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segunda-feira, 27 junho, 2022

Espírito Santo: o desafio de agarrar o “cavalo selado”

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Oportunidades que o Espírito Santo não pode perder. Foto: Reprodução

Especialistas apontam as oportunidades que o Espírito Santo não pode perder para se tornar “a bola da vez” na logística  

Por Luciene Araújo

O Espírito Santo tem fortes motivos para criar expectativas muito boas de crescimento. Além de vantagens que sempre existiram, tais como proximidade com as demais regiões do país e a existência de portos, rodovias e ferrovias importantes, há um novo movimento em ação, capaz de fazer toda a diferença no desenvolvimento do Estado.

Em 2021, houve recorde de investimentos privados, com R$ 10,7 bilhões de aportes aprovados no Programa de Incentivo ao Investimento no Espírito Santo (Invest-ES). Um montante muito próximo dos R$ 11 bi registrados nos cinco anos anteriores somados.

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Diante de um cenário de equilíbrio fiscal que por si só já traz mais segurança aos grandes investidores, o Estado vem criando um excelente ambiente de negócios, capaz de atrair os olhares do restante do país e até mesmo do mundo.

Na avaliação do presidente do Sindicato de Importação e Exportação do Espírito Santo (Sindiex), Sidemar Acosta, especialmente no setor de comércio exterior e atacadista, essa união resultou, por exemplo, em uma das principais vitórias recentes: a aprovação da Lei nº 186/2021, que trouxe um reforço aos setores e traça uma perspectiva de mais de 10 anos para o desenvolvimento da infraestrutura logística do Espírito Santo. Com isso, garantiu-se a manutenção de mais de 100 mil empregos e a permanência das atividades de mais de mil empresas em solo capixaba.

Acosta aponta que a crescente demanda de produção e exportação de grãos do cerrado brasileiro exigirá uma capacidade maior de escoamento, tanto por ferrovias quanto pelos portos nacionais. “Com isso, o Espírito Santo se mostra com vantagens competitivas e redução de custos para estados como Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e o Distrito Federal. O Porto da Imetame será uma alternativa para essas cargas no corredor Centro-Leste”, enfatiza o presidente. Mas ele deixa claro que para atender essa demanda são necessárias adequações, especialmente na ferrovia que interliga aqueles estados ao Espírito Santo.

Décadas de ouro

Houve um momento no Estado, especialmente entre as décadas de 1970 e 1990, em que se conseguiu um alinhamento estratégico de investimentos em logística. “Um período em que tivemos um Porto de Vitória muito forte, com bastante capacidade apara os portes de navios da época, e a construção dos Portos de Tubarão e Barra do Riacho. Ainda tivemos a construção da ferrovia Vitória-Minas e as rodovias BR-262 e BR-101 atendiam de forma suficiente a demanda”, destaca Luís Cláudio Santana Montenegro, especialista em infraestrutura e energia da Findes.

Mas, ao longo do tempo, houve um descasamento nessas conexões, explica Montenegro.

“Os investimentos, por exemplo, na BR-262 em Minas Gerais foram muito maiores. O Porto de Vitória, sem melhorias, começou a sofrer muito com a grave restrição de calado, e ficou com a estrutura defasada. Isso criou um gargalo no setor portuário e o corredor logístico do Espírito Santo, que até então era destaque nacional, se tornou pouco atrativo, tanto na questão dos portos quanto no acesso rodoviário”, ele aponta.

“A Vale irá construir o trecho que liga Cariacica a Anchieta, mas para o trecho de Anchieta a Presidente Kennedy é preciso ainda muita articulação a fim de se conseguir os recursos necessários” – Luís Montenegro, da Findes – Foto: Divulgação

Economista e pós-graduada em Logística e Comércio Internacional, Martha E. Ferreira é bastante crítica ao apontar as causas que levaram o corredor logístico do ES a estar hoje muito abaixo do potencial real. “Nossa infraestrutura, apesar de diversificada, é precária, não está conectada entre si e os gargalos são gigantescos: estradas estreitas, pontes inexistentes, interconexão estadual descontinuada e falta de melhor articulação política”, enumera. Ela destaca ainda que “a maioria da nossa produção é para o mercado local, exceto pedras ornamentais, mamão papaya e algumas especiarias. Não se cria cultura de comércio internacional permanente quando o incentivo oficial é provisório”, argumenta.

