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IA recria ausências em filme capixaba sobre memória

Com uso de inteligência artificial, Coisas Grandiosas parte da morte da jornalista Jeanne Bilich para tensionar memória, presença e os limites entre realidade e ficção

Por Thamiris Guidoni

O Cine Metrópolis, na Ufes, recebe no dia 17 de maio, às 18 horas, a sessão especial e gratuita de Coisas Grandiosas, novo filme do cineasta capixaba Sidemberg Rodrigues. A exibição, exclusiva para inscritos, marca o quarto longa do diretor e aposta em uma narrativa híbrida entre documentário e drama narrado, com uso intenso de inteligência artificial na recriação de cenas e personagens.

A obra utiliza recursos de IA para reconstruir presenças de pessoas falecidas, incluindo figuras ligadas à história da imprensa capixaba. O filme parte da morte da jornalista Jeanne Bilich, cuja trajetória se entrelaça com o jornalismo no Espírito Santo, e propõe uma reflexão sobre memória, arte e finitude.

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“É meu filme mais franco, corajoso e também o mais sensível, com os efeitos potencializados pelo uso de recursos tecnológicos!”, revela Sidemberg.

Em entrevista à ES Brasil, o diretor detalha como o uso da inteligência artificial ultrapassa o campo técnico e passa a envolver dimensões éticas e emocionais dentro da obra.

“Quando uma cena recriada com IA impressiona o familiar do biografado ao ponto de emocioná-lo, tanto o cinema quanto a tecnologia terão cumprido o seu papel, sublimando o teor técnico em emocional. Temos péssimos exemplos de aplicações da tecnologia atualmente, como fraudes, guerras e massificação de padrões estéticos escravizantes nessa ditadura da beleza que vivemos”. 

E reforça: “Mas a arte pode endereçar os recursos que dispomos para fins de sensibilidade e prazer sublime. Este filme é uma prova de que, com criatividade e ética, um bom passado pode ser trazido de volta para inspirar — e mesmo encantar as pessoas. E nunca nosso planeta precisou tanto de emoção positiva, entretenimento ético e beleza espiritual. Afinal, desfrutamos de tecnologias disruptivas, mas ainda amargamos em uma inaceitável linearidade moral.”

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A dimensão emocional se intensifica com a participação de Mirian Bilich, irmã de Jeanne, que contracena com recriações digitais da irmã.

“As cenas em que ‘contraceno’ com a minha irmã (digital) me impressionaram e emocionaram bastante, pela perfeição. Até confundi realidade com ficção. Ela faleceu em 2022, mas a IA a trouxe de volta… Estamos diante de uma revolução na arte cinematográfica: filme forte, impactante e poético ao mesmo tempo. Imperdível!”, afirma Mirian.

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O filme também traz o ator mirim Rafael Leite, que interpreta Sidemberg aos 11 anos. Estudante da rede pública estadual nas montanhas do Espírito Santo, ele toca instrumentos, atua e canta.

“Apesar da idade, o Rafa tem a maturidade de um veterano… Foi fácil e muito prazeroso dirigi-lo!”, diz o diretor.

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A obra nasce da canção “Sonata de Outubro”, composta por Sidemberg como homenagem a Jeanne em seu aniversário de 50 anos. Em entrevista, o diretor também relaciona a origem do filme à experiência do luto e à criação artística.

“O argumento da obra está em uma canção composta para o aniversário de uma amiga com a qual o diretor trocava presentes como livros, esculturas, pinturas, poemas e congêneres. Em seu leito de morte, essa amiga pediu que, após sua partida, a música fosse regravada com a presença de outros amigos, tendo nascido este filme. Com a dor da perda e diante de uma amizade regada à sensibilidade, foi inevitável ao roteiro olhar a finitude sob uma perspectiva que questiona o próprio sentido da vida e da arte, tão presente nessa bela relação, até porque uma das partes era cética e a outra espiritualista.”

A regravação da música, prometida nos últimos dias de vida da jornalista, se torna eixo simbólico do roteiro, que também incorpora elementos de memória e reflexão metafísica.

Quem foi Jeanne Bilich

Mais do que ponto de partida do filme, Jeanne Bilich é parte da própria história do jornalismo capixaba. Primeira apresentadora de telejornal da TV Gazeta, ela ajudou a moldar uma forma de comunicar que marcou época no Espírito Santo. Morta em 2022, aos 77 anos, deixou um legado que atravessa gerações — e que, em Coisas Grandiosas, reaparece não apenas como memória, mas como presença reconstruída entre afeto, tecnologia e lembrança.

Serviço

A sessão é gratuita, mediante inscrição prévia no site oficial ou por QR Code. Durante o evento, o público poderá contribuir de forma voluntária com o projeto EMDOREMI, iniciativa social que acolhe crianças, jovens e idosos em situação de vulnerabilidade, oferecendo iniciação musical e apresentações públicas. O projeto é presidido por Sidemberg e tem como lema “Trocando a rua pelo palco”.

As doações não são obrigatórias e podem ser feitas via PIX (21737785/0001-50) ou pelo PicPay @emdoremi, como forma de apoio às atividades da iniciativa.

Coisas Grandiosas tem 70 minutos de duração e é assinado por Sidemberg Rodrigues, que responde pelo roteiro e direção. O elenco reúne Mirian Bilich, Rafael Leite, Bernandete Poeys, Zulmira Marçal, Carol Rodrigues, Fernando Cardoso, Nicola Pasolini e Ricardo Ton.

Exibição: 17.05.2026, às 18h
Local: Cine Metrópolis – Ufes (Goiabeiras, Vitória).

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