
O mar traz um potencial que confere maior elasticidade ao turismo porque amplia os tempos, os usos e as experiências
Por José Antônio Bof Buffon
O Espírito Santo passa a contar, a partir deste ano, com um Plano de Marketing Turístico consistente e bem estruturado, que oferece um leque articulado de estratégias e métodos de divulgação e promoção dos nossos destinos – sobretudo os de paria, mas não somente. Não se trata apenas de um documento inédito, em conteúdo e forma.
O Plano introduz uma inovação crucial, capaz de alterar estruturalmente a maneira como o Estado se percebe e se posiciona no mercado turístico: a mudança de eixo do tradicional “sol e praia” para o conceito estratégico de “praia e mar”.
Trata-se de uma mudança que começa na forma como as pessoas pensam e percebem o turismo capixaba e suas potencialidades e que, progressivamente, se traduzirá em ações concretas, arranjos institucionais e políticas públicas e, logicamente, bem-estar e prosperidade ao Espírito Santo.
O mar traz um potencial que confere maior elasticidade ao turismo porque amplia os tempos, os usos e as experiências.
Diferentemente de uma lógica estritamente climática e sazonal, o mar proporciona mais possibilidades e alternativas ao longo do ano, gera experiências distintas ao longo do dia e conecta esporte, lazer, gastronomia, cultura e bem-estar. Ao permitir a construção de produtos turísticos de maior valor agregado, o mar reduz a dependência dos picos do verão, contribui para a extensão da permanência dos visitantes e eleva o gasto médio.
Nesse novo eixo de praia e mar, abre-se um amplo leque de possibilidades que independe do calor extremo. Ganham espaço os esportes náuticos — como vela, remo, surf, canoa havaiana e pesca oceânica —, o turismo náutico e de experiência, a observação da vida silvestre, especialmente de baleias e golfinhos, a gastronomia associada ao mar, as práticas de bem-estar, contemplação e paisagem, além de eventos à beira-mar e da produção de conteúdo digital com identidade própria.
Essa diversidade dá suporte a um turismo menos concentrado no tempo e mais consistente e significativo do ponto de vista econômico e mais sustentável.
O Espírito Santo apresenta uma vantagem comparativa clara nesse movimento: um litoral diverso, acessível e ainda pouco saturado. Esse conjunto favorece um modelo baseado menos no turismo de massa e mais no turismo de experiência, com maior capacidade de organização e qualificação da oferta. Ao mudar de enfoque, o Espírito Santo começa, assim, a deixar de vender apenas sol e praia para estruturar praia e mar como um sistema econômico e experiencial, o que altera o perfil do turista, amplia o tempo de permanência e aprofunda os impactos econômicos no território.
Esse reposicionamento dialoga diretamente com o marketing digital contemporâneo. O mar gera conteúdo contínuo, experiências filmáveis e compartilháveis e permite que o destino construa narrativa, não apenas imagem. Sol é foto; mar é história. Antes, éramos demandados por sol e praia — um modelo limitado, sazonal e dependente do clima. Agora, inicia-se a estruturação de praia e mar como eixo estratégico capaz de criar experiência, dar elasticidade ao turismo e sustentar a atividade para além do verão.
Para que essa mudança se consolide, é fundamental compreender que a praia, por si só, não é um ativo econômico. Ela é natureza. Só se transforma em atrativo turístico e produto comercial quando é estruturada, recortada e ofertada de forma intencional. Sem isso, o que predomina é o turismo espontâneo, pendular, o veranismo sazonal, o baixo gasto médio e a pressão excessiva sobre a infraestrutura local. Quando a praia “funciona sozinha”, ela até atrai pessoas, mas não organiza valor: os visitantes vão e voltam com regularidade, mas consomem pouco, geram impacto econômico limitado e contribuem para o desgaste ambiental e urbano. Isso não é turismo; é uso espontâneo e insustentável do território.
A praia passa a ser, efetivamente, um ativo turístico quando há decisão pública e privada de estruturá-la de acordo com sua vocação e seu potencial. Isso exige a integração de elementos básicos e indissociáveis, como segurança, acessibilidade, alimentação, transporte, hospedagem — ainda que localizada em áreas mais distantes, desde que disponível e compatível —, além de limpeza e saneamento, especialmente no médio e longo prazo. A praia não precisa de luxo; precisa de coerência.
Outro ponto central é reconhecer que cada praia possui características que lhe confere uma vocação própria e dialoga com públicos distintos. O litoral não pode ser tratado como um bloco homogêneo; ele precisa ser recortado, envelopado e ofertado individualmente. Há praias voltadas aos banhistas locais, outras ao veranismo pendular, aos esportes náuticos, ao surf, à observação da vida selvagem ou às práticas de contemplação e bem-estar. Cada um desses públicos consome de forma distinta, permanece por tempos diferentes, exige infraestrutura específica e gera valores econômicos também distintos.
É por isso que o produto turístico não nasce da paisagem, mas da modelagem econômica voltada ao seu aproveitamento comercial. A paisagem atrai; o produto adequado retém e garante seu aproveitamento reiterado. O valor emerge da combinação entre recorte adequado, estrutura coerente e promoção qualificada. Sem essa lógica, o marketing se torna promessa vazia, o influenciador gera fluxo sem valor e o território se desgasta.
Nesse processo, o papel do poder público é decisivo, mas deve ser compreendido com equilíbrio. Não se trata de “explorar a praia e o mar” a qualquer custo, mas de organizar o uso do território, garantir infraestrutura básica e oferecer previsibilidade para cálculo econômico dos investimentos privados. Sem saneamento, acesso, segurança, limpeza e ordenamento, não há produto sustentável, tampouco turismo de longo prazo.
Em síntese, o Espírito Santo começa a compreender que o litoral (a praia e o mar) não é apenas cenário, um substrato físico para suportar a presença dos turistas. É um ativo econômico complexo, que exige desenho fino, decisões estratégicas e visão de longo prazo.
José Antonio Bof Buffon é Economista e Secretário Executivo da Câmara Empresarial do Turismo da Fecomércio-ES

