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domingo, 24 outubro, 2021

Que tal virar um empresário?

Ondas de demissões no país chamam a atenção dos brasileiros, que para não ficarem desempregados estão montando o seu próprio negócio

Por Yasmin Vilhena

O sonho de abrir uma empresa faz parte do dia a dia de muitos brasileiros, principalmente daqueles que buscam ser o seu próprio chefe e estar sob o comando de seu negócio. Um objetivo bastante tentador, ainda mais quando as ondas de demissões no país parecem aumentar, seja em pequenos, médios ou grandes empreendimentos.

Ficar na corda bamba com medo de ser mandado embora não parece ser lá uma situação tão confortável, tanto para os jovens profissionais que buscam uma inserção no mercado de trabalho, quanto para os trabalhadores mais experientes, que já estão há algum tempo em uma organização e que por conta da idade ficam com receio de serem considerados “ultrapassados”.

Quinze anos depois da criação da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, o Brasil colhe os frutos das mudanças nas regras. De acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), o país segue, hoje, isolado na liderança em empreendedorismo, com um crescimento de 23,4% (2006) para 34,5% (2014) no total de pessoas que abraçam essa iniciativa.

Os números impactam diretamente na economia brasileira, até porque os negócios de médio porte são responsáveis por mais de 52% da geração de empregos formais, por 40% da massa salarial nacional e por 27% do Produto Interno Bruto (PIB). Dados do Sebrae, referentes ao ano de 2014, apontam ainda que o Brasil conta com 4.160.417 microempreendedores individuais (MEIs).

Para se ter ideia, a quantidade de brasileiros entre 18 e 64 anos que possuem empresa ou que estão abrindo uma é bastante superior à dos Estados Unidos, que registram 20% de empreendedores. Outras nações apresentam índices ainda mais baixos, como Reino Unido (17%), Japão (10,5%), Itália (8,6%) e França (8,1%).

O Espírito Santo também conta com um número considerável de pequenos negócios – que compreendem os MEIs, as microempresas (MEs) e as empresas de pequeno porte (EPPs) – tidos como importantes agentes para a economia capixaba, que possui atualmente mais de 125 mil microempreendedores individuais.

Uma realidade que vem crescendo e muito segundo indicadores da Estatística Simples Nacional, da Receita Federal, que podem ser observados ao longo dos anos: 2009 (2.453), 2010 (20.244), 2011 (42.656), 2012 (68.806), 2013 (95.023) e 2014 (121.839). Os municípios de Serra e Vila Velha foram os que mais se destacaram em relação a esses totais, com o aumento de 271 para 20.018 e de 285 para 19.432 (MEIs), respectivamente. Mas será que, mesmo com todo esse terreno propício para a criação de um negócio, o capixaba está preparado para encarar as adversidades da vida empresarial? Que o brasileiro é criativo, todo mundo sabe, mas nem só de boas ideias é feita uma empresa.

Para começar, é só pesquisar

O primeiro passo para conquistar a tão sonhada “liberdade” deve ser o planejamento estratégico, fator extremamente decisivo para aqueles que desejam prosperar. De acordo com o professor da Fucape Business School, Emerson Mainardes, que também é doutor em Administração com especialidade em Marketing e Vendas, diversos pontos precisam ser levados em consideração na hora de se abrir um negócio. “Antes de qualquer coisa, o empreendedor deve ter uma ideia clara do que deseja fazer, procurando investir em algo que ele já conheça, não como consumidor, mas como profissional.

“Antes de qualquer coisa, o empreendedor deve ter uma ideia clara do que deseja fazer, procurando investir em algo que ele já conheça” Emerson Mainardes, doutor em Administração com especialidade em Marketing e Vendas e professor da Fucape Business School

Outro passo muito importante é observar as oportunidades existentes no mercado para encontrar possíveis clientes. A partir do momento que ele encontrar os seus consumidores-alvo, deve analisar a viabilidade desse negócio para definir uma estratégia, ver os recursos humanos necessários para que isso aconteça, bem como as questões específicas legais e tributárias.

A abertura de uma empresa pode até ser uma boa saída atualmente por conta da onda de demissões que afeta o nosso país, mas isso só será positivo desde que a pessoa esteja preparada para encarar os riscos”, afirma. Além de contabilizar o investimento e a necessidade de capital de giro, é necessário ficar atento ao retorno financeiro, que irá demorar pelo menos dois anos para acontecer. A falta de preparo e o desconhecimento acerca desse assunto, por muitas vezes, colocam o negócio em risco, podendo,
inclusive, levá-lo à falência.

“A prosperidade de uma empresa depende muito dessa visão. No Estado, 77% das novas firmas conseguem sobreviver nos dois primeiros anos, um número que é bastante próximo da média nacional. O primeiro ano é considerado como o mais crítico, pois é o começo de tudo”, complementa o superintendente do Sebrae-ES, José Eugênio Vieira.

E para superar todos os obstáculos iniciais, deve-se observar a certos aspectos do dia a dia, como o acompanhamento do negócio. Deixar a empresa na mão de terceiros pode ser considerado um grande erro. “O empresário precisa estudar a situação de seus fornecedores, os custos fixos e variáveis, além da concorrência e da localização do empreendimento, que necessita ficar em um lugar adequado. A questão do aluguel pesa muito também, principalmente na Grande Vitória, onde os custos são bastante altos. Outro ponto decisivo é o acompanhamento constante por parte dos donos. Não adianta deixar as responsabilidades com terceiros”, acrescenta o dirigente.

O acompanhamento deve ser redobrado caso o empresário possua outro emprego. Mesmo que não seja lá uma tarefa muito fácil, o especialista em Gestão do Tempo e Produtividade Christian Barbosa afirma que é possível conciliar todas as demandas.

