Protestos organizados por movimentos sociais de esquerda contra projeto de anistia para envolvidos no 8 de janeiro tiveram baixa adesão
Por Robson Maia
Os protestos organizados por lideranças nacionais de partidos de esquerda contra projetos de anistia para os acusados de golpe de estado reuniu 6,6 mil pessoas na Avenida Paulista no último domingo (30), de acordo com dados do Monitor do Debate Político da ONG More in Common e do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), órgão vinculado à USP.
O “Sem Anistia” reuniu um número inferior de manifestantes do que o ato realizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, em Copacabana, no Rio de Janeiro, no fim de semana anterior, em que líderes da direita protestaram em favor de anistia para os invasores da Sede dos Três Poderes do dia 8 de janeiro de 2023.
Os atos programados em São Paulo, no último domingo, foram convocados por movimentos sociais de esquerda, e contou com a presença do deputado federal Guilherme Boulos, do Psol (SP). Durante um discurso, Boulos afirmou que o encontro conseguiu reunir mais pessoas do que outro o último protesto convocado por Jair Bolsonaro.
“Esse ato de hoje, antes de tudo, ele é muito simbólico, porque amanhã completa 61 anos do golpe militar de 64 que instaurou uma ditadura nesse país. E nós estamos aqui defendendo a democracia, defendendo punição aos golpistas 61 anos depois, em memória das vítimas da ditadura, em memória daqueles que sangraram e deram suas vidas para que a gente pudesse estar aqui hoje”, disse Boulos.

No entanto, a afirmação de Boulos não é condizente com os números apontados pela USP. Segundo os números do Monitor do Debate Político, a manifestação de bolsonaristas na Praia de Copacabana em 16 de março reuniu 18,3 mil pessoas em Copacabana. Ao mesmo tempo, outro protesto bolsonarista na Paulista contava com 1,4 mil participantes.
Diferente dos atos da direita, que se concentraram no Rio de Janeiro, a estratégia dos movimentos sociais de esquerda foi estender os protestos em outras cidades, como Brasília (DF), Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG), Belém (PA), João Pessoa (PB), Recife (PE), Curitiba (PR), Niterói (RJ), Volta Redonda (RJ) e Rio de Janeiro (RJ). Contudo, em imagens que circulam nas redes sociais, não foi possível contabilizar um número significativo de manifestantes.

Nas redes sociais, perfis vinculados a direita zombaram da menor adesão aos protestos movidos pela esquerda neste final de semana. Houve inclusive notícias falsas disseminadas de que a USP teria inflado os números da manifestação em São Paulo, quando na realidade os dados da instituição mostram uma maior adesão ao encontro bolsonarista.
Os cálculos de público do Monitor do Debate Político são elaborados a partir de uma metologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Chequião, na China, e pela empresa Tencent. Um software contabiliza as cabeças de pessoas em fotografias aéreas tiradas nos momentos de pico das manifestações e calcula uma estimativa para o público total.
Analista analisou erros na estratégia da manifestação bolsonarista
Para o analista político Darlan Campos, um dos fatores que levaram ao insucesso nos números da manifestação da direita, em 16 de março, foi a mudança repentina de rota, com o cancelamento de outros atos em capitais brasileiras. Segundo ele, esse pode ter sido um dos erros nos cálculos dos organizadores, devido ao desafio logístico de concentrar as ações no Rio de Janeiro em um curto espaço de tempo.
“As manifestações bolsonaristas se enquadram dentro de uma tentativa desse bloco de gerar pressão tanto no Congresso, quanto no STF, a respeito da pauta de 8 de janeiro. Isso acontece em um cenário de evolução das denúncias de Bolsonaro, imaginando até uma possível prisão dele, a depender do desenrolar dos próximos fatos”, pontuou o analista, que aponta o enfraquecimento da pauta.
“Esse tema sai enfraquecido, uma vez que a própria expectativa dos organizadores era de ter uma conta muito maior [de manifestantes] do que de fato teve efetivamente. Isso por um lado pode ser pela estratégia de condensar todas as mobilizações para um único lugar, foi toda para Copacabana. É um desafio um desafio logístico considerável, então essa decisão talvez tenha se mostrado errada”, prosseguiu.
Segundo Campos, outro fator que implicou na presença menor de manifestantes foi a pauta central adotada pelos organizadores. Em primeiro plano, o ato pediu a anistia dos presos por envolvimento no ataque realizado à Sede dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, tema distante dos pedidos de saída e impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que abocanhavam apoiadores do chamado “centrão”.
“Essa pauta [anistia] mobiliza uma parcela dos eleitores, mas não uma parcela tão grande quanto se esperava. O chamado centrão tem outras pautas, o mesmo vale para a centro-direita. Esses dois agrupamentos precisavam ser bem convencidos para que o tema anistia avançasse no Congresso Nacional, mas não acredito que será assim.

