacar: a qualidade das receitas, que até hoje são feitas sem nenhum aditivo químico; a forma artesanal de preparar os biscoitos; e o amor com o qual toda a família se dedica ao empreendimento.

Como começou a história da família de vocês no Espírito Santo?
O meu avô, João Merotto, pai da minha mãe, Anna Merotto Ghisolfi (86), veio da Itália em 1924. A minha avó, Guilhermina Zufelatto, também veio da Itália, em 1925. Os dois vieram para Santa Teresa e aqui se conheceram e casaram. Eles viveram em Tabocas, onde meu avô plantou as primeiras parreiras da região, com mudas que ele, por carta, pediu para mandarem da Itália. Com as uvas colhidas ele fez o primeiro vinho produzido em Santa Teresa.

Minha mãe é a caçula de sete filhos. Com 20 anos, ela se casou com o meu pai, Jairo Jorge Ghisolfi (87), que na época tinha 21 anos. O bisavô do meu pai veio da Itália nos primeiros navios que chegaram. Então, ele já é a quarta geração da família dele em Santa Teresa.

Depois de casados, meus pais também viveram na região de Tabocas, onde eu cresci, com mais sete irmãos. Saí de lá quando me casei, aos 17 anos, com meu marido, José Cláudio Rasseli (69), e passei a morar no centro de Santa Teresa.

Como surgiu a ideia de fazer biscoitos para vender?
Em 1990, eu já com meus três filhos, a Joici, o Ricardo e o Rodrigo, senti a necessidade de fazer alguma coisa para ter mais uma renda para a família. O meu marido trabalhava com plantação de café, mas não estava sendo suficiente. No dia 1º de abril daquele ano, minha mãe preparou um almoço para comemorar o aniversário do meu pai. Lembro que voltei para casa decidida a fazer algo para vender com o que eu tivesse em casa. Pedi para a minha vizinha Regina me emprestar umas coisas e fiz biscoitos dos tipos casadinho e champanhe, com receitas da minha mãe, porque ela costumava fazer esses biscoitos em datas comemorativas.

E como você vendeu os primeiros biscoitos?
A primeira fornada rendeu 1,2 quilo de biscoitos champanhe e 1,8 quilo de casadinhos.

Naquele tempo, não era como hoje em dia, que posta nas redes sociais e vende. Era ligando para os conhecidos pelo telefone fixo, dizendo que eu estava fazendo biscoitos para vender e, a partir daí, a propaganda boca a boca. Com o tempo, as pessoas foram conhecendo, indicando para os moradores e para quem visitava Santa Teresa. Coincidiu que essa foi a época em que o turismo na cidade estava começando a se fortalecer.

Existe alguma história curiosa por trás desse início?
Existem algumas histórias engraçadas, mas uma é especial. Com a necessidade de complementar a renda, eu comecei a fazer biscoitos, mas, se as pessoas encomendassem outros quitutes, eu também dava um jeito de fazer.

Fábrica da Claid’s, em Santa Teresa: daqui saem 500kg de biscoitos por dia, em 35 versões diferentes
Fábrica da Claid’s, em Santa Teresa: daqui saem 500kg de biscoitos por dia, em 35 versões diferentes

Um dia, pediram para eu fazer uma torta salgada e um bolo para um aniversário de 15 anos. Nunca tinha feito bolo confeitado, mas aceitei o desafio. A festa seria num domingo.

Eu fiz o bolo todo, de dois andares, e deixei para confeitar no sábado à noite. O problema foi que o glacê não deu para cobrir tudo. Naquela época, não tinha lugar nenhum aberto onde eu pudesse comprar mais ingredientes. Foi aí que eu decidi confeitar só a frente do bolo.

Não consegui nem dormir direito naquela noite, pensando em como eu ia explicar aquilo para a cliente. No domingo de manhã, cheguei para entregar as encomendas e, quando fui mostrar o bolo, expliquei o que tinha acontecido, morrendo de medo de a mulher falar que eu tinha que arrumar outro bolo. Graças a Deus, ela foi muito compreensiva e falou que ia colocar a parte de trás camuflada na decoração. Depois, ainda agradeceu porque estava tudo maravilhoso.

Até hoje, quando me encontro com ela aqui em Santa Teresa, eu me lembro do alívio que senti, quando ela disse que estava tudo bem. Hoje, é uma história engraçada, mas, naquela época, foi um desespero.

De 1990 para cá, como foi a trajetória da Claid’s? Quanto tempo demorou desde a primeira fornada de biscoitos até a abertura da primeira loja?
No começo, eu fazia as minhas receitas em casa, em uma cozinha pequenininha, num fogão de quatro bocas e com um fogão a lenha sendo usado como mesa de apoio. Meu marido esticava as massas, vigiava o forno e me ajudava com as crianças.

Foi ele que fez meus primeiros tabuleiros. Não tínhamos embalagem própria nem rótulo. Embalávamos os biscoitos com as embalagens reaproveitadas dos ingredientes. As pessoas batiam na minha porta e entravam na minha cozinha, para comprar.

