Maurício Duque: Bandes com foco no desenvolvimento capixaba

“É necessário ser uma instituição sustentável e equilibrada, sendo saudável em seus números e, ao mesmo tempo, oferecer linhas de crédito que ajudem no desenvolvimento do Estado.”

Maurício Cézar Duque assumiu a presidência do Banco de Desenvolvimento do Estado do Espírito Santo (Bandes) no último mês de abril. Com uma carreira sólida, o economista leva sua vasta experiência no poder público como secretário da Fazenda. Foi titular desta pasta na Prefeitura de Vitória na primeira gestão de João Coser (PT), bem como no início do segundo mandado do petista – 2005 a 2010 – e também chefiou a Fazenda estadual na primeira administração do governo Renato Casagrande (PSB) – 2010 a 2014. Em seu currículo, destaque também para sua atuação como presidente do conselho administrativo do Banestes – 2011 a 2014 – e como professor universitário durante vários anos da mesma área de sua formação.

Nesta entrevista concedida com exclusividade à ES Brasil, Duque mostra quais serão suas marcas à frente do Bandes.

Qual é missão dada pelo governador Renato Casagrande para sua atuação no Bandes?
A de que o Bandes seja uma instituição sustentável. Por ser uma entidade financeira, o banco tem a responsabilidade de dar resultados. Ao mesmo tempo, por ser voltado para o desenvolvimento, precisa ter, ainda, a preocupação de apresentar não apenas o resultado financeiro, mas também o seu objetivo final. É necessário ser uma instituição sustentável e equilibrada, sendo saudável em seus números e, ao mesmo tempo, oferecer linhas de crédito que ajudem no desenvolvimento do Estado. Por vezes, o Bandes deve atuar no crédito, em áreas que outras instituições financeiras não trabalhariam, porque são importantes para o desenvolvimento do Estado. É esse equilíbrio que precisa ser alcançado. É necessário não perder o foco e manter a credibilidade, que está associada à sustentabilidade e aos resultados positivos.

Na ocasião do anúncio da equipe, o governador disse que era necessária uma avaliação dos papéis da Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes) e do Bandes para o fomento do desenvolvimento. Como está sendo, na prática, essa avaliação?
Nós temos as gestões independentes. A Aderes tem o seu planejamento como instituição, o Bandes também, e ambos estão alinhados ao do Estado. Essa aderência tem de se dar no nível de programas e de ações. É nessa convergência das ações que talvez o governador tenha colocado a avaliação do papel da agência e do Bandes. Não pode haver divergências. Temos de atuar em conjunto ou em complementariedade. Por exemplo, se o Bandes toma a frente de determinada área, a Aderes pode atuar em outra, ainda que sejam os mesmos segmentos ou região. Temos, ainda, de trabalhar em conjunto com os interesses de outras áreas, como os das secretarias de Desenvolvimento; de Ciência e Tecnologia; de Agricultura… Ou seja, temos órgãos, secretarias e empresas públicas voltadas para políticas de desenvolvimento, cada uma com a sua especificidade, mas seguindo o planejamento geral do governo do Estado. Não há necessidade de ter sombreamento entre os agentes, e ainda é necessário existir complementares, cada um com seu papel específico.

“Precisamos exercitar essa agenda frequentemente com os empresários, seja via associações e federações, seja via conversa direta”

De que modo a experiência do senhor como secretário da Fazenda de Vitória e do Estado pode contribuir para o estreitamento de laços com os municípios?
Os municípios têm uma necessidade de investimento que supera sua capacidade de recursos próprios. Faz-se necessário, então, ter ofertas de linhas específicas para que os gestores possam colocar em ação aquele planejamento ou investimento que está previsto em seus projetos, como os de desenvolvimento municipal, de infraestrutura e os outros que possam existir. Nesse sentido, o Bandes pode atuar reativando linhas de crédito com esse interesse. Já atuamos no passado, e o desejo da atual diretoria é que voltem de forma mais intensa.

Qual linha de crédito seria reativada para atingir esse objetivo?
Tínhamos, na gestão anterior do governador Casagrande, uma linha com recursos do Proinveste exclusivamente voltada para os municípios. Na época, a linha era um dos braços do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Espírito Santo (Prodes), que tinha a intenção justamente de manter a capacidade de investimento desse público. Vamos reativá-la, mas com algumas modificações, já que o mercado mudou de seis, sete anos para cá e, obviamente, as necessidades de capitação de recursos também.

