CEO da VLI destaca os desafios da integração multimodal e afirma que a tecnologia molda o futuro dos fluxos do comércio exterior do país
Por Amanda Amaral
Em um país onde o custo logístico ainda pesa sobre a competitividade das exportações, infraestrutura e eficiência continuam sendo variáveis decisivas para o desempenho econômico. O Brasil produz mais, exporta mais e amplia sua presença nos mercados internacionais, mas ainda convive com gargalos históricos que encarecem o transporte de cargas e reduzem sua margem de competitividade frente a outros grandes players globais.
No comando da VLI Logística, empresa que opera corredores estratégicos conectando o coração produtivo do país aos portos capixabas e a mercados internacionais, Fábio Marchiori acompanha diariamente esse desafio estrutural. Sob sua liderança, a companhia tem ampliado investimentos em ferrovias, tecnologia e integração multimodal, defendendo que o ganho de eficiência não depende apenas de expansão de capacidade, mas de sincronia entre modais, planejamento de longo prazo e inovação operacional.
A renovação da concessão da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), os aportes bilionários previstos para os próximos anos, a digitalização das operações portuárias e a agenda de descarbonização estão no centro dessa estratégia. Para Marchiori, reduzir custos logísticos, aumentar produtividade e avançar na transição energética são movimentos indissociáveis de um projeto mais amplo de desenvolvimento.
Nesta entrevista exclusiva à ES Brasil, o executivo analisa o estágio real de competitividade logística do país, aponta os principais gargalos estruturais, detalha os planos da VLI para o Espírito Santo e discute as decisões estratégicas que o Brasil precisa tomar agora para se consolidar como potência logística na próxima década.
Em que estágio real de competitividade logística o Brasil se encontra hoje em comparação com seus principais concorrentes globais?
A integração multimodal no Brasil – rodoviário, aquaviário, ferroviário e portuário – é algo fundamental para a competitividade logística do Brasil, garantindo uma posição de destaque no cenário do comércio global. Temos que ser mais eficientes do que as cadeias de exportação de outros países, que, em muitos casos, são incentivadas/subsidiadas.
Qual gargalo estrutural específico mais limita o desempenho do país nesse setor atualmente?
A sincronia entre a velocidade do campo e a capacidade da nossa infraestrutura, principalmente ferrovias e portos, é um importante gargalo. O agronegócio, motor do nosso PIB, cresce em um ritmo que a infraestrutura tem tentado acompanhar. Mas existe um hiato, particularmente porque infraestrutura requer investimentos com horizonte de longo prazo, e isso pressiona toda a cadeia de exportação.
A estratégia da VLI é atuar justamente nessa integração, para melhoria da sincronia. De um lado otimizamos o fluxo ferroviário, para garantir, por exemplo, o fluxo contínuo de grãos (exportação), a importação de carvão para a siderurgia e fertilizantes para o agronegócio, e tudo isso passa pelos portos do Espírito Santo. De outro, trabalhamos para ampliar a capacidade portuária, como demonstra nossa iniciativa com a VPorts para uma nova operação de ferro-gusa no estado.
Se o Brasil pudesse priorizar apenas um tipo de investimento logístico imediato, qual deveria ser e por quê?
Avalio que não exista uma solução única que possa resolver questões tão importantes. O fluxo da logística precisa passar por diversos modais de uma forma que flua bem e seja competitivo. A prioridade não deveria ser dada a um modal específico, mas sim aos pontos de conexão que os integram, pois é na eficiência dessas trocas que o sistema ganha competitividade e o custo logístico diminui.
A renovação da concessão da FCA é considerada estratégica para o sistema logístico nacional. Qual é hoje o principal ponto de atenção desse processo?
