Metodologia que organiza as etapas do projeto está mudando a rotina de arquitetos e será tema de workshop comandado por Fabio Guisso
Por Erik Oakes
A Modelagem da Informação da Construção (BIM, do inglês Building Information Modeling) está mudando a forma como arquitetos projetam, colaboram e entregam valor. Ela usa modelos digitais tridimensionais para representar um projeto de construção, facilitando o planejamento, projeto, construção e gerenciamento do ciclo de vida da obra.
Ao conectar dados, equipes e processos em um único fluxo de trabalho, a metodologia tem mudado a forma como arquitetos projetam, colaboram e entregam valor. “O BIM aumenta a produtividade em até 25%, reduz erros, retrabalhos e permite decisões mais estratégicas desde o início do projeto até a operação do edifício”.
Quem afirma isso é Fabio Guisso, especialista com mais de 18 anos de atuação na área, consultor em projetos de órgãos públicos e privados em todo o Brasil, professor de pós-graduação e fundador de iniciativas de capacitação profissional voltadas à inovação no setor.
“Estamos vivendo uma virada histórica. E o que vai diferenciar os profissionais do futuro não é apenas a capacidade técnica, mas a mentalidade estratégica e a disposição para aprender continuamente e se adaptar a novas formas de pensar, projetar e construir”, disse o capixaba, que atualmente reside em Brasília e vem a Vitória nesta sexta-feira (4) comandar um workshop exclusivo da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura no Espírito Santo (AsBEA/ES) direcionado a seus associados.
Mas afinal, o que está por trás desse conceito que vem ganhando força no Brasil? E por que ele tem sido visto como essencial não só para grandes construtoras, mas também para pequenos escritórios que buscam se manter competitivos? Confira abaixo a entrevista com Fabio, que ao longo de sua trajetória, participou de iniciativas junto à Prefeitura de Vitória (ES), DER-ES, Prefeitura de Natal (RN), Prefeitura de Campinas (SP), FINDES, Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), Banestes, entre outros.
ES Brasil – A transformação digital na construção civil ainda enfrenta muitas resistências culturais e estruturais? Na sua visão, qual é o maior desafio para a adoção ampla do BIM no Brasil e como os arquitetos podem atuar como agentes ativos dessa mudança?
Fabio – Sim, a transformação digital na construção civil ainda enfrenta resistências importantes, tanto culturais quanto estruturais. A informalidade ainda é presente em muitos processos, assim como a resistência à mudança e a dificuldade de enxergar tecnologia como investimento estratégico e não apenas como custo.
Na minha visão, o maior desafio para a adoção ampla do BIM no Brasil está na falta de entendimento sobre o verdadeiro valor da metodologia. Ainda é comum enxergar o BIM como um software de modelagem 3D, quando na verdade estamos falando de uma mudança completa de processo, de mentalidade e de gestão da informação ao longo de todo o ciclo de vida de um empreendimento.
Outro fator crítico é a escassez de capacitação estruturada, principalmente em órgãos públicos e pequenas empresas. Isso gera uma lacuna de conhecimento e dificulta a consolidação de padrões e boas práticas.
Dentro desse cenário, os arquitetos, assim como engenheiros e demais profissionais da cadeia, têm papel essencial como agentes de transformação. Especialmente os arquitetos, que muitas vezes assumem a liderança nos processos de concepção e desenvolvimento de projeto, podem contribuir decisivamente para disseminar o uso do BIM, não apenas por meio da modelagem, mas também ao incorporar práticas colaborativas, planejamento orientado por dados e integração com etapas como obra e operação.
Para além da tecnologia, quais habilidades humanas e estratégicas o profissional da arquitetura precisa desenvolver para realmente aproveitar o potencial dessa metodologia?
O BIM, por si só, é uma poderosa ferramenta de transformação, mas sua real efetividade depende das pessoas por trás dos processos. Mais do que dominar softwares, os profissionais que atuam com projetos, como arquitetos e engenheiros, precisam desenvolver habilidades humanas e estratégicas que permitam extrair todo o potencial da metodologia.
A primeira delas é a mentalidade colaborativa. O BIM é, essencialmente, um processo integrado e multidisciplinar. Isso exige que o profissional saiba trabalhar em equipe, comunicar-se com clareza, compartilhar informações e tomar decisões com base em dados, considerando os impactos para todas as disciplinas envolvidas.
