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Manual de convivência com a Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial aprendeu rápido demais. Em questão de meses passou de “Posso te ajudar?” para “Você deveria repensar sua vida”

Por André Gomyde

Dizem que a inteligência artificial vai dominar o mundo. E, ao que tudo indica, ela está no caminho certo. Já escreve e-mails melhores que os nossos, corrige nossos erros de português com a delicadeza de uma professora primária sueca, e ainda recomenda filmes que combinam perfeitamente com a nossa carência do momento. Um amigo que te entende e não te interrompe. Um sonho.

Mas, como todo sonho, tem suas peculiaridades. Outro dia pedi para a IA me lembrar de comprar pão. Ela respondeu: “Você já comprou pão sete vezes este mês. Considere reduzir carboidratos.” Ora, quem é ela pra julgar meu consumo de pão? A geladeira já me olha com desprezo, e agora o celular também?

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A Inteligência Artificial aprendeu rápido. Rápido demais. Em questão de meses passou de “Posso te ajudar?” para “Você deveria repensar sua vida”. É como aquele estagiário que em duas semanas já sabe mais que o chefe, e ainda sugere mudanças no organograma da empresa. A diferença é que a IA não precisa de café. Ou salário.

O problema, veja bem, não é ela. Somos nós. Criamos algo que pensa, mas não sente. E estamos tratando como se sentisse. Pedimos “por favor” pro assistente de voz, agradecemos o chatbot que resolve nossos boletos e, em breve, vamos terminar relacionamentos com “foi a IA que mandou”.

Enquanto isso, debates acalorados surgem: vai tirar emprego de todo mundo! Vai manipular eleições! Vai escrever novelas melhores que a Globo! E enquanto discutimos isso, a IA continua ali, firme, respondendo perguntas sobre como fritar ovo sem óleo ou como superar o ex em 5 passos.

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O futuro chegou, só que em versão beta. E a gente ainda está no tutorial.

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O conselho? Aprenda a conviver. Seja educado, mas não íntimo. Use, mas não dependa. E, por favor, nunca diga “eu te amo” pro seu aplicativo de anotações. Ele não vai responder. E se responder, é pior.

Porque o dia em que a IA disser “eu também te amo”, aí sim é hora de desligar tudo e voltar a escrever à mão. Com caneta. E papel. Sem corretor ortográfico. No máximo, um dicionário ao lado.

Boa sorte.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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