A pauta da sustentabilidade corporativa avança em métricas, regulação e mercados, mas sofre críticas de céticos e movimentos antirregulatórios no mundo
Por Daniel Hirschmann
O ESG (sigla para Environmental, Social and Governance, ou Ambiental, Social e Governança) vive uma encruzilhada decisiva. Depois de ganhar força durante a pandemia, impulsionado por investidores, consumidores e até reguladores, esse modelo de gestão empresarial voltado à sustentabilidade enfrenta agora uma pressão dupla.
De um lado, há avanços robustos na regulação, na padronização de métricas e no amadurecimento dos mercados. De outro, cresce a crítica ao greenwashing e surgem movimentos antirregulatórios em várias partes do mundo.
“Eu acredito que nós mais avançamos do que retrocedemos, nos últimos anos. Em especial, durante a pandemia, a agenda ESG no Brasil e no mundo teve um boom e vimos não só a mobilização de capital privado, mas também uma série de normatizações e avanços regulatórios e institucionais a favor dessa agenda”, observa o diretor de Global Policy no B Lab (Sistema de Certificação concedida a empresas que atendem aos mais altos padrões de desempenho socioambiental), Marcel Fukayama.
Cofundador do Sistema B no Brasil e da consultoria de investimentos Din4mo, com foco em iniciativas em torno da nova economia e que visam à redução de desigualdades, Fukayama afirma que, com a complexidade da agenda geopolítica recente, percebe-se “um grande freio de arrumação em que a agenda aparentemente tem um retrocesso, em que empresas deixam de ser mais vocais, mas se espera que sigam fazendo suas práticas”.
Avanços regulatórios
Nos últimos anos, o principal vetor de avanço da agenda ESG no mundo não foi o mercado, nem a pressão social, mas as ações regulatórias — especialmente na Europa, mas também em países emergentes como o Brasil. A União Europeia puxou a fila com um conjunto robusto de diretrizes que, na prática, obrigam empresas a medir, reportar e reduzir seus impactos socioambientais. Entre os principais marcos estão a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), que torna obrigatória a divulgação de informações ESG, e a Corporate Sustainability Due Diligence Directive (CSDDD), que exige responsabilidade das empresas sobre impactos ambientais e sociais em suas cadeias produtivas.
Outro movimento decisivo é a Green Claims Directive, que combate alegações ambientais enganosas, mirando diretamente o greenwashing — prática em que empresas simulam compromissos ambientais sem sustentação real.
Além disso, o ESG Ratings Regulation estabelece regras para agências de rating ESG, trazendo mais rigor e comparabilidade para os indicadores.
No campo contábil, a criação do ISSB (International Sustainability Standards Board), vinculado à IFRS Foundation, representa uma guinada histórica: pela primeira vez, a sustentabilidade passa a ser tratada com o mesmo grau de rigor que a contabilidade financeira. Suas duas primeiras normas, o IFRS S1 e o IFRS S2, definem padrões globais para divulgação de informações sobre sustentabilidade e clima.
O Brasil não ficou para trás. Em 2023, tornou-se o primeiro país do mundo a adotar formalmente os padrões do ISSB, por meio da Resolução CVM nº 193, que passa a ser obrigatória para empresas de capital aberto a partir de 2026. “No balanço, eu diria que nós mais tivemos avanços do que retrocessos e temos aí um ajuste especialmente na combinação de discurso e prática”, avalia Fukayama.
Contexto geopolítico
De acordo com o executivo do B Lab, mesmo o contexto geopolítico e os movimentos antirregulatórios não devem desacelerar a agenda global ESG, mas podem influenciar – e já estão influenciando – uma mudança de posicionamento e narrativa. “Tem um tema de mudança e evolução de linguagem, mas também tem um tema de posicionamento”, pondera Marcel Fukayama.

Ele salienta que, em especial por conta das desigualdades e da emergência climática, essa agenda deve ser vista também pela gestão de risco por parte dos investidores. Isso porque o ano de 2024 foi o mais desafiante na agenda climática, no Brasil e no mundo, já que o planeta superou 1,55° C de aquecimento, o que ultrapassa o limite de 1,5°C até o final desse século, estabelecido no Acordo de Paris. “Então, nós temos pelo menos 75 anos até o final deste século, já tendo superado a meta estabelecida, e temos que nos mobilizar e nos posicionar para uma gestão de risco também”, alerta o analista.
Esse quadro leva a uma série de redefinições na indústria, como no caso das seguradoras, que precisam se reinventar nesse novo contexto de adaptação e resiliência climática.
“Acredito que esse contexto é o que permite não desacelerar a agenda global”, aponta Fukayama.
*Matéria publicada orginalmente na revista ES Brasil nº 227, de junho de 2025. Leia a edição completa do Anuário Verde aqui.

