Marcel Fukayama defende mudanças normativas para impulsionar ESG
Por Daniel Hirschmann
A agenda ESG vive um momento de consolidação, apesar das críticas recentes ao greenwashing e à resistência de setores antirregulatórios. Com novos marcos regulatórios, como o CSRD na Europa e o IFRS S1 e S2 no Brasil, especialistas apontam avanços estruturais na gestão sustentável. Para Marcel Fukayama, diretor de políticas globais do B Lab, a pressão por transparência e gestão de riscos climáticos coloca o ESG no centro das decisões estratégicas, mesmo diante de recuos na retórica empresarial.
No Espírito Santo, a pauta também ganha força tanto no setor privado quanto nas políticas públicas. Mirela Souto, presidente do Coemas/Findes, reforça que práticas ESG já são essenciais à longevidade e competitividade das empresas. Já o estado figura entre os líderes em políticas sustentáveis, com iniciativas como o ES-2030 e o plano ES 500 Anos. Segundo Pablo Lira, do Instituto Jones dos Santos Neves, os impactos positivos já aparecem em indicadores sociais e econômicos, embora ainda haja desafios para fortalecer a cultura ESG de forma ampla e contínua.
ESG como padrão

Marcel Fukayama avalia que o que falta para o ESG deixar de ser diferencial e se tornar um padrão mínimo é uma mudança de cultura, o que também depende, em larga escala, de uma estrutura e de “mudar as regras do jogo”. No Brasil isso envolve mercado financeiro, com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Ambima), e a regulação, com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
“Falta uma prefixação de conduta, faltam parâmetros para essa conduta. Por isso, nós precisamos aprimorar a regra do jogo, para que essa cultura passe a ser válida em larga escala.
Nós também precisamos evoluir nesse arcabouço institucional e jurídico, na lógica de mitigação de impacto negativo, ou simplesmente redução de dano”, destaca Fukayama.
Ele entende que as empresas precisam gerar impacto socioambiental positivo no seu ambiente de trabalho, na sua cadeia de valor e no modelo de negócio. “No balanço líquido, essa empresa tem que ser positiva, não pode simplesmente empatar e promover uma redução de dano como algo suficiente.
Então, é nesses avanços normativos, regulatórios, institucionais, que nós precisamos avançar para que essa agenda seja um padrão mínimo esperado”, explica.
ESG em meio às crises
Nesse contexto, em meio a tantas crises simultâneas – um cenário de policrises –, manter a agenda ESG relevante e urgente é fundamental, segundo Fukayama, com uma mudança de linguagem e de posicionamento, sempre construindo pontes numa direção que incentive o novo paradigma econômico e, ao mesmo tempo, desincentive o velho paradigma. “Não adianta a gente falar de US$ 1,3 trilhão para finanças climáticas por ano, que é algo que vai ser estabelecido na COP 30 se, ao mesmo tempo, a gente ainda estiver falando de um subsídio de US$ 7 trilhões por ano em combustível fóssil”, questiona.
Com essa premissa, ele afirma que tornar obsoleta a velha economia e incentivar a nova economia é fundamental, mas sempre dialogando e criando condições para promover essa transição. “É isso que nós precisamos, nesse cenário de policrises, para poder seguir construindo, promovendo a gestão de risco, gerando os avanços e o progresso na fronteira da inovação e, ao mesmo tempo, acelerando a transição”, defende.
Nesse sentido, entre os maiores entraves para que a agenda ESG avance com consistência está a necessidade de evoluções normativas, para promover transformações estruturais e escalar uma mudança de cultura. “O Brasil tem uma grande oportunidade e pode aproveitar a COP 30 como uma valiosa plataforma de incidência nessa agenda”, incentiva Marcel Fukayama.
Ele acrescenta que o evento que será realizado em Belém (PA), em novembro, pode ser um grande palco para o Brasil mobilizar não apenas recursos financeiros, mas também capital social e político para promover essa agenda. “O Brasil, por conta da sua sociobiodiversidade e da sua capacidade dialógica, principalmente na direção da paz, consegue, sem dúvida alguma, construir consenso para que se consiga avançar concretamente nessas questões”, conclui o especialista.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

