Maythê Costa conquista o prêmio de Melhor Filme de Justiça Social com “Camille” e fala sobre os bastidores do filme e seus próximos projetos
Por Jessica Coutinho
Aos 21 anos, a diretora capixaba Maythê Costa Nali acaba de alcançar um feito raro: vencer o prêmio de Melhor Filme de Justiça Social no Festival de Cannes com sua primeira obra cinematográfica. Intitulado Camille, o filme foi produzido de forma independente e aborda com profundidade temas como violência doméstica e abuso infantil. Em entrevista à ES Brasil, Maythê compartilha a trajetória por trás da produção, a escolha do tema e os planos para o futuro.
Criada no Centro de Vitória e filha de artistas do audiovisual, o pai, diretor; a mãe, roteirista, Maythê cresceu cercada pela arte e pela narrativa. “Cresci na Fafi, no Carlos Gomes, sempre amei esse ambiente. O cinema veio dos meus pais. Quando fiz 14 anos, a gente se mudou para São Paulo com a produtora da família”, relembra. A transição marcou o início da imersão definitiva no audiovisual.
Segundo a diretora, Camille nasceu de uma urgência. “A gente não fala o suficiente sobre violência contra a mulher e contra crianças. E isso continua acontecendo o tempo inteiro, ao nosso redor. O filme é uma denúncia. Dura, necessária e feita para ser sentida”, afirma.
A trama gira em torno de Lana, uma documentarista que perde a melhor amiga, Camille, vítima de violência doméstica. Ao longo da narrativa, Lana confronta a culpa e a ausência de sinais explícitos, numa tentativa de compreender como não percebeu os abusos que a amiga sofria.
Gravado em apenas uma semana, com uma equipe de cerca de 20 pessoas, o filme foi rodado em uma única locação o que facilitou a logística. Mas o desafio era grande. “Foi o meu primeiro filme. Descobri que dirigir é muito mais do que ter uma visão criativa. É gerir pessoas, cronogramas, prazos. E fazer isso com orçamento limitado exige um esforço coletivo enorme”, conta.
A produção foi realizada em parceria com o projeto Quebrando o Silêncio, voltado à prevenção da violência doméstica. A equipe técnica foi majoritariamente feminina, incluindo a roteirista e a montadora, escolha intencional diante da sensibilidade do tema. “A gente quis que essa história fosse contada por quem entende essa dor. Infelizmente, é uma vivência que muitas mulheres compartilham. Isso trouxe um olhar real e empático para o filme”, explica.
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A autenticidade das interpretações também foi marcada por experiências pessoais. Antes de rodar uma das cenas documentais, as atrizes participaram de uma roda de conversa e compartilharam vivências reais de abuso. “Elas sabiam exatamente o que fazer. Era como se não precisassem de direção. Aquilo já fazia parte da história delas”, diz Maythê.
Além de Cannes, Camille também foi premiado em Los Angeles na mesma categoria. A obra está disponível gratuitamente no YouTube, no canal Feliz 7 Play. Segundo a diretora, a escolha por tornar o filme acessível foi natural. “A missão é que ele chegue ao maior número de pessoas possível. Esse tipo de conteúdo precisa ser visto, sem barreiras”.
Enquanto celebra o reconhecimento internacional, Maythê já prepara o lançamento de seu próximo filme, previsto para setembro. Intitulado Pela Última Vez, o projeto tem como foco a saúde mental e também já foi premiado em um festival na França. “É outro tema que precisa ser discutido com responsabilidade. Estou ansiosa para lançar”, revela.
Ao ser questionada sobre o que diria a jovens cineastas que sonham em trilhar o mesmo caminho, Maythê é direta: “Não sabote suas próprias ideias. Crie. Arrisque. O prêmio é consequência. O mais importante é contar uma história que faça sentido para você e para os outros”.
Ouça abaixo o podcast da entrevista na íntegra!

