Por Thamiris Guidoni
O Espírito Santo revisitou a própria história em uma série de eventos que celebraram a memória cultural do estado. O público também conheceu o novo livro de Thais Helena Leite, História do Espírito Santo, que teve tarde de autógrafos no dia 25 de outubro, na Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música (Fafi), no Centro de Vitória.
A obra, resultado de mais de 30 anos de pesquisa, traz uma narrativa cronológica do estado, incluindo povos originários, comunidades quilombolas, o cotidiano de Vitória ao longo dos séculos e aspectos sociais, políticos e culturais até os dias atuais.
“Existem poucas obras que fazem uma narrativa completa da história do Espírito Santo. O capixaba conhece partes de sua história, mas muitas vezes não tem a dimensão do todo”, explica a autora.
Com versões impressa, e-book e audiobook, o livro combina imagens, mapas e tabelas que contextualizam cada período histórico, tornando o conteúdo acessível e didático.
Tanto o livro quanto o projeto audiovisual permitiram que o público revisse décadas de cultura capixaba, desde grandes nomes da música e do teatro local, como Martinho da Vila, Raul Seixas, Alceu Valença e Eva Wilma, até registros do cotidiano que haviam se perdido com o tempo. A iniciativa reforça a importância da preservação histórica, aproximando a população do legado cultural do estado e oferecendo uma oportunidade de aprendizado e lazer.
“História do Espírito Santo” se vale de arquivos e produções intelectuais conhecidas e consagradas e também das novidades surgidas nos últimos anos, como novas teses, artigos, produtos culturais, disponíveis em acervos tradicionais e também pela via digital.
“A comunicação pela internet e o crescimento das redes sociais nos últimos anos trouxe para meu cotidiano uma gama de pessoas pedindo informações, me enviando materiais, histórias da História do estado, fatos que funcionaram como um estímulo para a pesquisa e a escrita”, conta Thais Helena.
Ela destaca a emergência de novas perspectivas como a visão decolonial e também diálogos feitos com mestres e mestras dos saberes e fazeres dos povos tradicionais, como indígenas e quilombolas, que permitem somar perspectivas aos conhecimentos já existentes.
“Se os povos originários resistiram até hoje, por que, na maioria dos livros que seguem uma linha cronológica da História, eles aparecem apenas no período colonial brasileiro?”, questiona a pesquisadora.
“Quebrando um pouco essa ‘lógica espacial’, busquei informações e conteúdos sobre os indígenas do Espírito Santo em todos os períodos históricos, incluindo o Império e as fases republicanas. As comunidades quilombolas presentes no estado também ganham maior destaque na nova publicação. São povos tão importantes para a nossa cultura e, muitas vezes, invisibilizados em nossa sociedade.”
Outro ponto de atenção é a história social de Vitória, com destaque para as especificidades da capital em cada época abordada.
Memórias em 16mm
O projeto Memórias em 16mm: A cultura capixaba pelas lentes da TV Gazeta apresentou reportagens produzidas entre 1976 e 1983, registrando apresentações teatrais e musicais, exposições de arte, carnaval, festas populares, paisagens e cenas do cotidiano da época. Conservadas originalmente em película 16mm pelo Arquivo Público do Estado, essas relíquias ganharam nova vida no formato digital, sendo disponibilizadas para pesquisa e consulta no portal Midiateca Capixaba.
Ricardo Sá, produtor executivo do projeto, definiu a iniciativa como uma verdadeira “maratona da preservação”. “Mais do que imagens e registros, entregamos à sociedade capixaba um pedaço vivo da sua própria história, um espaço de memória que poderá guiar pesquisas, filmes, estudos e, principalmente, memórias afetivas”.
O acervo digitalizado reúne 398 rolos de película 16 milímetros, contendo reportagens culturais exibidas nos primeiros anos de funcionamento da TV Gazeta, fundada em 11 de setembro de 1976.
O material traz entrevistas com nomes consagrados da cena cultural local e nacional, como Amylton de Almeida, Luiz Tadeu Teixeira, Maurício de Oliveira, Bernadette Lyra, Hermógenes Lima da Fonseca, Beth Caser, Martinho da Vila, Eva Wilma, Raul Seixas, Alceu Valença e Tom Zé. Jornalistas históricos da imprensa capixaba, como Glecy Coutinho, Nilo de Mingo e Marisa Sampaio, conduzem as reportagens.
O projeto integra uma iniciativa mais ampla de preservação da história audiovisual do Espírito Santo. As películas foram escaneadas quadro a quadro em alta resolução, com recuperação de imagem e som.
Lucas Bonini é o idealizador e responsável técnico pela digitalização e conservação do acervo, atuando com supervisão de conteúdo de Monica Nitz e inventário e pesquisa arquivística de André Malverdes, em parceria com o Arquivo Público do Estado.
“O desafio da digitalização foi grande. Muitos filmes não poderiam mais ser reproduzidos sem riscos de perda irreversível. Para garantir sua preservação, recorremos ao uso de um scanner sprocketless 2K, equipamento que dispensa o uso das perfurações para tracionar a película, permitindo que mesmo materiais fragilizados fossem digitalizados com segurança”, explica.
Segundo ele, o trabalho envolveu diversas etapas, da limpeza manual ao escaneamento, da análise de danos à criação de matrizes digitais em formatos de preservação reconhecidos internacionalmente, sempre com cuidado para prolongar a vida das obras sem apagar seus traços de origem.
“O resultado é um conjunto de imagens que, digitalizadas em resolução 2K, ganham uma nova chance de circular, agora em ambiente digital, sem os riscos que a manipulação física impunha”.
Além do aspecto técnico, o projeto cumpre um papel fundamental: devolver à sociedade capixaba e brasileira um patrimônio que há muito tempo precisava ser acessado. Pesquisadores, educadores, jornalistas e o público em geral poderão revisitar, pela primeira vez em décadas, um retrato vibrante da cultura e da vida no Espírito Santo durante o período da ditadura militar.