Naquele período, os municípios maiores e mais estruturados já tinham feito operações. Por isso, talvez não haja necessidade de oferta de serviços e de produtos com as mesmas especificidades daquela época. Observando essas características distintas, estamos readequando exigências e objetivos da linha. Uma novidade que já será oferecida pelo Bandes e que não havia no passado é uma linha voltada para investimentos em ações e projetos na área de sustentabilidade. Vai ser uma linha bem abrangente na qual os municípios podem captar recursos para diversos projetos, desde aqueles inovadores na área de energia, para eficiência ou para geração, passando por propostas na área de saneamento e chegando a melhorias da gestão. Como esse interesse está alinhado com um planejamento macro da gestão, será ofertado para os clientes um tratamento diferenciado, com taxas menores que as de um projeto de investimento tradicional dos municípios.

Em qual fase está essa atualização das linhas para os municípios?
Está em fase final de preparação. Fizemos uma agenda com a Amunes (Associação dos Municípios do Estado do Espírito Santo) para estreitar o diálogo com os prefeitos. A equipe interna do banco já desenhou essa atualização e agora está seguindo o trâmite de análises e de aprovações de orçamentos para cada produto. A dúvida que fica é se cada município desejoso de financiamento consegue tramitar seus projetos nos órgãos necessários a ponto de estar totalmente apto à liberação do crédito. Se as equipes municipais conseguirem tramitar tudo ainda este ano, vamos estar prontos para a liberação dos recursos. Porém, se identificarmos que os projetos chegarão aqui ao banco no ano que vem, vamos segurar um pouco o aporte de recursos e disponibilizar somente para os que já atenderam aos pré-requisitos básicos e específicos de seus interesses. Por isso a necessidade imperiosa de mantermos um diálogo constante com as entidades representativas e com os próprios municípios. Nas próximas semanas, vamos definir com os municípios e o governo os projetos em estágio mais avançado. Alguns estão até finalizados, aguardando a liberação da linha de crédito para prosseguir.

“Estamos abrindo o nosso portfólio de produtos e de serviços para os segmentos, federações e associações e recebendo deles e das empresas um feedback sobre quais seriam as linhas de que precisariam”

Uma das metas anunciadas do Bandes é diversificar e ampliar os produtos e serviços para empreendedores e empresários. O que já está sendo feito nesse sentido?
Estamos realizando uma série de visitas a diversos segmentos empresariais com objetivo de mostrar o Bandes. Estamos abrindo o nosso portfólio de produtos e de serviços para os segmentos, federações e associações e recebendo deles e das empresas um feedback sobre quais seriam as linhas de que precisariam. É um diálogo aberto mesmo. Recentemente tivemos uma reunião longa de diretoria sobre esse retorno que já tivemos. Por exemplo, para uma linha que identificamos ter uma demanda menor este ano, podemos reduzir o orçamento e passar para outra que provavelmente vai ter uma procura maior. Só dá para identificar esse tipo de oscilação se mantivermos a conversa bem estreita com os segmentos empresariais.

O Bandes, então, estará mais flexível às necessidades dos empresários?
Sim. Não adianta oferecermos um produto que não tenha aderência do outro lado. Se o empresário não viu esse produto como interessante, para o banco ele também não vai ser interessante. Temos de evitar ao máximo subutilizar uma linha de crédito ou mesmo insistir em outra que não está dando certo do ponto de vista de retorno ao banco e à sociedade. Ela acaba ficando parada, situação que está totalmente fora do compromisso com o desenvolvimento. Todas as linhas precisam refletir esse compromisso. Por isso precisamos exercitar essa agenda frequentemente com os empresários, seja via associações e federações, seja via conversa direta.

