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Profissões verdes: o futuro de uma economia em sintonia com o planeta

Especialistas destacam o crescimento de profissões verdes, mas reivindicam maiores investimentos em educação e qualificação

Por Michelli de Souza

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente seis milhões de empregos chamados “verdes” serão criados no mundo até 2030. O Brasil já registra cerca de 10% dos postos de trabalho ligados à sustentabilidade, tornando-se o segundo colocado no ranking entre os países que mais empregam na indústria de biocombustíveis, solar, hidrelétrica e eólica.

No país, a Região Sudeste se destaca como líder na geração de empregos verdes. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apontam que, apenas em 2020, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo concentravam cerca de 55% dos trabalhos nos setores de energia renovável, reciclagem, agricultura sustentável e construção civil.

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Profissões verdes: o futuro de uma economia em sintonia com o planeta
“Precisamos preparar a força de trabalho para uma nova fase da produção industrial, mais limpa, eficiente e alinhada aos princípios da sustentabilidade”, defende Geferson Santos – Foto: Renan Donato / Findes

Todavia, a par dos benefícios, a transição para uma economia verde também apresenta desafios. Segundo o superintendente do Sesi ES e diretor regional do Senai ES, Geferson Santos, um dos principais entraves para ampliar a formação técnica voltada à transição ecológica é atrair as pessoas para a qualificação contínua. “É fundamental que todos compreendam a importância de uma formação intensa e de uma requalificação constante.

Precisamos preparar a força de trabalho para uma nova fase da produção industrial, mais limpa, eficiente e alinhada aos princípios da sustentabilidade”, afirmou. Ele destaca que, do lado da indústria, já há um forte engajamento com a pauta da descarbonização, e que é essencial manter esse compromisso, investindo na capacitação dos colaboradores e no desenvolvimento de seu capital humano.

No campo da educação profissional, ele menciona cursos focados em energia limpa, veículos elétricos e produção sustentável, com destaque para o Centro de Excelência em Mobilidade, no Senai Vitória, e a nova área de energias renováveis no Senai Serra.

“Estamos, inclusive, buscando referências como a usina solar do Senai de Natal para implantar algo semelhante no Espírito Santo”, contou. Ele destacou ainda a atuação de empresas como Fortlev Solar, ArcelorMittal e Petrobras, que vêm desenvolvendo soluções e investindo em práticas alinhadas à economia verde.

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Profissões verdes: o futuro de uma economia em sintonia com o planeta
“A transição para uma economia sustentável requer uma reformulação profunda das matrizes curriculares e a criação de novos arranjos institucionais”, afirma Cristiano Nicola Ferreira – Foto: Divulgação

Para o vice-diretor executivo e pesquisador do Instituto Cíclica, Cristiano Nicola Ferreira, um dos principais obstáculos é o descompasso entre a velocidade das mudanças necessárias e a capacidade dos sistemas educativos e de qualificação profissional para se adaptarem a esse novo quadro.

“A transição para uma economia sustentável requer uma reformulação profunda das matrizes curriculares e a criação de novos arranjos institucionais, capazes de formar profissionais em áreas como energias renováveis, gestão de resíduos, agricultura de baixo carbono, tecnologias limpas e economia circular”, ele ressalta.

Nesse sentido, Ferreira analisa que governos, empresas e sociedade civil devem atuar de forma integrada, cabendo às instituições governamentais a criação de um sistema de capacitação que atenda às demandas regionais da transição para uma economia verde.

Já o setor empresarial deve identificar e desenvolver as habilidades necessárias para essa mudança de paradigma, incorporando tecnologias da indústria 4.0 e práticas mais sustentáveis, com atenção especial às populações historicamente excluídas.

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O que são empregos verdes?

Segundo a definição da OIT, são trabalhos que contribuem para preservar ou restaurar o meio ambiente, seja em setores tradicionais, seja em novas áreas sustentáveis. Entre esses empregos, estão aqueles ligados às energias renováveis, à reciclagem, à agroecologia, à construção sustentável e à economia circular.

Justiça social

Cristiano Nicola Ferreira defende que a sustentabilidade precisa ser compreendida também como uma exigência de justiça social, “o que implica tratar a distribuição equitativa de benefícios ao longo das cadeias produtivas como parte integrante desse processo.

Isso significa estabelecer relações de trabalho mais justas, dentro da empresa e entre os diferentes elos da cadeia, com especial atenção a populações historicamente excluídas”, ressalta o pesquisador.

Já o diretor administrativo-financeiro do Instituto Cíclica, Eduardo Georjão Fernandes, pontua que formar profissionais para uma economia verde não requer apenas investimento técnico. Tal formação requer o que ele chama de uma “educação ambiental crítica”, na qual os problemas ecológicos não estão dissociados das estruturas que produzem desigualdade.

“Ao inserir temas como sustentabilidade, justiça social, diversidade e responsabilidade socioambiental nos currículos e nas práticas pedagógicas, a educação contribui para formar indivíduos com maior sensibilidade ao bem comum e ao impacto de suas decisões”, destaca Fernandes.

 Economia circular: desafio, mas também oportunidade

A economia circular é uma das frentes mais promissoras de inovação e geração de valor sustentável. Entretanto, segundo Cristiano Nicola Ferreira, ela só será propulsora de um contexto social inclusivo se os empregos criados forem de qualidade.

O estudo “Inclusão Produtiva e Transição para a Sustentabilidade: Oportunidades para o Brasil”, realizado pelo Instituto Cíclica em parceria com o Instituto Veredas, mostra que muitas oportunidades de trabalho nos setores de serviço, manutenção, reciclagem e logística reversa são marcadas pela informalidade, baixa remuneração e ausência de proteção social.

Os dois executivos do Instituto Cíclica observam que embora muitas das grandes empresas já identifiquem a economia circular como promissora de inovação e geração de valor, tal interesse ainda precisa se traduzir em empregos de qualidade.

“Em resumo, a economia circular pode e deve ser parte de uma transição justa, desde que associada a políticas públicas, à inovação empresarial responsável e a mecanismos de proteção social que assegurem que a sustentabilidade ambiental venha acompanhada de inclusão e trabalho digno”, conclui Ferreira.

*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

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