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quinta-feira, 11 agosto, 2022

Os vilões da inadimplência

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A alta de preços de bens e serviços intensificou a pressão sobre os orçamentos familiares, principalmente das pessoas de média e baixa renda

Por Thiago Goulart

Dois macrodesajustes têm sido os vilões da inadimplência nas famílias brasileiras: a inflação e o desemprego. O primeiro eleva os níveis de preços, gerando perda de renda (11,73% aa); o segundo torna-se indicativo de um ambiente econômico cuja atividade produtiva tem rateado. Nesse quadro, enquanto não houver uma definição mais clara dos rumos da economia, a inadimplência tende a se manter elevada.

A alta de preços de bens e serviços como alimentos, energia elétrica, transporte público e gás de cozinha, recrudesceu a pressão sobre os orçamentos familiares, principalmente das pessoas de média e baixa renda. Eis alguns dados: de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) 77,4% das famílias estavam endividadas em maio. O Serasa Experian também trouxe números: 66 milhões de pessoas com dívidas em aberto no mês de abril. No início do ano, foram mais de dois milhões de brasileiros que se tornaram inadimplentes. Isso corresponde a dívidas que somam R$ 271,6 bilhões.

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A estatística é robusta e, adicionado a isso, no mês de junho houve o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) elevando a taxa básica de juros (Selic) em 13,25%, afirmando que a situação “demanda cautela adicional” e prevê outro aumento dos juros, “de igual ou menor magnitude”. Isso posto, o ciclo de aperto monetário parece avançar em território contracionista. Em outras palavras, ficará ainda mais difícil a obtenção de crédito no mercado. Aliás, contrair empréstimos pode ser um fator de risco para o endividamento das famílias.

Apesar da queda dos indicadores de desemprego, ainda contabilizamos 11,3 milhões de desocupados no trimestre de fevereiro a abril. Nesse período, a renda média habitual foi 7,5% menor que a de um ano antes, descontada a inflação. Por outro lado, as campanhas de renegociação promovidas por algumas entidades ligadas ao comércio têm trazido certo alívio, mas não têm sido suficientes.

Com relação ao perfil das dívidas, os segmentos de Bancos e Cartões possuem 28,1% dos débitos, enquanto contas básicas como água, luz e gás representam 22,9%. Na comparação com abril de 2021, o setor de Financeiras foi o que teve maior aumento na participação de inadimplência, indo de 9,6% para 12,4%.

Um ponto adicional: o crescimento da inadimplência também tem causas que ultrapassam a fronteira dos aspectos financeiros. É o exemplo da educação financeira.
A ausência de uma cultura financeira de base escolar contribui com o endividamento e a inadimplência. Este fato não está restrito somente às camadas mais vulneráveis da população.

Todos esses macrodesajustes só serão enfrentados por meio de ações políticas em torno da defesa e promoção do emprego, crescimento econômico e contenção da alta de preços. Somente uma política econômica com o norte claro poderá ser eficiente na gestão das finanças públicas.

Thiago Goulart é Diretor de Conteúdo Técnico do IBEF-ES.

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