Nesta nova gestão, como ficarão os programas setoriais e os regionais?
Todas as linhas estão passando por uma revisão, independentemente se o programa do qual ela faça parte seja setorial ou regional. Há setores que são contemplados por certas linhas que atendem à determinada região. A grosso modo, o Bandes repassa o Fundo do Nordeste, que obviamente hoje só pode ser aplicado nos municípios da Sudene. De outra forma, também trabalhamos com recursos do Fundes (Fundo de Desenvolvimento do Espírito Santo), que são prioritariamente para utilização na região da Grande Vitória. Ainda operamos com recursos do Fundepar (Fundo de Desenvolvimento e Participações do Espírito Santo) para utilização no Fundesul, destinados ao sul capixaba. Esses são os programas regionais. O que nós estamos discutindo é que um produto ou serviço não precisa necessariamente estar tão amarrado dentro de programas regionais ou setoriais ou de linhas específicas. É necessário que haja uma flexibilização maior em todos os programas e linhas para atender à demanda dos empresários. Quando temos recursos carimbados, a mobilidade destes não é possível. Por isso, estamos trabalhando para dar maior flexibilidade possível ao recurso soberano do Bandes. Não temos interesse em alimentar ou ser rígidos demais com empréstimos ou com as linhas só porque o município está em uma determinada região, participa de um determinado segmento ou tem um nível de faturamento estabelecido.

“Temos de evitar ao máximo subutilizar uma linha de crédito ou mesmo insistir em outra que não está dando certo do ponto de vista de retorno ao banco e à sociedade”

O programa de microcrédito produtivo do governo do Espírito Santo, o Nossocrédito, coordenado pelo Bandes, está alcançando os objetivos determinados? Pode haver alguma alteração?
Se nós formos olhar o que a equipe coloca como meta, sim. Não temos uma mensuração muito detalhada lá na ponta. O que nós medimos são as metas que colocamos para as equipes. Temos uma expectativa de liberação de recursos, de atendimentos a um número de empresas e, com isso, uma expectativa com o número de empregos gerados. Porém, não tenho como afirmar qualitativamente se o crédito traz o resultado que poderia.

O Nossocrédito é também uma forma de o Bandes atuar na diversificação de públicos?
Também. Como é fruto de uma parceria Bandes-Banestes, a vocação dele é mais para o desenvolvimento e o apoio ao empreendedorismo do que para a diversificação dos recursos do Bandes. Definimos uma política, fazemos a qualificação das pessoas que oferecem o Nossocrédito, mas os recursos primários são do Banestes. É um programa importante, porque dá oportunidades ao micro e pequeno empreendedor e ao empreendedor individual, além da rede de empresas que estão localizadas nas periferias e no interior do Estado e das pessoas que estão iniciando o seu negócio.

“O modus operandi dessas renegociações e da cobrança está passando por uma mudança estrutural”

Como ficará a participação do Bandes na modalidade de Fundo de Investimento em Participações (FIPs)?
O Bandes começou com essa estratégia em 2013/2014 com o presidente Guilherme Henrique Pereira, e foi feito um aprofundamento com o presidente Luiz Paulo Vellozo Lucas. Hoje participamos do Criatec e do Primatec. Cada fundo desse tem uma característica de investidores e um “tamanho de cheque”. Há fundos que têm mais ou menos investidores, e o Bandes é um deles, porém cada FIP possui uma gestora específica, uma tese de investimentos e a lista de quais setores investirá. A participação do Bandes em FIPs amplia as modalidades de atuação para o apoio às empresas, sejam startups, sejam organizações estabelecidas e com potencial identificado pelas gestoras.

Nesse contexto, o Bandes deve investir mais nesse tipo de operação, principalmente atuando nos fundos chamados de “anjo”, que têm uma característica de impulsionar uma pequena empresa com produtos inovadores a estabelecer-se no mercado. Estamos aguardando a aprovação do fundo soberano do banco por parte da Assembleia Legislativa para podermos prosseguir com esse debate. A aprovação também permitirá que invistamos em fundos private equity, que são para projetos de empresas mais estabelecidas e que já têm faturamentos mais robustos.

Como o Bandes está lidando com os tomadores de crédito que precisam renegociar suas dívidas?
É um processo que vai ser acelerado. O Bandes tem o número grande de operações e, consequentemente, uma grande necessidade de renegociação, até pelo perfil que a economia local apresentou nos últimos anos, com a crise de abastecimento de água, por exemplo. Já provamos algumas medidas internas para dar celeridade e ampliar esse processo.  Com isso, o modus operandi dessas renegociações e da cobrança está passando por uma mudança estrutural. Uma das alterações que já está em fase de finalização é a terceirização da cobrança. Sugiro a quem está com qualquer tipo de inconformidade das suas operações com o Bandes que procure a instituição o quanto antes.


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