Por Thamiris Guidoni
O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) aprovou por unanimidade, nesta segunda-feira (1º), uma resolução que reformula o processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A medida simplifica etapas, amplia as possibilidades de preparação dos candidatos e elimina a obrigatoriedade de frequentar uma autoescola para realizar o exame prático. Com isso, o custo total para conquistar o documento poderá cair em até 80%, abrindo portas para milhões de brasileiros hoje excluídos pelo alto preço e pela burocracia.
Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) indicam que 20 milhões de pessoas já dirigem sem habilitação no país, enquanto outras 30 milhões têm idade para obter a CNH, mas não conseguem arcar com custos que chegam a até R$ 5 mil.
A nova resolução prevê curso teórico gratuito e totalmente digital, flexibilização da carga horária prática e a possibilidade de aprendizado com instrutores autônomos credenciados pelos Detrans. A abertura do processo de habilitação também será modernizada e poderá ser feita pelo site do Ministério dos Transportes ou pela Carteira Digital de Trânsito (CDT).
Para o ministro dos Transportes, Renan Filho, a proposta busca corrigir desigualdades históricas e ampliar o acesso ao documento.
“O Brasil tem milhões de pessoas que querem dirigir, mas não conseguem pagar. Baratear e desburocratizar a obtenção da CNH é uma política pública de inclusão produtiva, porque habilitação significa trabalho, renda e autonomia. Estamos modernizando o sistema, ampliando o acesso e mantendo toda a segurança necessária”, afirma.
O ministro reforça que a segurança permanece garantida, já que a aprovação nas provas teórica e prática continuará sendo obrigatória.
“As aulas, por si só, não garantem que alguém esteja apto a dirigir. O que garante é a prova. O novo modelo segue padrões internacionais adotados por países como Estados Unidos, Reino Unido e Canadá, onde o foco é a avaliação, não a quantidade de aulas”, diz.
A resolução entrará em vigor após publicação no Diário Oficial da União (DOU).
O Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do Espírito Santo (Sindauto-ES) se posicionou sobre a minuta apresentada pelo Ministério dos Transportes.
“O Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do Estado do Espírito Santo (Sindauto-ES) manifesta extrema preocupação com a Minuta de Resolução apresentada pelo Ministério dos Transportes e incluída no sistema do CONTRAN na data de hoje, sem diálogo prévio, sem transparência e sem o devido respeito ao setor que há décadas cumpre função delegada pelo próprio Estado. A construção de um novo modelo de formação de condutores é pauta legítima e necessária.”, disse Gabriel Couzi, presidente do Sindauto-ES.
A entidade afirma que concorda com a necessidade de modernizar a habilitação, mas avalia que o texto apresentado segue em direção oposta ao que seria um avanço.
“Todos concordamos que o Brasil precisa avançar na atualização do processo de habilitação, modernizando métodos, ampliando acessibilidade e fortalecendo a segurança no trânsito. Contudo, o texto apresentado caminha na contramão desses avanços, impondo medidas que comprometem a qualidade da formação, a segurança viária e a própria sobrevivência de um setor produtivo essencial para o país. .”
Couzi ressaltou também que a formação de condutores exige rigor e estrutura técnica, e critica o impacto das mudanças propostas.
“A formação responsável exige profissionalização, técnica, estrutura adequada, fiscalização e rigor pedagógico, e não improviso. As mudanças propostas, se implementadas desta forma, não modernizam: desestruturam. Não ampliam acesso: criam riscos. Não fortalecem o trânsito: fragilizam a segurança viária. Além disso, colocam em risco milhares de empregos e toda a cadeia econômica do setor, responsável por qualificar condutores em todos o Espírito Santo e do Brasil.”
Além disso, o Sindauto-ES informou que pretende atuar em conjunto com entidades estaduais e nacionais para contestar a proposta.
“Diante desse cenário, o Sindauto-ES atuará em conjunto com as entidades estaduais e nacionais, para defender juridicamente o setor”, finalizou.
Confira as principais mudanças
Curso teórico gratuito e digital
O Ministério dos Transportes disponibilizará todo o conteúdo teórico de forma online e sem custo. Quem desejar poderá estudar presencialmente em autoescolas ou instituições credenciadas.
Aulas práticas com carga horária mínima de apenas 2 horas
A atual exigência de 20 horas será reduzida para 2 horas mínimas. O candidato poderá optar por:
- Autoescolas;
- Instrutores autônomos credenciados pelos Detrans;
- Preparações personalizadas conforme sua necessidade.
Instrutores autônomos fiscalizados pelos Detrans
Os profissionais serão credenciados com critérios padronizados nacionalmente e integrados à Carteira Digital de Trânsito, garantindo rastreabilidade e controle.
Menos burocracia e mais simplicidade
A presença física será exigida apenas nas etapas obrigatórias, como exame médico e coleta biométrica. Todo o restante poderá ser realizado de forma digital.
Categorias C, D e E também serão modernizadas
Motoristas profissionais terão mais opções de formação e processos menos burocráticos para migrar para categorias superiores.
Quem será beneficiado
- Jovens que não iniciam o processo por falta de recursos;
- Trabalhadores informais ou desempregados que precisam de habilitação para trabalhar;
- Moradores de áreas afastadas, com poucas autoescolas disponíveis;
- Motoristas que desejam migrar para categorias C, D e E;
- A sociedade como um todo, com redução de motoristas sem habilitação e mais segurança viária.
Alinhamento internacional
A proposta aproxima o Brasil de modelos adotados em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália e Reino Unido, que priorizam autonomia do candidato e avaliação por competência em vez de cargas horárias rígidas.

