
Muitas vezes, árvores que já estão comprometidas continuam sendo mantidas por anos, enquanto se perde um tempo precioso que poderia ser usado para formar novas árvores saudáveis
Por Douglas Negrini
Cada dia que passa, fica mais evidente — e a gente sente isso na pele — o quanto as cidades precisam de árvores. Seja nas ruas, nos parques ou até nos quintais, elas contribuem para redução do calor. Caminhamos pela cidade procurando o lado mais fresco da rua e, se paramos para uma conversa, a primeira coisa que fazemos é buscar uma sombra. Ficar ao sol já não é opção.
Está cada vez mais claro que a qualidade de vida urbana está diretamente ligada à presença de uma arborização consistente. Diariamente, somos expostos a notícias que destacam números expressivos como “Vila Velha vai ganhar 50 mil árvores até 2030 para reduzir áreas de calor”, “Serra vai ganhar 10 mil novas árvores”. Esses dados chamam atenção e, de certa forma, tranquilizam. No entanto, é fundamental trazer uma reflexão: árvores não são números.
Os números são importantes, sim. Eles ajudam a orientar políticas públicas e o planejamento urbano. O recém criado Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), por exemplo, traz metas como 30% a 40% de cobertura arbórea nas cidades, o mínimo de 12 metros quadrados de área verde por habitante (idealmente entre 20 e 30 m²) e arborizar mais de 80% das vias urbanas. Mas só isso não resolve. O ponto principal é entender que árvores são seres vivos. Plantar milhares de mudas não significa, por si só, uma cidade mais arborizada. Esse plano só terá efeito real se essas árvores chegarem à vida adulta e em sua plena saúde. Para isso essas mudas precisam receber os
cuidados necessários.
Tudo começa antes do plano, com a escolha das espécies e seleção das mudas. É muito comum utilizarem mudas muito pequenas para economizar, mas essas mudas morrem mais facilmente por falta de água e demoram muito mais para crescerem. A escolha da muda correta é fundamental para garantir o sucesso do plano.
O plano em si também faz muita diferença. É comum vermos mudas sendo tratadas quase como postes — o importante é plantar e bater a meta. Mas não funciona assim. O solo precisa ser preparado e o espaço para as raízes precisa ser pensado. Sem isso, a árvore até cresce, mas vira uma planta fraca, que nunca se desenvolve direito.
E o cuidado não acaba aí. Depois do plano, tem irrigação, manejo e manutenção. A taxa de sobrevivência é tão importante quanto o número de mudas plantadas. E as árvores adultas também precisam de atenção. Podas mal feitas e falta de controle de doenças acabam prejudicando muito. É comum ver equipes podando várias árvores sem cuidado, espalhando doenças de uma para outra. Muitas vezes, árvores que já estão comprometidas continuam sendo mantidas por anos, enquanto se perde um tempo precioso que poderia ser usado para formar novas árvores saudáveis.
Quando o foco fica só nos números, surgem decisões equivocadas. A escolha das espécies, por exemplo, faz toda a diferença. Espécies exóticas muitas vezes não ajudam a fauna local e, em alguns casos, podem até causar problemas, como a morte de abelhas nativas. Outro erro cada vez mais comum é o uso de espécies de pequeno porte, as chamadas “mini árvores”. Em cidades como Vitória, isso acontece muito por causa da falta de espaço e da infraestrutura existente. Essas árvores até resolvem alguns problemas, como conflitos com calçadas e fiação, mas trazem outros. Elas quase não geram sombra, não criam continuidade verde nas ruas e contribuem pouco para melhorar o clima e a biodiversidade.
No fim, a cidade até parece arborizada, mas continua quente e pouco agradável. Por isso, mais do que bater metas, é importante entender a arborização como um sistema vivo. Os números ajudam, mas não são suficientes. Uma cidade bem arborizada é aquela que garante condições para que as árvores cresçam saudáveis e façam diferença no dia a dia das pessoas.
Douglas Negrini é arquiteto e urbanista especialista em paisagismo, associado da AsBEA/ES