Outra habilidade essencial é o pensamento sistêmico. Com o BIM, não estamos apenas modelando objetos, mas estruturando informações que percorrem todas as fases do empreendimento, do projeto à obra, da operação à manutenção. O profissional que entende essa visão de ciclo de vida se torna mais estratégico, pois contribui para decisões mais assertivas desde o início.

Também é fundamental desenvolver visão analítica e capacidade de gestão de processos. O profissional que sabe interpretar dados extraídos do modelo, que entende cronogramas vinculados a modelos 4D ou quantificações conectadas ao 5D, por exemplo, entrega mais valor e se posiciona como peça-chave dentro das organizações.
E, por fim, destacaria a disposição para aprender continuamente. A tecnologia muda, os padrões evoluem, novas diretrizes surgem. O profissional que se mantém atualizado e que busca compreender tanto os aspectos técnicos quanto os regulatórios se diferencia e se fortalece no mercado.
No cenário atual, como o BIM pode ser um diferencial competitivo para pequenos escritórios de arquitetura, que muitas vezes enfrentam limitações de tempo, orçamento e equipe?
Com certeza. E na verdade, são justamente essas limitações — de tempo, equipe enxuta e orçamento apertado — que tornam o BIM um diferencial competitivo real para pequenos escritórios. Ao contrário do que muitos ainda pensam, o BIM não é exclusivo para grandes empresas com estruturas robustas. Ele é, antes de tudo, uma forma mais inteligente e eficiente de trabalhar.
Com processos bem definidos e um bom template, por exemplo, é possível ganhar produtividade, reduzir retrabalho e entregar projetos com maior qualidade técnica e mais valor agregado ao cliente. Um pequeno escritório que domina o BIM consegue apresentar quantitativos confiáveis, prever interferências, colaborar melhor com parceiros externos e até agregar novas entregas, como simulações, planejamento ou documentação para licitação.
Outro ponto é que o BIM permite padronizar processos, o que é fundamental quando se tem uma equipe reduzida. Isso gera consistência nos projetos e facilita a capacitação de novos colaboradores ou parceiros.
Há espaço para democratização da metodologia?
Sim, ainda existem desafios para a democratização do BIM, como o custo inicial de licenças, a curva de aprendizagem e a escassez de mão de obra qualificada. Mas esse cenário vem mudando. Hoje já temos opções de software mais acessíveis, conteúdos gratuitos de qualidade e uma rede crescente de apoio para pequenos escritórios que querem dar esse passo.
Vejo cada vez mais profissionais autônomos e pequenos escritórios adotando o BIM de forma estratégica, mesmo que de forma gradual. E os resultados aparecem rápido: mais organização, menos erros e mais competitividade.
Há espaço para democratizar o BIM e o momento é agora. Quem entender isso primeiro, vai sair na frente. Como minha avó dizia: quem chega primeiro bebe água limpa!
O que tem te surpreendido nesse processo de transição para uma construção civil mais inteligente, conectada e integrada?
O que mais me surpreende positivamente é perceber que, apesar de todas as dificuldades estruturais que o setor ainda enfrenta, há uma vontade real de mudança. Profissionais que antes tinham receio da tecnologia estão cada vez mais abertos ao aprendizado, especialmente quando percebem que o BIM, por exemplo, vai muito além da modelagem, ele organiza, padroniza e gera valor real para o dia a dia do projeto e da obra.
Tenho acompanhado histórias de equipes que, mesmo com poucos recursos, conseguem se reinventar com metodologias digitais, ganhando eficiência e competitividade.
Por outro lado, o que ainda me preocupa é que muitas lideranças seguem tratando a inovação como algo restrito ao software, delegando a responsabilidade para um “departamento técnico” e não envolvendo as esferas estratégicas da organização. Transformação digital exige envolvimento da alta gestão, exige revisão de processos, capacitação e mudança de cultura. Sem isso, não há tecnologia que resolva.
E nesse cenário, é impossível não mencionar a inteligência artificial como um próximo passo inevitável. A IA já está começando a impactar profundamente a forma como analisamos dados, prevemos riscos, otimizamos cronogramas e até projetamos edificações. Ainda é cedo para entender toda a dimensão dessa mudança, mas é claro que os profissionais que aprenderem a integrar o uso da IA aos seus fluxos de trabalho sairão na frente.

