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Saúde mental no trabalho: realidade é pior do que mostram as estatísticas

Descubra como empresas brasileiras estão lidando com a saúde mental no local de trabalho

Por Michelli de Souza

O aumento expressivo de afastamentos por questões de saúde mental no Brasil — mais de 440 mil só em 2024 — acendeu um alerta sobre a necessidade de ações preventivas dentro das empresas. Atento a esse cenário, o Ministério do Trabalho atualizou a Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que exigirá a partir de 2026 que as organizações adotem medidas formais para mapear, prevenir e tratar riscos psicossociais no ambiente corporativo. A mudança também responde ao crescente número de decisões judiciais envolvendo negligência com a saúde mental dos trabalhadores.

Os quase meio milhão de trabalhadores afastados por transtornos mentais no Brasil representam apenas a ponta do iceberg. Isso porque, segundo alerta o professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Thiago Drumond, o quadro é muito mais complexo, tendo em vista que os números refletem apenas o universo de colaboradores vinculados ao INSS, ou seja, cerca de metade da população.

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“Existe uma subnotificação gigantesca. O grande desafio contemporâneo é estabelecer o que chamamos de nexo causal, que é relacionar o sofrimento mental ao sofrimento no trabalho. Até porque a saúde mental é sempre um fator multifacetado e o trabalho não necessariamente é uma causa imediata. Outro ponto é que, às vezes, as pessoas estão em sofrimento e não pedem afastamento”, salienta Drumond.

O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Thiago Drumond. Foto: TJES
O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Thiago Drumond. Foto: TJES

Segundo o professor, muitos afastamentos não têm como causa formal a atividade laboral, o que não significa que o trabalho não seja uma das razões na base desses afastamentos.

Além disso, há os casos de presenteísmo, que é quando o colaborador permanece trabalhando apesar do sofrimento causado pelo transtorno mental. “O sofrimento mental não necessariamente leva ao afastamento pois, às vezes, as pessoas estão em sofrimento e não comunicam por receio de julgamentos. Mas nem por isso essa situação deixa de prejudicar o trabalho, a qualidade de vida ou a produtividade”.

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Suzano e os bons resultados do cuidado com o bem-estar

Diminuição sensível da taxa de rotatividade dos colaboradores e da quantidade de afastamentos por motivos de saúde são os primeiros aspectos positivos destacados pelo gerente de Saúde Ocupacional da Suzano, Danilo Garcia, quando o assunto é o cuidado com a saúde mental no âmbito das políticas de saúde ocupacional.

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A companhia, maior fabricante de celulose do mundo, acredita que a promoção da saúde mental precisa estar integrada aos outros aspectos que envolvem o bem-estar geral e apoiada solidamente pela administração. “O tema saúde mental vem ganhando leveza e notoriedade verticalmente, em toda a organização. Já observamos melhorias em turnover e absenteísmo por saúde, em comparação com o mercado”, afirma o gerente.

Garcia conta que a empresa desenvolveu a iniciativa “Faz Bem”, baseada em cinco pilares: saúde física, mental, preventiva, social e ergonomia. O programa é mantido por uma equipe multiprofissional e contempla ações diversificadas: apoio psicológico 24 h via 0800; plataformas de terapia online; meditação e mindfulness; atividades físicas presenciais e online; campanhas e eventos de conscientização.

Ele destaca, ainda, que a pandemia reforçou a relevância do tema e impulsionou a estruturação do programa. “Nosso desafio é garantir que ele alcance toda a diversidade da empresa, com abrangência nacional e internacional, o que demanda comunicação, liderança engajada e escuta ativa”, pontua Garcia.

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Lei cria certificado para empresa que promover saúde mental

Com o objetivo de incentivar boas práticas empresariais e como forma de reconhecimento por boas iniciativas que promovam o bem-estar no ambiente corporativo, foi sancionada em março deste ano a Lei nº 14.831/2024, que institui o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental.

O selo é concedido pelo Governo Federal e a certificação é válida por dois anos, podendo ser renovada mediante nova avaliação.

Para obter essa certificação, as empresas devem implementar políticas que promovam a saúde mental, como programas de apoio psicológico, treinamentos sobre saúde emocional e combate ao assédio. Além disso, precisam garantir um ambiente de trabalho saudável, incentivar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e manter canais de comunicação para sugestões e denúncias1.

Na análise do diretor do Anuário de Saúde Mental nas Empresas, Carlos Assis, a nova legislação é positiva, mas ele alerta para o fato de que ainda falta uma regulamentação que detalhe os critérios de medição para que as organizações sejam certificadas. “É importante que a lei seja considerada uma oportunidade para que as empresas implementem as ações de maneira efetiva e não apenas de forma aparente”, conclui o psicólogo.

*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

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