Toda tecnologia é, em princípio, um monstro. Até virar eletrodoméstico. A princípio, destruidora de lares, depois, aliada do cotidiano
Por André Gomyde
(Por alguém que ainda lembra como era rebobinar uma fita cassete com a tampa da Bic)
Quando surgiu o rádio, houve quem dissesse: “É o fim da conversa!” Afinal, por que alguém gastaria saliva no alpendre se podia ouvir o Repórter Esso com um copo de groselha na mão? Depois veio a televisão, e lá se foi a imaginação coletiva que o rádio cultivava. “As pessoas vão parar de ler, de pensar, de imaginar!”, gritavam nossos avós enquanto ajeitavam a antena com bombril.
Aí apareceu o computador. “Cada um vai viver na sua bolha, isolado em frente a uma tela!”, lamentavam nossos pais, digitando devagar com o dedo indicador e suspeitando do tal “mouse” (que nem era de verdade, veja só). Quando o celular invadiu bolsos e corações, o medo era outro: “Acabou o sossego! Agora todo mundo pode ser encontrado a qualquer hora do dia!”. A bateria que durava três dias não era consolo suficiente.
As redes sociais chegaram e a profecia foi: “Agora qualquer um pode dizer qualquer coisa pra qualquer pessoa!” – e, pior, em CAPS LOCK. Onde já se viu? Um primo de segundo grau dando opinião sobre política, religião e a nova namorada do tio Zeca.
E agora, a inteligência artificial. O novo vilão. “Ela vai substituir a criatividade humana!”, dizem. “Vai acabar com o pensamento original!”. E lá vamos nós, de novo, repetir a ladainha secular: o apocalipse está chegando, e traz Wi-Fi.
Mas, vejamos. A verdade é que toda tecnologia é, em princípio, um monstro. Até virar eletrodoméstico. A princípio, destruidora de lares, depois, aliada do cotidiano. Acharam que a televisão nos tornaria zumbis — hoje ela une a família no churrasco de domingo com o jogo do Brasileirão. O celular que tiraria a paz? Hoje salva casamentos com mensagens tipo “compra pão”.
Por outro lado, talvez agora o alerta faça sentido. A inteligência artificial não é só uma ferramenta. Ela pensa — ou pelo menos finge bem. Aprende. Imita. E não se cansa. Pode compor música, escrever poema, fazer análise de mercado e até dar conselhos amorosos (embora ainda erre feio quando o assunto é coração humano). A fronteira entre “auxílio” e “substituição” está cada vez mais borrada.
No fundo, talvez a pergunta não seja se a tecnologia vai nos destruir. Mas se nós vamos lembrar de usá-la para sermos mais humanos — e não menos. Toda evolução exige um pacto: usamos isso aqui para facilitar a vida, não para terceirizá-la. A inteligência artificial pode ser só mais um capítulo do mesmo livro. Ou pode ser o livro inteiro escrito sem a gente.
Depende de quem segura a caneta — ou digita a senha.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

