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O ano que só começa depois

O ano que só começa depois

Insistimos nessa ideia encantadora de que o ano só começa quando tudo estiver favorável, alinhado, animado e com trio elétrico

Por André Gomyde

Vai chegando o Carnaval e, com ele, encerra-se oficialmente o ano passado. Um ano que, convenhamos, já vinha se despedindo desde o final de novembro, quando alguém decretou que não valia mais a pena começar nada sério. Dezembro é um grande ensaio geral para janeiro, que por sua vez é um aquecimento para fevereiro, que finalmente desemboca no carnaval, esse rito de passagem nacional. Só depois dele o ano começa. Ou deveria.

No Brasil, o calendário funciona assim: janeiro é uma terça-feira prolongada, fevereiro é um “já-já eu volto” e março é o verdadeiro réveillon, com atraso, mas com convicção. O problema é que, em 2026, março já chega cansado. Porque 2026 é aquele tipo de ano que olha para o trabalho e diz: “a gente se fala”.

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Tem Copa do Mundo. E Copa do Mundo é um feriado emocional contínuo. O país entra num estado de suspensão da realidade. Reuniões são marcadas para depois do jogo. Decisões estratégicas ficam para depois do próximo jogo. E, se o time perde, nada se decide porque o clima não está bom. Se ganha, também não, porque ninguém quer estragar a comemoração.

Como se não bastasse, tem eleição. Ano eleitoral é aquele em que tudo pode, mas nada acontece. Promessas brotam como confete, discursos caem do céu, e o planejamento some feito serpentina molhada. Ninguém assina nada importante, ninguém assume risco, ninguém se compromete. Todo mundo espera. Espera o resultado, espera o cenário, espera o humor do eleitor, espera o vento soprar.

É curioso como agimos como se não precisássemos avançar. Como se o país pudesse entrar em modo avião por doze meses sem perder altitude. Trabalhar vira quase um ato de resistência. Produzir parece falta de educação com o calendário festivo e democrático.

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Enquanto isso, o relógio não entra na folia. A economia não samba. Os problemas não tiram férias. A conta chega pontualmente, mesmo em dia de jogo ou comício. Mas insistimos nessa ideia encantadora de que o ano só começa quando tudo estiver favorável, alinhado, animado e com trio elétrico.

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Talvez o verdadeiro bloco que precisamos criar seja o da responsabilidade permanente. Um bloco discreto, sem abadá, mas com compromisso. Porque país que só funciona depois do carnaval, da Copa e da eleição acaba vivendo eternamente em pré-temporada.

E o futuro, esse chato pontual, não espera o apito final nem a apuração das urnas.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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