Em meio a críticas e pressões globais, o ESG exige menos discurso e mais prática das empresas
Por Daniel Hirschmann
Depois de um período de forte expansão, impulsionado pela pandemia e pela mobilização inédita de capital, a agenda ESG entrou em uma fase mais complexa e exigente. Avanços regulatórios, padronização de métricas e maior rigor na fiscalização convivem agora com críticas ao greenwashing, pressões geopolíticas e movimentos antirregulatórios em diferentes partes do mundo. Esse cenário não representa um recuo estrutural, mas um momento de inflexão: menos discurso, mais cobrança por coerência entre narrativa e prática.
Nesse contexto de ajuste, especialistas apontam que o ESG deixa de ser tratado como bandeira reputacional e passa a ocupar um espaço mais estratégico, ligado à gestão de riscos, à resiliência econômica e à adaptação às mudanças climáticas. No Brasil — e no Espírito Santo —, o debate ganha contornos próprios, à medida que empresas, investidores e formuladores de políticas públicas precisam responder a um ambiente de maior instabilidade climática, regulatória e social.
De acordo com o diretor de Global Policy no B Lab (Sistema de Certificação concedida a empresas que atendem aos mais altos padrões de desempenho socioambiental), Marcel Fukayama, mesmo o contexto geopolítico e os movimentos antirregulatórios não devem desacelerar a agenda global ESG, mas podem influenciar — e já estão influenciando – uma mudança de posicionamento e narrativa.
“Tem um tema de mudança e evolução de linguagem, mas também tem um tema de posicionamento”, pondera Marcel Fukayama.
Ele salienta que, em especial por conta das desigualdades e da emergência climática, essa agenda deve ser vista também pela gestão de risco por parte dos investidores. Isso porque o ano de 2024 foi o mais desafiante na agenda climática, no Brasil e no mundo, já que o planeta superou 1,55° C de aquecimento, o que ultrapassa o limite de 1,5°C até o final desse século, estabelecido no Acordo de Paris.
“Então, nós temos pelo menos 85 anos até o final deste século, já tendo superado a meta estabelecida, e temos que nos mobilizar e nos posicionar para uma gestão de risco também”, alerta o analista.
Esse quadro leva a uma série de redefinições na indústria, como no caso das seguradoras, que precisam se reinventar nesse novo contexto de adaptação e resiliência climática. “Acredito que esse contexto é o que permite não desacelerar a agenda global”, aponta Fukayama.
Mais do que um diferencial

Para a presidente do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Coemas/Findes), Mirela Souto, em um mundo cada vez mais impactado por desafios ambientais e sociais, as práticas ESG se tornaram fundamentais para o posicionamento estratégico das empresas.
“Mais do que um diferencial, adotar uma agenda ESG robusta é hoje uma necessidade para garantir a perenidade, a competitividade e a relevância das organizações no longo prazo”, enfatiza.
Ela avalia que integrar a sustentabilidade à gestão corporativa significa, acima de tudo, reconhecer e mitigar riscos não financeiros — como os de natureza ambiental e social —, que afetam diretamente a operação, os resultados financeiros, a segurança jurídica e a reputação das empresas.
Assim, ao adotar uma abordagem ESG estruturada, as organizações se tornam mais preparadas para enfrentar incertezas e, ao mesmo tempo, criam terreno fértil para a inovação.

Apesar de ainda persistir entre alguns segmentos a ideia de que ESG não combina com os negócios, ou que representa um obstáculo à busca por lucro, ela entende que, na verdade, essa agenda representa uma enorme oportunidade de geração de valor.
“Incorporar critérios ambientais, sociais e de governança ao modelo de gestão ajuda a alinhar a operação com os interesses da sociedade, dos investidores e dos colaboradores — e o retorno financeiro é uma consequência natural desse alinhamento”, explica Mirela, alertando que empresas que olham apenas para o lucro de curto prazo deixam de se preparar para desafios estruturais.
Por outro lado, organizações que integram a sustentabilidade à estratégia conseguem engajar mais seus colaboradores, fortalecer sua reputação, impulsionar a inovação e atrair investimentos — sobretudo de fundos que já priorizam empresas com alto desempenho ESG. “Não é uma agenda à parte. ESG precisa estar no centro da estratégia corporativa da empresa.
Não se trata de ter metas no papel, mas de adotar políticas claras, práticas transparentes e compromissos reais. Empresas que conseguem capturar o valor dessa agenda tornam-se mais criativas, resilientes e competitivas”, argumenta.
*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil 227, de junho de 2025. Leia a edição completa aqui.