“A estrada de ferro é privativa do transporte de minério, conectada apenas entre as jazidas de Minas Gerais e o Porto de Tubarão, o que serve muito pouco para alavancar um corredor de exportação mais diversificado. Os portos mais importantes – Tubarão, Barra do Riacho e Praia Mole – são todos privados e exclusivos. O Porto de Vitória não tem possibilidade de crescer, por causa do seu calado e mobilidade. Além disso, o aeroporto de Vitória é um dos menores entre as capitais brasileiras. Poucos voos e nenhum internacional. Não existe transporte aquaviário para cargas, apesar de 400 km de costa marítima disponível”, argumenta a economista.

Quanto à articulação da bancada parlamentar na esfera federal, na avaliação da economista, “os atores políticos há décadas não demonstram interesse por ampliar profissionalmente a nossa conexão nacional e global”. Para ela, “a solução está na urna eleitoral, na educação de qualidade e na mobilização, sem tréguas, dos empresários urbanos e rurais, com o irrestrito apoio da população local”, finaliza.

Diretor do Instituto Jones dos Santos Neves e professor universitário, Pablo Lira, também defende que a articulação política da bancada federal poderia ser mais autuante. “Nossa bancada federal não pode se preocupar com coisas pequenas. Precisa se mobilizar com os grandes projetos em relação ao desenvolvimento do Espírito Santo”, aponta Lira. Mas ele destaca que a articulação entre os diversos agentes, incluindo a Federação das Indústrias (Findes) e o Governo do Estado, garantem condições ao Espírito Santo de pleitear uma maior integração com o Corredor Centro-Leste e outros avanços que novamente elevarão o Espírito Santo a um patamar de primeira grandeza enquanto referência nacional para o corredor logístico. “Temos todas as condições de chegar a 2030 em um novo cenário diferenciado”.

Fonte: ECO -101

O que já está acontecendo?

Na área portuária, além da desestatização da Codesa, ocorreram novos investimentos no Terminal Vila Velha (TVV)/Login e nas obras do Porto da Imetame, em Aracruz, que seguem em ritmo acelerado. “Além disso, os projetos do Porto Central e da expansão dos terminais privados mantém sinal verde. Outro ponto positivo do nosso Estado é a gama de galpões logísticos, que facilitam a recepção e escoamento das cargas de todo o mundo pelo Espírito Santo. Temos inúmeros desafios, mas também muitas oportunidades”, destaca Sidemar Acosta, do Sindiex.

Levantamento apresentado pela Findes em novembro de 2021 aponta que os investimentos previstos para o Estado em eficiência energética e logística até 2026 totalizam R$ 64 bilhões – o maior volume de investimentos nesses setores já autorizados para o Estado.

Ainda assim, como garantir que o Espírito Santo não perca o “cavalo selado”? A presidente da instituição, a empresária Cris Samorini, afirma que o desafio está em demonstrar o que será o Estado nos próximos anos. “Porque estavam olhando para o ES com a condição atual, porém com o que está vindo por aí, essa não é mais a condição de análise”.

Ela destaca que hoje a atuação da indústria espírito-santense no cenário nacional permite que o setor promova um debate sobre o quanto o Espírito Santo pode ficar isolado se não ocorrerem os investimentos necessários na malha ferroviária que conecta o estado ao Centro do Brasil. Na semana anterior ao fechamento desta matéria, representantes da entidade se reuniram com o Ministro da Infraestrutura, Marcelo Sampaio Filho, para demonstrar a importância do Estado no contexto nacional.

“O Brasil é muito grande e cada Estado tem seu nível de interesse, mas temos certeza, com os estudos feitos, que o potencial de crescimento portuário do Espírito Santo reduz de forma significativa o custo do frete. E essa é uma realidade que vamos trabalhar muito, para não ficar de fora dos avanços”, garantiu Chris Samorini.

Ação do governo

Diante desse cenário, uma das pautas prioritárias do Governo do Estado é a logística, garante o secretário de Estado de Inovação e Desenvolvimento, Ricardo Pessanha.

“O Estado tem realizado investimentos contínuos em melhorias e construção de novas estradas, rodovias e acessos a municípios, otimizando o tempo e reduzindo a distância entre as cidades capixabas e os modais logísticos localizados em seu território. Esta ação é promovida em todas as regiões capixabas, com o objetivo de estimular o desenvolvimento ordenado de norte a sul do Espírito Santo.”

A Secretaria participa de Grupos Técnicos de acompanhamento, discussão, promoção de debates e articulação com diversos órgãos, incluindo o Ministério da Infraestrutura (Minfra), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Secretaria Nacional de Transportes Terrestres para o desenvolvimento dos projetos das ferrovias EF-118 e Centro-Atlântica (FCA) e da rodovia BR-262.