O processo segue seu fluxo normal nos órgãos técnicos responsáveis. Uma vez finalizada, a prorrogação da concessão da FCA gerará investimentos de cerca de R$ 30 bilhões, com incremento de mais de 40% nos volumes transportados, de acordo com o estudo de demanda, favorecendo setores essenciais da economia brasileira, como o agronegócio, a indústria, a siderurgia e a construção civil entre outros.
O projeto também prevê a realização de centenas de obras de melhoria na mobilidade urbana nas cidades que possuem interface com a FCA, gerando impacto positivo na vida de milhões de brasileiros. A estimativa é de que as obras relacionadas à prorrogação da concessão poderão gerar mais de 15 mil postos de trabalho ao longo do novo período de concessão.

Qual é hoje a principal prioridade estratégica da VLI?
A resolução sobre o futuro da concessão da FCA é uma grande prioridade.
Enquanto trabalhamos para a conclusão desse projeto, seguimos investindo na malha para manter a FCA em padrões elevados de produtividade e segurança. Para 2026 a previsão de investimento é de R$ 1,2 bilhão. É o quarto ano seguido em que a VLI investe mais de R$ 1 bilhão na FCA, somando R$ 4,8 bilhões no intervalo 2023/2026.
Além da concessão, onde estão concentrados os investimentos atuais?
Desde 2024, a VLI investiu mais de R$ 600 milhões na aquisição de locomotivas, para aumento da capacidade de transporte de carga nas ferrovias sob nossa concessão
Também no Corredor Leste, que liga o Triângulo Mineiro ao sistema portuário do Espírito Santo, a VLI investe na operação como Agente Transportador Ferroviário de Cargas, um novo modelo regulatório com potencial de aumento de eficiência para os clientes que utilizam esse fluxo logístico, em especial no segmento da siderurgia. Novamente, os investimentos ultrapassam os R$ 600 milhões.
Parcerias com clientes têm ganhado peso na estratégia?
Sim. Uma outra prioridade são investimentos que possam solucionar dores específicas dos nossos clientes – inclusive sendo realizados em parceria com eles. Um exemplo é o investimento conjunto com a LD Celulose, para transporte de celulose solúvel diretamente da fábrica do cliente, no Triângulo Mineiro, para Aracruz, onde o material é exportado ao mercado global. Ao todo, foram mais de R$ 400 milhões aplicados na aquisição de vagões (mais de 200) e locomotivas.

Qual mudança concreta a digitalização e a automação já provocaram na produtividade logística brasileira?
Nos portos, por exemplo, o Sistema de Planejamento de Embarque e Desembarque de Navios (Speed) utiliza cálculos navais e Inteligência Artificial para simular cenários operacionais e criar planos de desembarque ou embarque de cargas otimizados gerando, principalmente, maior produtividade em nossas operações e mais satisfação dos clientes. O Speed já conseguiu alcançar importantes resultados em termos de ganho de eficiência. Em operações específicas, o sistema reduziu a ociosidade de alguns equipamentos em até 62% durante o tempo de operação. Além disso, a ferramenta gerou um aumento na taxa comercial, indicador de performance crucial, que mede o volume médio carregado durante toda a estadia do navio no porto.
A agenda de redução de emissões já influencia decisões operacionais e de investimento no setor logístico? Pode citar um caso prático que ilustre essa mudança?
Sustentabilidade também é foco para transformamos a logística do Brasil – investimos continuamente na adoção de tecnologias de digitalização e automação, buscando operações mais seguras, eficientes e com menores emissões de CO2.
A logística ferroviária tem papel central na transição para uma economia de baixo carbono, principalmente com a transferência de cargas do modal rodoviário para as ferrovias.
Quais tecnologias já estão gerando ganhos concretos?
Além de o transporte ferroviário já ser intrinsicamente mais sustentável, a VLI investe em tecnologias para ampliar sua contribuição ao meio ambiente, em linha com seu compromisso público de reduzir as emissões de gases do efeito estufa por tonelada transportada em 15% até 2030.
Há resultados mensuráveis dessas soluções?