“Para que as coisas deem certo, o profissional tem de se empenhar ao máximo, pois as exigências serão duplicadas durante um tempo. Também é extremamente importante ter um sócio para dividir as atribuições, não adianta ficar sobrecarregado, pois isso fará com que a empresa demore para decolar”, relata.

Oportunidade x necessidade

Apesar de terem objetivos parecidos, os empreendedores brasileiros se distinguem de acordo com as oportunidades e com as necessidades do mercado. Aqueles que acabam indo pela primeira opção tendem a obter sucesso em suas iniciativas próprias, pois mesmo quando possuem outras chances de emprego optam por iniciar um novo negócio: eles sabem onde querem chegar, têm em mente o que querem buscar para a empresa e visam à geração de lucros, empregos e riquezas.

Em 2014, a Região Sudeste alcançou uma proporção de empreendedores iniciais por oportunidade maior que a observada no Brasil (71,7% contra 70,6%, respectivamente). Mesmo que tenha o menor nível registrado desde 2012, o resultado foi o segundo maior entre as regiões brasileiras, ficando atrás somente do Sul (82,2%).

Um bom exemplo que se enquadra nesse caso é o da Apex Partners, fundada por ex-alunos da Fucape. A empresa, que presta serviços financeiros, sempre buscou agregar pessoas que pudessem se complementar em todas as habilidades.

“Todos os sócios são formados em áreas que se complementam bastante, e isso ajudou muito na hora de abrir a empresa. Sempre tivemos um foco mais a longo prazo, até porque o começo é sempre duro e trabalhoso. Como já estávamos preparados para esses apertos comuns do início, nós nos programamos para não passar sufoco.

“O empresário precisa estudar a situação de seus fornecedores, os custos fixos e variáveis, além da concorrência e da localização do empreendimento, que necessita ficar em um lugar adequado” José Eugênio Vieira, superintendente do Sebrae-ES

É claro que algumas dificuldades podem aparecer, mas felizmente nenhuma delas atrapalhou o andamento dos negócios, estamos conseguindo atingir todas as metas estabelecidas anteriormente”, revela um dos sócios, Pedro Chieppe.

A diferença entre uma motivação e outra não é apenas teórica: ela pode determinar o sucesso ou o insucesso da atividade.

Aqueles que empreendem por oportunidade conseguem enxergar potencial em um nicho de mercado para que seja executado um investimento seguro. Normalmente, a aposta está associada a algum tipo de vocação, podendo ser feita enquanto a pessoa ainda está empregada em algum lugar.

Diferentemente dos que buscam o empreendedorismo de oportunidade, os empresários por necessidade são aqueles que, na sua visão, não possuem opções de trabalho ou estão
desempregados, e para continuarem com o seu sustento se aventuram em abrir uma firma sem o mínimo de planejamento.

Algo que se somado com a quantidade de concorrentes e com a falta de inovações pode acarretar no fechamento do negócio. “O empreendedorismo por necessidade gera empresas tradicionais, que não apresentam diferença nenhuma em relação às outras que já se encontram presentes no mercado, como padarias, restaurantes e lojas de roupa. Na oportunidade, o empreendedor é mais preparado e possui uma visão de longo alcance, aumentando as possibilidades de sucesso”, afirma Emerson Mainardes.

E por estarmos em um ano cuja economia anda abalada, a expectativa é que haja inclinação maior para as necessidades. Por isso, é extremamente importante que o empresário se prepare para não fazer investimentos sem retorno.

“Pelo que estamos acompanhando diariamente, vejo que o empreendedorismo no Brasil será mais do que necessário, pois a geração de empregos vinha crescendo ao longo dos anos, o que mudou bastante nos últimos meses. Com o aumento do desemprego, as chances para que isso ocorra são ainda maiores. A oportunidade só aparece quando o crescimento tecnológico está em alta”, complementa o professor da Fucape.

Orientação para o sucesso

Pronto. Agora que você já tem todas as dicas para abrir o seu negócio, que tal começar a buscar algumas consultorias para começar com o pé direito? No Estado, pode-se encontrar
auxílio no Sebrae, que oferece capacitações para quem deseja aperfeiçoar ainda mais os seus conhecimentos.

“Aqueles que estão montando uma empresa ou que já possuem algum tipo de negócio podem contar com cursos, palestras e consultorias voltadas para as áreas de gestão, tecnologia, crédito, políticas públicas e mercado. Durante o diagnóstico, os consultores avaliam diversos pontos da empresa, como setor de compras, armazenamento e controle de mercadoria”, explica José Eugênio.

Mesmo que não tenha condições de fazer grandes investimentos, o profissional pode se tornar um microempreendedor individual legalizado, o primeiro passo para uma longa caminhada. Uma vez regularizado, ele terá mais facilidade para abrir uma conta bancária, fazer pedidos de empréstimos e emitir notas fiscais. “O profissional passa a contar com benefícios importantes”, complementa o superintendente do Sebrae-ES.

Segundo Pedro Chieppe, o sonho de se tornar um empreendedor não é impossível, basta ter persistência para perseguir seus objetivos.

“Junte-se a pessoas boas que estejam alinhadas com o mesmo propósito que o seu. Busque se planejar com antecedência e verifique sempre se esse planejamento está dando resultados. Por último e não menos importante, seja persistente. A força de vontade é uma ótima aliada para ter uma vida
profissional bem-sucedida”, orienta.

Esta entrevista é uma republicação exibida na Revista ESBrasil – Agosto/2015, produzida pela jornalista Yasmin Vilhena e atualizada em 2021 (Priscilla Cerqueira). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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