Com o tempo, a demanda foi aumentando, e nós precisamos contratar ajudantes. Em 2000, quando já tínhamos sete funcionários, Santa Teresa foi atingida por uma enchente terrível, que destruiu o espaço onde era a fábrica, nos fundos da nossa casa. Precisamos reformar tudo.

Em maio de 2003, a obra foi concluída, com a reforma da casa, a ampliação da fábrica e a construção da primeira loja, que existe até hoje, na avenida José Ruschi, no centro de Santa Teresa.

Quando vocês construíram a fábrica atual, onde também funciona a loja principal?
Três anos depois de abrirmos a primeira loja, começamos a sentir necessidade de mudar para um espaço maior. O lugar onde é a fábrica hoje, na rodovia Josil Espíndula Agostini, que dá acesso a Santa Teresa, era um curral que fazia parte de uma fazenda onde comprávamos leite e nata para produzir os biscoitos.

O dono, o doutor Tabajara, já falecido, disse pra nós que, em uns anos, ia dividir o terreno em lotes e começar a vender. Sabendo do nosso sonho de ampliar a fábrica, ele falou que nos daria prioridade.

Eu passava na frente do curral e via a minha loja. Naquela época, já conseguia enxergar o que eu tenho hoje, mesmo sabendo que eu ainda não tinha condições e que seria difícil conquistar. Foi um negócio de sonho, foco e muita garra. Fazíamos com muita luta. Os filhos cresceram ajudando e foram criados vendo a nossa garra.

Em 2008, o doutor Tabajara disse pra nós que o terreno estava dividido e que, se quiséssemos comprar, já podíamos escolher a nossa parte. Eu e meu marido fomos até a casa dele, mas a conversa não durou muito tempo, porque eu já sabia qual pedaço eu queria. Fechamos negócio e demos início à realização de mais um sonho. Começamos a construir em dezembro de 2008 e, em fevereiro de 2011, a fábrica foi transferida para lá.

Em junho do mesmo ano, a segunda loja, que hoje é a matriz, foi inaugurada.

Jairo, Anna, Claíde e José Cláudio: amor pelas tradições italianas
Jairo, Anna, Claíde e José Cláudio: amor pelas tradições italianas

Quantos tipos de biscoitos são fabricados atualmente? Qual é o volume de produção?
Hoje, fazemos 90 tipos de biscoitos, entre receitas de família, receitas que replicamos e receitas que criamos com a experiência do dia a dia. Fabricamos 500 quilos de biscoito por dia, de 35 tipos diferentes. E vendemos tudo. Se pararmos a produção por um dia, faz falta. Aliás, desde que começamos, nunca paramos a produção. Mesmo na pandemia, atendíamos os clientes no carro deles. A loja abre todos os dias, inclusive nos feriados, das 8h às 18 horas.

Há produtos além dos biscoitos?
Hoje, além dos biscoitos, temos outros produtos, como massas, geleias, doces, licores e café. Quando pausamos a produção de café para focar nos biscoitos, não vendemos o sítio.

Com o tempo, voltamos a produzir e criamos a marca da nossa família. O café Rasseli é plantado, colhido e torrado por nós, pelos meus filhos. Em grãos e moído, só é vendido, por enquanto, na nossa loja.

Quantas pessoas vocês recebem por mês?
A frequência varia, em dias de semana, finais de semana e feriados, mas atendemos uma média de 15 mil pessoas por mês. Na loja da fábrica, o nosso estacionamento é enorme, mas tem dia em que não dá para parar uma bicicleta. Mesmo assim, as pessoas param o carro, ligam o pisca-alerta e ficam fechando outro carro, mas não deixam de entrar. Nós sentimos satisfação com isso, porque sabemos o quanto elas fazem questão. E não é só pelo biscoito, é pela história envolvida, é pelo lugar agradável, é pela experiência.

O que mudou de 1990 até hoje?
Muita coisa mudou, de lá para cá. Hoje, temos 22 funcionários, todos moradores de Santa Teresa. Além das nossas duas lojas, nossos biscoitos são vendidos em 50 pontos comerciais espalhados pelo Estado, mas não queremos pulverizar isso, porque, ao mesmo tempo em que desejamos que os clientes tenham acesso facilitado ao nosso produto, valorizamos a experiência deles na nossa loja.

Apesar de termos uma equipe grande e quatro fornos funcionando, preservamos a nossa produção artesanal e a qualidade das nossas receitas, que, desde 1990, são feitas sem nenhum aditivo químico. Pagamos um preço alto por isso, porque, entre outras coisas, a validade dos produtos é menor, mas prezamos por manter a nossa excelência.

Quais heranças da Itália fazem parte do dia a dia da Claid’s?
O fato de não termos saído de Santa Teresa ajudou a preservar nossas tradições, nossas raízes. A imigração italiana foi muito importante para a economia, para o turismo e para os sabores que hoje temos no Espírito Santo. Além das tantas receitas da família italiana, eu mantenho na Claid’s o que aprendi com a minha mãe e que é típico da Itália: fazer o melhor com o simples. E tudo sempre com muito amor!

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