Como exemplo, posso citar o sistema Leader, adotado em nossa frota de locomotivas premium. Com ele o maquinista tem a opção de habilitar a condução semiautônoma e o sistema passa a atuar em tempo real, permitindo uma operação mais eficiente em termos de aceleração, frenagem e consumo de potência, minimizando desperdícios. A perspectiva é de economia de 7% de combustível nas locomotivas dos corredores Leste e Sudeste da FCA ao longo deste ano.
Outro exemplo é o Fuelytics, desenvolvido em jornadas de intraempreendedorismo da VLI. A ferramenta reúne informações operacionais – como as oriundas dos computadores de bordo das locomotivas – e, através de modelagem matemática, consegue obter correlações estatísticas e identificar as variáveis com maior potencial de redução de combustível por localidade. A ferramenta também é capaz de fornecer informações, que possibilitam a obtenção de ganho em performance e consequente redução no consumo de combustível (mais de 3 milhões de litros) e emissão de CO₂.
Clientes também participam dessa agenda?
Sem dúvida. A VLI também estende aos clientes a possibilidade de compensarem as emissões de gases de efeito estufa das suas operações de transportes por meio do projeto SemC, utilizando créditos de carbono vinculados a cada operação.
Como a VLI avalia a concessão da EF-118 e qual papel pretende exercer nesse cenário?
Como player relevante do setor, a VLI avalia todas as oportunidades disponíveis no mercado, mas não se manifesta de forma antecipada sobre nenhuma delas. A companhia vê como positivo o fortalecimento da infraestrutura do país e um bom momento do mercado ferroviário, de uma forma geral, com o anúncio do Plano Nacional de Logística, que orienta o planejamento de longo prazo da infraestrutura brasileira para reduzir custos e aumentar a eficiência. Somos parceiros do desenvolvimento da infraestrutura do país e acreditamos que o país avance conforme sua infraestrutura se fortaleça.
Se o Brasil quiser se tornar uma potência logística global na próxima década, qual decisão estrutural precisa tomar agora?
As renovações das concessões são um passo importante nesse sentido, uma vez que trazem a previsão de investimentos robustos para um ciclo de 30 anos.
Além disso, é essencial baixar os custos logísticos no país. Segundo um levantamento realizado pela consultora ILOS, os custos com a logística no Brasil representam 15,5% do PIB do país, enquanto os mesmos custos nos Estados Unidos representam apenas 8,8%.
Nesse sentido serão bem-vindas discussões sobre formas eficientes de financiamento de projetos (prazo e custo), ampliação da capacidade da indústria de base para redução da dependência de importações – vide o exemplo de trilhos, em que não há fabricação no país.
Além disso, não só para a logística mas para todos os segmentos econômicos do país, ter uma base educacional sólida é essencial para garantir os talentos com alta performance e capacidade de inovação, para que o Brasil possa manter sua competitividade tanto na produção de commodities como também na prestação de serviços com alta complexidade, como é o caso da Logística Multimodal Integrada.

Nota do Editor: Da divisa sul com o Rio de Janeiro até alcançar a Grande Vitória, o traçado da Ferrovia Centro-Atlântica atravessa 11 municípios capixabas, incluindo Cachoeiro de Itapemirim e Mimoso do Sul, cruzando áreas de serra — passando por Marechal Floriano e Alfredo Chaves — e chegando a centros metropolitanos como Viana, Cariacica e Vila Velha. Em renovações de concessão, intervenções costumam priorizar travessias urbanas críticas, como passagens em nível e trechos inseridos em áreas densamente ocupadas. A lista final dependerá do desenho definitivo da concessão e da definição dos segmentos que permanecerão sob gestão da operadora ou poderão ser devolvidos à União.
Essa entrevista foi publicada originalmente na Edição 232 da Revista ES Brasil — Portos: O Poder da Logística, de março de 2026. Clique neste link para conferir a edição completa.