Fonte: Findes

“A ferrovia EF-118 ampliará a competitividade e atrairá novos negócios, fomentando ainda mais o nosso desenvolvimento econômico. Em março deste ano, a Vale assinou um Termo de Doação do projeto básico da EF-118 por meio do qual a empresa se comprometeu a desenvolver e doar ao governo estadual o projeto básico da ferrovia que ligará Anchieta à divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro. São estudos sobre o traçado da nova ferrovia em um trecho de 88 quilômetros de extensão e devem estar concluídos e entregues ao governo em cerca de um ano”, disse Pessanha.

Outra pauta importante é a ferrovia Centro-Atlântica, fundamental ao escoamento de insumos do Centro-Oeste para os portos capixabas, reduzindo tempo e custo logístico e beneficiando toda a cadeia produtiva. “Enviamos contribuições à audiência pública da ANTT que colheu sugestões para aprimorar os estudos sobre a viabilidade da prorrogação do contrato da Concessionária Ferrovia Centro-Atlântica S/A. A análise jurídica da PGE/ES e o estudo técnico elaborado pela Findes com o apoio da Eagle Consultoria sinalizaram que os investimentos novos tornam a prorrogação antecipada da FCA mais vantajosa do que uma nova licitação da concessão”, pontuou Pessanha.

Quanto à rodovia BR-262, o secretário pontua que o Estado tem acompanhado o assunto, que é de âmbito federal, e que já foram realizadas diversas reuniões com o Minfra e a ANTT em 2020 e 2021. “Seguimos aguardando definições, visto que a reformulação do projeto prevê estratégias para mitigação de riscos como o aumento de preço com insumo de obras e a ANTT suspendeu o edital em fevereiro/2022”, explicou. Já em relação à BR do Mar (PL 4199/2020), Pessanha relatou que “é imprescindível a discussão dos reflexos do PL em voga e seus respectivos impactos na economia, que se mostra cada vez mais dinâmica.

O desenvolvimento de portos multicargas no Espírito Santo é essencial para tornar o comércio exterior capixaba mais dinâmico e promover maior integração e eficiência na economia estadual”, finalizou o secretário.

Os quatro desafios

Para fazer o alinhamento de todo o corredor logístico e para que os investimentos hoje planejados encontrem o máximo do seu potencial, é preciso vencer quatro desafios, na avaliação de Luís Montenegro, da Findes.

O primeiro é “trazer para o século 21 o trecho ferroviário que liga Belo Horizonte ao Triângulo Mineiro, como é o trecho entre BH e Vitória. Para isso, temos de renovar a concessão da ferrovia Centro-Atlântica. Assim, teremos a ferrovia saindo do Triângulo Mineiro e chegando ao Espírito Santo, onde já se liga aos portos de Vitória, de Tubarão e de Barra do Riacho”.

O segundo desafio é também no modal ferroviário: a construção da Ferrovia Litorânea, que ligará Cariacica a Presidente Kennedy, no Porto Central. A Vale irá construir o trecho que liga Cariacica a Anchieta, mas para o trecho de Anchieta a Presidente Kennedy é preciso ainda muita articulação a fim de se conseguir os recursos necessários.

Fonte: Findes

Já em relação às rodovias, a meta é destravar os investimentos na BR-262. “Temos uma equação a resolver: chegar a um custo que atraia o investidor e ao mesmo tempo um pedágio que não onere excessivamente a população, porque muitos dependem da rodovia para a sobrevivência”, aponta Montenegro. Para Luís, o terceiro desafio é atrair investidores com interesse em construir o trecho da ferrovia de Anchieta até Presidente Kennedy. Por fim, o quarto desafio está em concluir a duplicação da BR-101, o eixo rodoviário litorâneo que une todas as estruturas citadas anteriormente. “Precisamos buscar alternativas para resolver os impasses ambientais e concluir a duplicação”, explica.

Montenegro apresenta um dado que chama a atenção: consideradas apenas as operações com grãos, os investimentos propostos nas ferrovias podem levar a movimentação no Espírito Santo a um salto dos atuais quatro milhões de toneladas/ano para 26 milhões de toneladas até 2035.

Ele explica que uma simulação com menos da metade do potencial total leva o cálculo da redução de frete a até 16 dólares por tonelada, o que tornaria possível trazer muito mais cargas do que esse montante. “O Grande Desafio é este: reatar o casamento entre portos, rodovias e ferrovias, assistido no século passado. E apesar das dificuldades em relação ao montante desses investimentos, essa é uma possibilidade real, não uma previsão utópica.

Por isso, toda a sociedade deve estar empenhada nessas conquistas”, conclui o especialista.

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