A operação portuária é uma orquestra em que a falha de um instrumento ou integrante compromete toda a sinfonia
Em meio a tanta tecnologia nos portos, um elemento atravessa gerações e se qualifica para seguir inabalável: o trabalhador portuário. No Espírito Santo, essa mão de obra não apenas acompanhou a modernização, mas tornou-se o pilar que sustenta a competitividade dos terminais capixabas.
A história do trabalho portuário brasileiro é profunda e resiliente. Suas raízes remontam ao período escravocrata, quando o trabalho braçal era a única força motriz no cais. Com o passar das décadas, essa categoria evoluiu, organizou-se em sindicatos fortes e transformou o “saber fazer” em uma especialização técnica de alto valor agregado.
No Espírito Santo, a representação dessa mão de obra é coordenada pela Intersindical da Orla Portuária, que congrega as categorias necessárias para mover as diversas faces da operação. Para José Adilson Pereira, presidente da Intersindical, o estado ocupa uma posição de vanguarda no cenário nacional.
“O Espírito Santo é, hoje, uma referência em gestão e organização da mão de obra no Brasil. Nossa força de trabalho entendeu que a modernização não é uma inimiga, mas um desafio que exige preparo. O diálogo entre as categorias e o foco em resultados colocam o trabalhador capixaba em um patamar de excelência que atrai investimentos e garante a eficiência dos nossos portos”, afirma José Adilson.

A operação portuária é uma orquestra em que a falha de um instrumento ou integrante compromete toda a sinfonia. A Intersindical representa essa unidade através de sindicatos fundamentais.
Treinamentos com simuladores de realidade virtual são referência
No Espírito Santo, cerca de 2 mil trabalhadores avulsos — portuários escalados para carregar e descarregar navios e cargas conforme o tipo e quantidade de mercadorias —, são geridos pelo Órgão Gestor de Mão de Obra Avulsa (Ogmo) para atender às requisições de operadores portuários, além daqueles que são vinculados a terminais e empresas portuárias no estado (integrantes de um universo de 90 mil portuários no Brasil).
A própria seleção pública para os trabalhadores entrarem no sistema Ogmo é pensada para atender às maiores exigências das empresas e das novas tecnologias. Depois de aprovados em uma seleção concorrida, passam por constantes treinamentos nos portos, no órgão gestor e nos sindicatos.
O Sindicato dos Estivadores, por exemplo, mantém um centro de formação de ponta. A entidade disponibiliza três simuladores de realidade virtual imersiva de guindaste de última geração para aulas práticas. Esse investimento permite que o trabalhador treine manobras complexas em ambiente virtual antes de assumir o comando de máquinas reais, aumentando a segurança e a produtividade.
Também realiza cursos com profissionais experientes, responsáveis por transmitir o conhecimento teórico e prático aos mais jovens. Nos últimos dois anos, cerca de 380 estivadores foram capacitados em cursos como operador de guindastes de bordo, operador de pá mecânica, escavadeira e empilhadeira, aperfeiçoamento de contramestre de porão, guincheiros e portaló; uma parceria entre sindicato, Ogmo e operadores portuários.
“A automação é uma realidade irreversível. Contudo, os recordes de movimentação batidos pelos grandes terminais capixabas não são fruto apenas de máquinas, mas da capacidade técnica de quem as opera”, destacou José Adilson.
As empresas portuárias e o Ogmo também desempenham papel crucial nesse ecossistema, sendo instadas a investir no remanejamento e na requalificação de seus quadros para que a transição tecnológica não resulte em exclusão social, mas em evolução profissional.
PL 733/2025: a luta pela manutenção do trabalhador
Apesar do cenário de crescimento, o horizonte apresenta nuvens de incerteza com o Projeto de Lei (PL) 733/2025, que visa alterar a legislação portuária. O PL, que tramita na Comissão Especial sobre o Sistema Portuário Brasileiro na Câmara dos Deputados, tem o intuito de substituir a Lei nº 12.815/2013, conhecida como Lei dos Portos, que atualmente rege a exploração direta e indireta de portos e instalações portuárias pela União, além de regular as atividades dos operadores portuários e a mão de obra portuária.
A proposta é vista pelas categorias como uma ameaça à estabilidade e aos direitos conquistados pela mão de obra.
Isso porque o texto do projeto prevê a extinção de categorias portuárias ao limitar o conceito de portuário somente àqueles que trabalham na faixa do cais, acaba com o Ogmo, cria uma empresa terceirizada para contratar trabalhadores, põe fim aos acordos coletivos de trabalho, enfraquece a atuação dos sindicatos, entre outras mazelas.
Entretanto, o movimento sindical demonstra maturidade política. As federações nacionais que representam os trabalhadores estão em constante mesa de negociação com o setor patronal. Recentemente, foi construído um acordo, com o apoio do Ministério de Portos e Aeroportos, que busca garantir a modernização dos processos, mas também preserva o respeito às categorias e a exclusividade da mão de obra qualificada, assegurando que o porto continue sendo um motor de desenvolvimento social para o Espírito Santo.

