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Agenda anti-ESG: tendência global ou não?

Especialistas apontam que o desmonte do ESG não deve ganhar força no Brasil

Por Simone Azevedo

Com a volta de Donald Trump à Presidência dos EUA, crescem as pressões políticas contra políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) e critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) nas grandes corporações americanas. Empresas como Google, Meta e Amazon recuaram em metas de inclusão, enquanto patrocinadores abandonaram eventos do Mês do Orgulho LGBTQIA+. No entanto, especialistas apontam que esse movimento é mais simbólico do que prático: propostas anti-ESG têm pouca adesão nas assembleias corporativas, e parte das empresas adota estratégias de “hushing”, mantendo ações internas sem divulgação pública para evitar desgaste.

Ricardo Voltolini, diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) Brasil, também considera que a agenda anti-ESG e as pautas anti-woke não se confirmarão como uma tendência global. “O Trump está perdendo popularidade. O mundo todo já está em pé de guerra por conta do pacote de tarifas. A China já vem se apresentando como uma candidata a pegar esse vácuo regulatório dos EUA. E a Europa, que tem os padrões de ESG que nós praticamos no Brasil, propôs apenas um olhar de ajustes para a pauta, mas não de interrupção. Ao mesmo tempo em que você vê Google e Meta anunciando esse recuo, você tem McDonald’s e Microsoft dizendo que, embora apoiem Trump, não vão mudar suas políticas de diversidade, equidade e inclusão no Brasil, por entenderem que essas políticas já estão incorporadas às suas culturas de gestão”, comenta.

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Ricardo Voltolini, diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) Brasil. Foto: Paulo Uras/Divulgação
Ricardo Voltolini, diretor de Sustentabilidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) Brasil. Foto: Paulo Uras/Divulgação

Mesmo diante desses indicadores, Poliano Bastos faz um alerta sobre evidências de um desmonte silencioso. “Consultorias brasileiras têm relatado cancelamentos de última hora em projetos de diversidade, citando incertezas orçamentárias e o contexto internacional como justificativa. Pesquisa Blend Edu apontou mudança de foco das ações externas para campanhas internas de diversidade, sugerindo maior discrição. E pesquisa do Instituto Brasileiro de Governaça Corporativa (IBGC) indicou intenção de muitos conselhos em reduzir debates sobre diversidade em 2025, influenciados pelo clima político dos EUA.

Esse ESG estratégico enfatiza menos narrativas políticas e mais governança pragmática, alinhada ao core business, buscando resultados mensuráveis em áreas como governança, riscos financeiros e eficiência operacional, em detrimento de metas identitárias explícitas”, comenta o especialista.

Convicção x pressão do mercado

“No Brasil, muitas empresas que não fazem ESG por convicção, e sim por pressão regulatória do mercado – porque acreditam na mesma pauta que o Trump, de que custa caro e que desfoca os esforços mais importantes -, olham para o que está acontecendo lá fora e ‘baixam um pouco a bola’. Já as empresas que têm ESG por convicção já estão fazendo [essas políticas] há mais de 20 anos. O que está acontecendo agora, e não é necessariamente ruim, é uma reacomodação do tema, com uma tendência maior a colocar a gestão do ESG junto com a gestão de riscos”, aponta Ricardo Voltolini, e acrescenta: “Estamos vivendo uma inversão: em vez de fazer a lógica da sustentabilidade caber na lógica dos negócios, estamos vendo o negócio olhar para a sustentabilidade como um conjunto de indicadores. Esse é um ESG mais pragmático”.

O economista Ricardo Paixão concorda, mas pontua um efeito político-ideológico: “Setores empresariais no Brasil alinhados com pautas conservadoras já têm questionado iniciativas de inclusão racial e de gênero e também de sustentabilidade ambiental, o que cria um ambiente hostil à execução dessas políticas. E se uma multinacional que tem filiais no Brasil e controla outras empresas aqui começa a desmantelar essas políticas sociais lá fora, isso vai dar força a esses movimentos conservadores aqui”.

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Visão ideológica e visão técnica

Professor do Departamento de Educação, Política e Sociedade da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Douglas Ferrari chama a atenção para o que ele considera um risco: o movimento anti-ESG chegar ao setor público. “O Brasil tem uma boa legislação para reserva de vagas, tanto no mercado de trabalho, quanto no acesso às universidades. O desestímulo pode fazer com que essas políticas sejam diminuídas”, ele avalia.

Por outro lado, o vice-presidente da seccional capixaba da ABRH-ES, Cosme Peres, pondera que cabe ao poder público e também ao sistema de justiça, não só ao setor privado, garantir que princípios constitucionais como a dignidade humana, a igualdade de oportunidades e o combate à discriminação sejam respeitados. “Acreditamos que o caminho mais eficaz está na valorização e no fortalecimento das boas práticas de gestão que geram resultados positivos para as pessoas e para os negócios. As políticas de diversidade e inclusão, por vezes rotuladas de forma pejorativa como ‘woke’, têm demonstrado impactos concretos na produtividade, no engajamento e na inovação dentro das empresas.”

Diante desse cenário, na avaliação dos especialistas ainda é preciso desmistificar o que é ESG. “ESG é, antes de tudo, gestão de risco e visão estratégica para aumento de lucratividade. O dono do dinheiro (o investidor, o acionista, o fundo) quer previsibilidade.

Vale reforçar que quem está puxando a régua do ESG são os investidores globais, as agências de rating, os organismos multilaterais e o sistema financeiro. O próprio Banco Central brasileiro já exige avaliação de risco climático. Ou seja, não é questão ideológica, é técnica e econômica”, finaliza Dani Klein, diretora técnica do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB) e líder de curadoria da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil.

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