Mesmo com a taxação de produtos brasileiros pelos EUA, o Espírito Santo fechou o 2º trimestre de 2025 com forte alta industrial e novos investimentos bilionários
Por Cristiano Stefenoni
No segundo trimestre de 2025 houve uma virada de chave na economia capixaba. A timidez registrada nos três primeiros meses do ano deu lugar a um importante crescimento, de abril a junho. O Produto Interno Bruto (PIB), com R$ 59,5 bilhões, saltou 2,3% frente ao trimestre anterior – bem acima da média nacional (0,4%) –, de acordo com os dados do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN). Também cresceu no acumulado do ano, com 2,4%
Se no primeiro trimestre os setores de serviços e agropecuária, em alta, sustentaram a estabilidade do PIB, foi a Indústria que alavancou o segundo trimestre com um crescimento de 5,6% em relação aos três meses anteriores e de 1,9% no acumulado do ano. Destaque para a indústria extrativa – representada por itens como minério de ferro, petróleo e gás –, com alta de 4,6%.
“O que vimos, especialmente no início, foi uma indústria capixaba que demonstra força e resiliência mesmo diante dos desafios do cenário nacional e internacional. Em 2025 [a partir do segundo trimestre], os setores de extração mineral e energia foram os grandes motores do crescimento, impulsionados pelo aumento da produção de petróleo e gás natural e pela expansão da geração de energia no estado”, explica o presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), Paulo Baraona.
Já o setor de serviços seguiu consistente, com crescimento de 2,3% no acumulado anual, e a agropecuária seguiu em leve alta, de 0,5%.
Sobre o agronegócio, embora o primeiro trimestre de 2025 tenha trazido recorde nas divisas, no segundo trimestre as exportações do setor apresentaram retração de 9,3% de acordo com o IJSN, puxada pela redução nas vendas de café em grão e por ajustes em celulose.

No campo do comércio exterior global, as movimentações seguiram influenciando o mundo todo, inclusive o Brasil e, por tabela, o Espírito Santo. No conflito entre gigantes, a taxação dos EUA sobre produtos estrangeiros progrediu, e a escalada na guerra comercial com a China levou o presidente norte-americano Donald Trump a lançar uma tarifação de até 145% sobre os asiáticos, que retaliaram com impostos de 125% sobre os produtos dos EUA. Posteriormente, os governos dos dois países acordaram suspender, por ora, as sobretaxas.
Trump também ameaçou taxar a União Europeia e, enfim, o tarifaço começou a chegar ao Brasil em abril, com o anúncio de 10% – um patamar que seria uma base de impostos a todos os parceiros comerciais. Junto, veio o aviso de que tarifas mais elevadas seriam aplicadas a nações específicas.
Enquanto isso, no Brasil, em junho, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central jogou a taxa de juros a 15%, maior patamar em cerca de 20 anos. Isso pressionou ainda mais os setores econômicos, especialmente os dependentes de crédito.
Novas vagas seguiram em ascensão
Já o mercado de trabalho seguiu o ritmo forte, com a criação de 8.553 novos empregos formais somente em abril, o melhor saldo mensal desde maio de 2023. A agropecuária respondeu por 59% dessas vagas, conforme o boletim trimestral do IJSN apurado a partir de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
Esses números, com resultado positivo continuado, situaram o Espírito Santo em um patamar de baixo desemprego, porém, com desafios para ampliar a inclusão produtiva e reduzir a informalidade em setores específicos. “Mesmo com os números preocupantes do desempenho do ponto de vista do produto, o mercado de trabalho seguiu aquecido, registrando menores taxas históricas de ocupação”, destaca Érika Leal, presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES).

Saneamento
O Governo do Espírito Santo deu importantes passos rumo à universalização dos serviços de água e esgoto no segundo trimestre. Em abril, a Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan) publicou o edital de licitação para contratação de uma nova Parceria Público-Privada (PPP), com foco na adequação, ampliação, manutenção e operação do sistema de esgotamento sanitário em 43 municípios do Espírito Santo. Posteriormente, no terceiro trimestre, um contrato de R$ 7 bilhões foi assinado com multinacionais escolhidas para a parceria.
Ainda no âmbito das políticas públicas, o estado bateu recorde em aportes em Ciência, Tecnologia, Inovação e Extensão no primeiro semestre do ano, com investimentos anunciados de R$ 200 milhões pelo governo capixaba. Os valores foram disponibilizados para fomento das áreas por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes). Também foram majorados os valores das bolsas de formação científica oferecidas pela Fapes.
Essas e outras ações governamentais seguiram em avanço e o vice-governador, Ricardo Ferraço, reflete que as ações estruturantes fazem diferença e atraem novos empreendimentos e negócios. “A combinação de contas públicas organizadas, ambiente regulatório estável e forte presença de investimentos públicos e privados têm gerado dinamismo em setores estratégicos, como logística, indústria, agronegócio, tecnologia e energia”, enfatiza.

Investimentos
O segundo trimestre no estado também ficou marcado por anúncios importantes que impactariam diretamente a vida do capixaba. Durante sua participação no Brazilian Regional Markets, realizado em Nova Iorque (EUA), o governador Renato Casagrande apresentou planos estratégicos, entre os quais o Invest-ES, nova agência estadual de atração de investimentos; o projeto de autossuficiência energética da Cesan; e o futuro Fundo de Descarbonização, vinculado ao Fundo Soberano do Estado do Espírito Santo (Funses), criado para financiar projetos e empresas que promovam a transição energética e a redução das emissões de gases de efeito estufa na economia capixaba.
Em maio, o Instituto Jones dos Santos Neves fez a primeira atualização no ano da carteira de investimentos públicos e privados previstos para o Espírito Santo até 2029. No documento, o valor passou de R$ 98 bilhões para R$ 120 bilhões, distribuídos em mais de 1.100 projetos.
Na área industrial, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo reforçou apoio ao plano da ArcelorMittal Tubarão que prevê aporte de R$ 4 bilhões na unidade instalada no estado até 2029. A implantação deve gerar 2,5 mil empregos diretos e garantir 450 postos permanentes.

Mais negócios
Ainda no segundo trimestre, aconteceu o Vitória PetroShow 2025, que reuniu mais de sete mil visitantes e movimentou cerca de R$ 1 bilhão em negócios imediatos, reforçando o potencial capixaba na área de petróleo e gás.
No setor varejista, o Grupo Carone, do segmento supermercadista, anunciou em abril investimento de R$ 63 milhões para a instalação de um novo atacarejo da bandeira Sempre Tem na Barra do Jucu, em Vila Velha – inaugurado posteriormente, em novembro. O empreendimento gerou cerca de 400 empregos diretos e indiretos.
Já na área da saúde privada, a MedSênior concluiu investimentos de R$ 35 milhões e inaugurou sua nova unidade ambulatorial em Vitória, um complexo de 7 mil m², equipado com 42 consultórios e capacidade para 450 atendimentos por dia e 12 mil ao mês.
*Entrevista publicada originalmente na revista ES Brasil 231 – Retrospectiva 2025. Leia a edição completa aqui.

